O Globo
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A BR-163 é a mais desejada pelos produtores de soja e a mais temida
pelos ambientalistas. Ontem, dia do Meio Ambiente, a ministra Marina
Silva anunciou a licença definitiva para o asfaltamento da estrada
que corta a Terra do Meio, onde é ainda mais rica a diversidade
brasileira. O gesto ousado de Marina Silva é para dizer que é
possível a conciliação entre meio ambiente e economia.
Para tornar a BR-163 aceitável, o governo anunciou a criação de novas
unidades de conservação, de parques, demarcou terras indígenas, criou
formas de proteção da floresta. Segundo o secretário de
Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente, João Paulo
Capobianco, é a primeira vez que se dá uma licença já com o projeto
de desenvolvimento sustentável junto e negociado com todas as partes
em debate.
No discurso no Palácio, a ministra Marina Silva elogiou os
empresários brasileiros que estariam, segundo ela, fazendo concessões
exatamente para se encontrar um terreno comum entre desenvolvimento
econômico e preservação do meio ambiente.
Cedo para comemorar, mas vale a tentativa de encontrar um meio-termo,
um campo comum, com concessões recíprocas.
Estamos longe da conciliação. Os empresários querem a flexibilização
das exigências ambientais sem explicar o que isso significa. Alguns
ambientalistas temem qualquer hidrelétrica, qualquer nova estrada em
área de fronteira e qualquer novo projeto agropecuário.
É inegável que o Brasil precisa aumentar o crescimento econômico e a
oferta de emprego, mas certos avanços têm sido, na verdade,
insensatos retrocessos porque podem provocar, ao fim de alguns anos,
apenas mais destruição e pobreza.
A Cuiabá-Santarém hoje é uma estrada quase intransitável, que tira
produtividade da soja que vai usar o Porto da Cargill em Santarém
para ser exportada. O governo anunciou ontem que começará a repará-la
com o trabalho do Exército e que assinará, em breve, uma Parceria
Público-Privada para asfaltá-la. Quando ela estiver asfaltada, as
terras da margem ficarão muito valorizadas, a grilagem terá mais
incentivo para avançar sobre a preciosa Terra do Meio.
O governo avisa que já aprovou preventivamente as medidas que vão
proteger as terras em torno da estrada.
— Na parte mais vulnerável, 80% das terras são unidades de
conservação ou terras indígenas demarcadas — disse Capobianco.
Pode ser que a região esteja protegida. Há riscos. Não de exploração
sustentável e racional, mas de grilagem de terra pública com
desmatamento predatório, como é feito hoje.
Razão para temer o pior existe. Só em três anos do governo Lula, 70
mil quilômetros quadrados de floresta foram destruídos. No ano
passado, houve uma queda do ritmo de destruição.
O desprezo do Brasil pelo meio ambiente é tal que hoje deve cair por
decurso de prazo o projeto que transforma o cerrado em patrimônio
nacional. Com dois terços do bioma destruídos em 40 anos, o cerrado
está minguando, como acabei de ver em recente viagem ao Parque Grande
Sertão Veredas.
Uma comissão especial foi criada para analisar a Proposta de Emenda à
Constituição (PEC) que reconhece o cerrado como patrimônio nacional.
O presidente da comissão, deputado Ricarte de Freitas, já avisou que,
se hoje não houver quórum, ele vai arquivar a proposta. Até agora, de
16 reuniões convocadas, apenas a primeira foi realizada, 4 foram
canceladas e, em 11, não se obteve quórum.
Mesmo a Mata Atlântica, mais valorizada e conhecida, tem apenas 7% da
cobertura original e o projeto que regulamenta a sua proteção está há
inexplicáveis 14 anos no Congresso sem ser aprovado.
Se funcionar o projeto de fazer a estrada cercando-a de plano de
sustentabilidade, o país terá, de fato, dado um passo adiante. É uma
aposta ousada num país com tão pouco apreço à lei e numa região com
tanta história de banditismo.
Há outros desafios pela frente na linha dessas conciliações. Projetos
hidrelétricos, como os do Rio Madeira, que são defendidos pelos seus
construtores — Furnas e Odebrecht — pela área energética do governo,
mas temidos pelo Meio Ambiente como ponta de lança de um projeto que
pode acelerar a destruição da maior floresta úmida do planeta.
Roupa de valor
O Rio está sentindo menos o efeito do câmbio, que tem atingido com
força as exportações de roupas em todo o país. No primeiro trimestre,
a queda nas vendas brasileiras para o exterior foi de 16%; enquanto,
no Rio, houve crescimento de 1,38%. A explicação, diz a Firjan, está
no alto valor agregado — que, aliás, vem aumentando — das roupas
fabricadas no estado. Como vendem porque são diferentes, ou mais
bonitas, e não simplesmente porque são mais baratas, o câmbio
desfavorável não prejudica tanto as exportações.
Nesta 9 edição do Fashion Rio, que começa hoje, os organizadores do
Fashion Business esperam vender ainda mais para os cerca de 80
compradores internacionais que estarão no evento.