Entrevista:O Estado inteligente

sábado, novembro 18, 2006

Os soviéticos temiam a Alemanha unificada

O que eles diziam em segredo

Diálogos entre os caciques soviéticos revelam
que temiam a Alemanha reunificada


Diogo Schelp

AP
Alemães tomam o Muro de Berlim, em 1989: Gorbachev recusou-se a reprimir

O Politburo soviético sempre foi um território de intrigas e traições. O que acontecia a portas fechadas, quando a cúpula comunista se reunia, era um segredo tão bem guardado que nem sequer havia um taquígrafo para fazer as atas das reuniões. Parte do mistério só agora foi desvendada, quinze anos depois de a União Soviética virar fumaça. Dois volumes com documentos inéditos, publicados neste ano na Rússia, revelam detalhes das discussões travadas no coração do poder soviético durante o governo de Mikhail Gorbachev, entre 1985 e 1991. São anotações feitas por três membros do Politburo com o conteúdo dos debates. Elas revelam a tensão crescente entre Gorbachev e a linha dura comunista, que tentaria derrubá-lo com golpe de Estado em 1991, quatro meses antes do desmanche da União Soviética. Com a notável exceção de alguns poucos aliados, como o ministro de Relações Exteriores, Eduard Shevardnadze, os caciques vermelhos estavam em pânico com o projeto de glasnost (abertura política) e perestroika (reestruturação econômica) de Gorbachev.

Criado por Vladimir Lenin em 1917, o Politburo era o núcleo central do poder bolchevique, com total autoridade para decidir as questões de Estado. "As resoluções do Politburo deveriam ser tomadas de maneira colegiada", diz o russo Alexander Zhebit, professor de política internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. "O fato de nos derradeiros anos elas terem ocorrido em meio a um racha entre seus membros, como parecem indicar as atas recém-divulgadas, é um claro sinal do enfraquecimento do poder de Gorbachev", completa Zhebit. As discordâncias são evidentes nas discussões sobre o destino da Alemanha dividida. As atas mostram que Shevardnadze chegou a sugerir que os próprios soviéticos tomassem a iniciativa de pôr abaixo o Muro de Berlim, cujo fim parecia inevitável, o que revoltou o chefe da KGB (veja o quadro abaixo). Os soviéticos não chegaram a tanto, mas avisaram que não usariam mais a força para manter o comunismo no Leste Europeu, e o Muro foi derrubado pela população alemã-oriental.

Scott Stewart/AP
Ronald Reagan com Gorbachev, em 1985: o Exército Vermelho se opôs à redução dos mísseis


Em uma reunião de janeiro de 1990, quando os pedaços do Muro já estavam sendo vendidos como suvenir aos turistas, o premier Nicolai Rizhkov expressa a preocupação soviética com a possibilidade da reunificação: "Se permitirmos isso, a Alemanha será capaz de começar a III Guerra Mundial daqui a vinte ou trinta anos". Rizhkov estava em sintonia com as preocupações de alguns dos principais líderes do Ocidente, como mostram as anotações feitas por Anatoli Cherniaiev, o assessor para política externa de Gorbachev. Em outubro de 1989, um mês antes da queda do Muro, Cherniaiev anotou em seu diário: "Todos, de François Mitterrand (presidente francês) aos prefeitos europeus, nos dizem: ninguém precisa de uma Alemanha reunificada. Em uma conversa com Gorbachev, Margaret Thatcher (primeira-ministra inglesa) pediu, de supetão: não anote o que vou dizer agora – sou completamente contra a reunificação da Alemanha, mas não posso dizer isso publicamente em casa ou na Otan".

Nos assuntos internos, as divergências mais sérias diziam respeito às questões militares e às reformas políticas e econômicas pretendidas por Gorbachev. Um ponto crítico era decidir se as manifestações nacionalistas nas repúblicas soviéticas e no Leste Europeu deveriam ser permitidas ou esmagadas com tropas, como a União Soviética sempre fizera no passado. Esses protestos acabaram por precipitar o fim do império soviético, mas Gorbachev não aceitava usar a força para impedi-los. Em uma reunião de abril de 1989, ele deu um puxão de orelha em Vladimir Alexandrovich Kriuchkov, chefe da KGB, o serviço de inteligência soviético. Gorbachev estava furioso com a repressão a tiros de uma manifestação em Tbilisi, na Geórgia, que matou vinte pessoas: "Vladimir Alexandrovich! Sim, estou olhando para você. Veja o episódio em Tbilisi: o que significa isso? Era realmente necessário? Claro que não". Dois anos depois, Kriuchkov foi um dos conspiradores do golpe contra Gorbachev.

A principal fonte de atrito com os militares, segundo mostram os documentos do Politburo, era a insistência de Gorbachev em reduzir o arsenal nuclear. "Vocês querem transformar o país inteiro em um acampamento militar?", perguntou Gorbachev em uma reunião em maio de 1987. A economia soviética não era capaz de sustentar a corrida armamentista com os Estados Unidos, mas o Exército Vermelho sabotava os projetos para reduzir os gastos militares. "A grande discussão daquele período, na União Soviética, era se os gastos militares eram um fardo ou, ao contrário, ajudavam a estimular a economia", diz o historiador Angelo Segrillo, do Rio de Janeiro, autor do livro O Fim da URSS e a Nova Rússia. Os diálogos mostram como Gorbachev tinha dificuldade em colocar em prática decisões já tomadas, como a retirada das tropas soviéticas do Afeganistão. "Por que vocês não fazem isso?", reclama o líder soviético numa reunião em julho de 1986. "Quem está se recusando a colocar em prática as decisões que tomamos aqui no Politburo?"
Foto Sergei Karpukhin/Reuters

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