Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, junho 06, 2006

Um ano depois


EDITORIAL
Folha de S. Paulo
6/6/2006

Da Justiça se deve esperar uma resposta à altura do escândalo do
mensalão; a punição política ficou aquém do esperado

PASSADO um ano das primeiras denúncias sobre o mensalão, ainda não se
vislumbra uma resposta compatível com a gravidade das acusações.
Mesmo que parte dos processos ainda aguarde julgamento, as evidências
disponíveis, graves o bastante para exigir punições severas e um
profundo reexame do sistema político nacional, suscitaram
desdobramentos tíbios, quando não meramente formais.
Os mais de R$ 10 milhões desviados da Visanet para irrigar o
"valerioduto" -quantia semelhante à que o publicitário Duda Mendonça
confessou ter recebido ilegalmente do PT-, os R$ 21 milhões sacados
das contas de Marcos Valério de Souza entre julho de 2003 e maio de
2005, os "empréstimos" contraídos pelo mesmo publicitário mineiro no
BMG e no Banco Rural, todos esses fatos estão devidamente
documentados e provados.
A denúncia apresentada pelo Ministério Público, a síntese mais
consistente e objetiva sobre o caso, obteve justificada repercussão,
mas a seqüência da ação penal agora depende do Supremo Tribunal
Federal. O documento, assinado pelo procurador-geral, Antonio
Fernando de Souza, descreve em detalhes a orquestração do crime e é
categórico ao afirmar que todas as denúncias reveladas em entrevista
à Folha pelo então deputado federal Roberto Jefferson foram comprovadas.
É preciso respeitar os prazos da Justiça; a importância e a
visibilidade do caso não devem levar ao açodamento. É do Judiciário,
porém, que se deve esperar uma resposta à altura dos desmandos
cometidos nas mais altas esferas do poder, no entorno imediato da
Presidência da República -embora o ocupante do posto tenha dito,
reiteradas vezes, que de nada soube, que foi traído.
As condenações políticas ficaram muito aquém do razoável: dos 19
deputados acusados de envolvimento, três tiveram seus mandatos
cassados. A flagrante maioria -11 parlamentares- acabou absolvida,
mesmo os que confessaram o saque de recursos ilegais, em rituais de
leniência e compadrio que ajudaram a derrubar a confiança da
população no Congresso Nacional.
A ruína ética e o desmoronamento das cúpulas do PT e do governo Lula
são itens de destaque no balanço da crise. A despeito disso, o
lulismo agora patrocina uma campanha cujo objetivo é apagar, nos
eleitores, a memória do que foi o escândalo de corrupção. A
estratégia oportunista se vale dos altos índices de popularidade
presidencial -ancorados em dinheiro transferido a famílias pobres e
melhoras discretas no emprego- e aposta no desgaste que o tempo
decorrido desde as primeiras denúncias emprestou ao tema.
Impedir que o mensalão se torne apenas um episódio no rol de
escândalos esquecidos da política nacional depende, mais do que
nunca, da capacidade de resposta das instituições democráticas;
instituições que abrangem o processo eleitoral -no qual a população
será estimulada a rememorar os desmandos e a refletir sobre seu
significado-, mas que a ele não se limitam.

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