BLOG JORNALISTA DIEGO CASAGRANDE
As pesquisas eleitorais se tornaram objeto de enorme controvérsia. Há países que proíbem a divulgação de pesquisas no período próximo ao dia da votação. Os candidatos que aparecem mal nas pesquisas criticam-nas. Os candidatos que aparecem bem nas pesquisas usam-nas para demonstrar que vão vencer. Trava-se um verdadeiro jogo retórico em torno da guerra de versões, que envolve a tentativa de induzir a opinião pública a comprar determinadas interpretações dos resultados das pesquisas publicadas.
O autor espanhol, Javier Del Rey Morató, mapeou alguns desses artifícios do que ele chama de jogos do termômetro social, e nos revela curiosidades interessantes. Segundo ele, trata-se de um contexto novo, inexistente antes dos anos 30 século XX, pois foi a partir da invenção do rádio que os meios de comunicação passaram a fazer com que os jogos de linguagem dos políticos pudessem chegar aos mais longínquos rincões da sociedade. Hoje, diz ele, a difusão dos jogos dos políticos ocorre sem restrições, e muitas vezes inclusive, esses jogos não são emitidos pelos políticos, mas por analistas a serviço de partidos, candidatos ou grupos.
Como os resultados publicados de pesquisas eleitorais influenciam as decisões dos eleitores, os políticos se vêem obrigados a disputar a imposição de versões interpretativas dessas pesquisas. Dessa forma, as pesquisas publicadas assumem um caráter estruturador da guerra de versões travada entre os políticos, desenhando o cenário em que vão se desenvolver os jogos de linguagem.
A estrutura do jogo apóia-se na manipulação das estatísticas; utiliza a seleção de dados específicos e da construção de ângulos de interpretação dos números; tem sua origem na necessidade dos políticos de reduzir a margem de incerteza com que atuam no mercado eleitoral e na necessidade de adequarem seus jogos à situação e à evolução desse mercado.
Antes de as pesquisas assumirem essa centralidade no novo jogo político, o argumentador interpretava o cenário eleitoral mediante exemplos do passado e impunha essa definição para mobilizar o eleitorado. Mas os jogos retóricos estruturados em torno da disputa pela imposição de versões interpretativas para os números das pesquisas, procuram definir um cenário eleitoral que se abre com o jogo do prognóstico dos resultados eleitorais futuros, a partir da leitura de resultados de pesquisas presentes.
A imposição de uma determinada leitura das pesquisas enreda o observador (seja ele o eleitor comum ou mesmo um político ou um jornalista leigo que reproduz uma determinada interpretação dos números), numa verdadeira armadilha. O analista de pesquisas publicadas, dessa forma, insere-se no jogo como uma espécie de oráculo que tem o poder de prever o futuro. Apoiar-se no prognóstico dele, se ele “nos favorece”, ou desconstituir esse prognóstico usando outras pesquisas ou outras interpretações das mesmas pesquisas, se ele “nos prejudica”, é um imperativo da disputa midiática em torno da construção de um clima de opinião que “nos interessa”.
As pesquisas publicadas durante campanhas eleitorais, independentemente de sua maior ou menor aproximação com resultado final, constituem um jogo retórico que cria o cenário em relação ao qual os candidatos e partidos discorrerão seus jogos de linguagem. Os levantamentos de opinião publicados, então, condicionam as estratégias de comunicação dos jogadores, porque definem o cenário em termos de eleições altamente competitivas, ou em termos de resultados perfeitamente previsíveis em que a vitória de um ganhador pode ser apresentada como definitiva e irreversível. Constituída a armadilha, o passo seguinte é enredar o eleitor na crença de que o simulacro é a realidade. Nem sempre funciona.
Morató chama a atenção para o fato de que, quando os analistas erram algum prognóstico, depois de terem inundado o espaço público e midiático com estimativas sobre o resultado da eleição, para explicar a distância entre o prognóstico e o comportamento eleitoral, recorrem ao conceito de reflexividade das situações sociais. Altas margens de erro; mudanças bruscas das tendências da opinião pública sob impacto de fatos novos, enfim, todo o tipo de argumento “técnico” é usado para explicar o inexplicável.
No que consiste o artifício que torna possível o jogo de linguagem que as pesquisas publicadas impõe à sociedade?
Primeiro, revela Morató, consiste em fazer crer que é a sociedade que se expressa através da pesquisa, o que equivaleria a imaginar que ao ligarmos o computador, é ele que se expressa, e não o programa que gravamos na winchester. O programa de perguntas e a “cozinha“ do instituto de pesquisa “firmam uma aliança” cujas regras de jogo pressupõe que o jogador fundamental – a sociedade ou o eleitorado – é colocado na posição de pano de fundo de todas as jogadas praticadas pelo os institutos de pesquisa; pelos partidos; pelos candidatos, e por que não acrescentar, por seus aliados na mídia.
Nesse contexto, a antecipação dos resultados de uma eleição, certa ou não, supõe uma definição da situação em que a incerteza sobre os resultados é substituída pela projeção de porcentagens preparadas para serem publicadas. Essa preparação passa pela formulação das perguntas, por seu ordenamento no questionário e chega até a escolha do momento e do espaço midiático da divulgação dos resultados.
Em situações em que as pesquisas se impõem sobre a percepção da maioria da sociedade como se fossem as verdadeiras expressões da opinião dessa maioria, a armadilha está criada e muitas vezes pode induzir experientes jogadores ou observadores da cena política, a tomar o simulacro pela realidade. Isto é, se o jogo de linguagem que substitui a realidade pela simulação de resultados não coincide com o que diz representar, os estrategistas de um partido correm o risco de tomar decisões, sobre uma determinada estratégia eleitoral, a partir de uma simulação que nada tem a ver com a realidade.
Não obstante o simulacro não representar a realidade, convém reconhecer que só a presença desse jogo de linguagem amplificado pela mídia já influencia a realidade eleitoral, por mais que essa influência não tenha sentido e interpretações únicas pelos receptores. O efeito prático, portanto, é de que as pesquisas publicadas produzem uma virtual interpretação sobre a realidade que substitui e se impõe sobre essa realidade, ou faz uma fotocópia truncada dela, e, na medida em que induz a percepção da sociedade, termina por condicionar as estratégias dos partidos e candidatos.
Sob influência dessas circunstâncias, os candidatos vêem-se obrigados a um esforço para otimizar o comparecimento de seus eleitores às urnas através da eficácia de suas mensagens, para obter vantagens sobre seus adversários. Esse esforço, revela Morató (1997), é mais freqüente quando o candidato está perto de atingir o objetivo e é mais intenso se as pesquisas prognosticam uma situação de alto risco para candidato que recorre a esse expediente.
Quando o que Morató define como “jogo do oráculo” coloca dois competidores nesse tipo de trama, se produz o “jogo do convite”. Um exemplo típico dessas situações, é o desafio que um candidato que está em situação crítica nas pesquisas faz a outro para que aceite um debate na TV. Essa tática comporta alguns riscos, pois a aceitação do debate pode ser desfavorável ao desafiante. Mas, estando ele em desvantagem nas pesquisas, ao decidir usar uma jogada desse tipo, o candidato deve fazer o cálculo da relação custo/benefício que supõe produzir como resultado.
Outra das receitas de qualquer campanha eleitoral, sobre a qual nos fala Morató, é a de recorrer a um leque de propostas políticas a serem implantadas se o candidato conseguir chegar ao poder. Trata-se do “jogo da promessa”. “Para conseguir a simpatia do povo, é necessário prometer pessoalmente a cada um, gratificações pessoais” aconselhava o cardeal Mazarin. Mas ele dizia também, que se tem que desconfiar de um homem que promete como demasiada facilidade, porque geralmente e mentiroso e pérfido.
Hoje em dia, no entanto, um político não pode fazer promessas pessoais a cada um dos eleitores. Assim, os candidatos se dirigem aos eleitores a partir das categorias sociais a que pertencem. Esse jogo parte de uma informação prévia sobre as demandas dos distintos grupos sociais. Essa demanda é apontada pelas pesquisas eleitorais. A seqüência desse jogo, depois de concluída a eleição com a vitória do candidato que prometeu, é um elenco de pretextos para adiar a implementação das promessas ou para explicar a impossibilidade de atendimento das demandas, ou ainda, a obrigação, imposta pela democracia, de jogar esse jogo com decisões administrativas e não mais apenas com palavras.
A TV criou a possibilidade de atingirem-se enormes audiências. Com isso, aumentou a dificuldade dos oradores para constituir uma imagem do seu público. Dessa forma, não resta alternativa se não recorrer a estatísticas aproximadas do auditório e emitir mensagens orientadas para públicos segmentados. Trata-se da identificação de categorias de pertencimento social que permitam atrair a adesão de segmentos específicos do eleitorado, mediante a atenção que presta a seus interesses de grupo, com mensagens que supõem uma resposta às suas aspirações e expectativas. A possibilidade de uma identificação simbólica com o orador, revela Morató (1997) ou, quando menos, um reconhecimento social e político do grupo associado e esses interesses e expectativas, é meta estratégica perseguida.
Esse novo jogo criado pelo impacto da TV, supõe uma audiência diversificada e complexa, antes inexistente, e perante a qual o emissor deve comparecer com um discurso múltiplo, capaz de chegar a esses novos públicos em relação aos quais não basta uma proclamação carregada de generalidades, na qual eles conseguem se ver refletidos.
Outro jogo importante é explicitado pela teoria da espiral do silêncio, que tem a ver com o que se pode expressar ou com o que não compensa expressar em público, e que também joga um papel importante nas campanhas eleitorais. Quando autora alemã Noelle-Neumann se refere à opinião pública como “o conjunto de opiniões sobre temas controvertidos que se pode expressar em público sem isolar-se”, está dizendo que a opinião tornada pública exerce um papel de construção de identidades grupais, isto é, serve para integrar o indivíduo na sociedade, para que não fique isolado. Temendo o isolamento social, a maioria dos indivíduos molda sua opinião a partir da opinião da maioria, ou mesmo, a partir daquilo que ele supõe ser a opinião da maioria.
Somente os indivíduos dotados de espírito de liderança não se importam de ficar isolados. O medo do isolamento, a distância social que lhe podem impor os demais, é o que leva o indivíduo comum à não se expor e a preferir por vezes o silêncio a manifestar publicamente sua opinião. Por essa razão os institutos de pesquisa passaram a introduzir em suas enquetes, a pergunta que inquire o eleitor sobre quem ele acha que vai vencer a eleição. É nesse contexto que se processa o recurso da caça ao voto volátil, isto é, daquele segmento do eleitorado que pode mudar seu voto sob influência da percepção que tem do clima de opinião em favor de um determinado candidato.
Segundo Ortega Y Gasset, “se você não é como todo mundo, se não pensa como todo mundo, você corre o risco de ser eliminado”. Sendo o medo do isolamento a força que mobiliza a espiral do silêncio, uma onda de opiniões favoráveis a uma nova maioria pode ser decisiva. Esse fenômeno aconteceu pelo menos duas vezes no referendo das armas, em 2005 no Brasil. Num primeiro momento formou-se um espiral do silêncio a favor do SIM. Num segundo momento o movimento inverteu-se consolidando a vitória do NÃO. O suo da Internet pelos defensores do NÃO jogou um peso fundamental na construção da onda pró-NÃO.
Nos jogos retóricos utilizados em campanhas eleitorais, muitas mensagens se destinam a captar a atenção e simpatia de um eleitorado flutuante, situado em “zonas intermediárias”, que em eleições anteriores votou em outro partido, mas que pode mudar de opinião e de intenção de voto. Para atrair esse eleitor, usa-se o conhecido jogo do voto útil, que se refere a um jogo retórico que vem predeterminado pela situação que as pesquisas descrevem, e que pretende por a trabalhar em proveito próprio a espiral do silêncio que afeta, preferencialmente, o eleitorado indefinido.
Na medida em que as pesquisas antecipam o possível ganhador e os quase perdedores, assim como apontam as forças políticas que estão destinadas a permanecer irrelevantes, o indivíduo que se deixa induzir pelo jogo da espiral do silêncio, nesse caso, é aquele que quer surfar a onda do candidato vencedor. O jogo retórico do voto útil, então, parte da premissa implícita de que nem todos são votos úteis, de que há alguns votos que são inúteis, argumento falso, e que só serve aos interesses de quem o põe em circulação.
Então camaradas de armas: vamos nos render ao simulacro ou vamos jogar o verdadeiro jogo do poder?