no mínimo | Política & Cia.
Denise Frossard gosta de um barraco. Não o da favela, mas o da
confusão. O da favela ela acha que não tem a menor graça. É símbolo
de pobreza, carência, vida precária – e ela avisa que não está aí
para glamourizar a miséria. A juíza aposentada, deputada federal
(PPS) e candidata a governadora do Rio provocou polêmica ao declarar
que não faria campanha política nos morros porque o Estado não lhe
dava segurança para isso. Foi atacada por todos os lados, chamada de
covarde e preconceituosa, e está adorando tudo isso. Desse barraco
ela gosta. No caso, acha que tocou na ferida da demagogia social e do
populismo.
“É bonito falar bem da favela, dizer que ali é um lugar bom e a
grande maioria dos moradores é honesta. Claro que é. Mas o que os
honestos precisam que os políticos digam é que essa maioria é refém.
Eu vejo as mulheres descendo os morros, tendo que abandonar suas
casas, e não é por causa de tiro. Os bandidos tomam as residências
delas, e ponto final. Quem está ouvindo a angústia dessas mulheres?
Ninguém, porque elas não falam. Não podem falar.”
“É com esses bandidos que muitos políticos fazem acordo para circular
tranqüilos pela favela. Eu não faço esse acordo. E quem diz que sobe
o morro tranqüilo, ou é louco, ou tem acordo com o crime. Eu subo
morro sozinha. Vou de táxi. Faço isso porque sou meio louca, e porque
é a minha profissão. Prendi 14 bicheiros, sofri três atentados. No
último deles, o ex-PM Jadiel Simeone, que está preso, confessou que
me seguiu e não me matou porque ainda não tinha recebido o dinheiro,
e foi preso antes. Mas os políticos não podem fazer de conta que
andar na favela é normal. É irresponsável não dizer a um cidadão
comum, a um servidor público, que ele está pondo sua vida em risco ao
entrar em boa parte das 700 favelas do Rio de Janeiro.”
“Esses líderes comunitários que estão dizendo esses dias ‘aqui a
propaganda da juíza não entra’, e parecem estar lutando contra um
preconceito, estão dizendo isso com que autoridade? Eu respondo: com
a autoridade do crime. Com que autoridade o deputado Chiquinho da
Mangueira foi à polícia dizer ao coronel Erir Ribeiro que aliviasse a
repressão ao tráfico no morro da Mangueira? Com sua autoridade
parlamentar? Não, com a autoridade do crime. E quem caiu em desgraça
no episódio, o deputado ou o coronel? O coronel. A mensagem foi
clara: quem manda não é o Estado, é o político que tem acordo com o
dono do morro. Esse é o jogo que eu me recuso a fazer.”
“Já cansei de ouvir relatos dramáticos de funcionários dos serviços
públicos em situação de risco de vida no seu trabalho cotidiano
nessas comunidades. O próprio prefeito César Maia já me relatou
diversos casos em que a prefeitura simplesmente teve que se retirar
da região para não expor a vida de seus agentes. É normal, isso? E a
kombi do TRE metralhada no Complexo do Alemão em 2002? É preciso um
pouco menos de demagogia e mais honestidade para falar de favelas.
Esse discurso de normalidade é puro populismo. É simpático enaltecer
a favela, as belezas da favela, a gente da favela. Mas quem está
disposto a admitir publicamente que a vida na favela está valendo
menos? E isso não tem nada de charmoso, nada de chique. A favela não
é fashion.”
“No dia do ‘fecha’, em 2002, quando a cidade do Rio acordou refém de um boato, perguntei: ‘Quem mandou fechar?’ Diziam: ‘Ninguém sabe, mas é pra fechar.’ Aí eu disse: ‘Então deixa que eu abro.’ Fui pro meu escritório na Rua da Matriz e um rapaz veio ameaçador: ‘Fecha, minha tia’. Eu perguntei: ‘Cadê a ordem judicial pra fechar?’ Ele respondeu: ‘É ordem do tráfico.’ Aí eu respondi: ‘Você está preso!’ O garoto saiu correndo. Não tenho medo de bandido. Em 15 anos, só condenei por crime de colarinho branco uma vez. O resto foi violência, homicídio. Pode parecer estranho o que vou dizer, mas conheço o cheiro de adrenalina do réu. E é o mesmo cheiro do juiz que condena. Outro dia fui ao morro do Tuiutí e um antigo réu meu me reconheceu. Homicida. Me levou para conhecer a casa dele. Sei que ali eu poderia levar um tiro. Essa é a minha vida. Mas não é e não pode ser a vida de um cidadão comum.” “Há 15 anos, a polícia só dava batida em casa de favela metendo o pé na porta. Quando vinham com o preso eu perguntava: ‘Cadê o mandado?’ Eles respondiam: ‘Mas doutora, a casa não tem nem número!’ Então eu comecei a dizer: ‘Fotografa a casa onde você quer fazer a busca. Aí te dou o mandado.’ Isso é muito feito hoje, mas há 15 anos não existia. Por isso, quando eu falo do morro, sei do que estou falando. O problema não é o candidato não subir lá. O problema é que o oficial de Justiça não sobe mais. Aí, só com pé na porta. E os demagogos dizendo que sobem tranqüilamente a favela. Sobem em acordo com os bandidos, os mesmos que não deixam o Estado entrar – o mesmo Estado que o demagogo pretende governar. Esse jogo eu não faço.” Aos 56 anos, prestes a ganhar seu primeiro neto, Denise Frossard não teme ser comparada com Sandra Cavalcanti – a combativa deputada de direita que pregava tolerância zero com as favelas, discurso contrastado por Leonel Brizola e sua liberalidade na ocupação dos morros. A candidata diz que jamais defenderá a remoção de favelas, e que conhece bem demais a gente de lá para ser insensível a ela. Um de seus velhos conhecidos era o dono do tráfico no morro Dona Marta, Marcinho VP, condenado por Frossard a 24 anos de prisão (onde foi morto). Ela via nele, no fundo, uma boa índole. “Teria dado uma pena menor, se a lei permitisse”, diz a juíza. Mas nada disso a faz deixar de afirmar que subir o morro, hoje, não é bom conselho para ninguém. Se eleita, Denise Frossard promete promover a invasão das favelas. Não uma invasão militar, antes que a peguem pela palavra. Uma invasão de serviços públicos. “Mas com a polícia na retaguarda.”