Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, junho 07, 2006

- O funeral da ‘sociedade civil’ por Guilherme Fiuza

no mínimo
Politica & Cia.
O nome já era meio estranho: “sociedade civil”. Quem é mesmo a sociedade civil? É a sociedade que não é militar? É a sociedade da porta do governo para fora? É todo mundo? Não importa. O importante é que agora a morte da sociedade civil está trazendo um alívio generalizado, pelo fato de que ela nunca existiu.

Este signatário costumava assinar um artigo semanal, às quartas-feiras, numa coluna que agora não existe mais (a mão-de-obra dela foi 100% deslocada para este blog). Num tempo em que nada permanece, em que as instituições nacionais babam diante de ladrões de galinha que as depenam tranqüilamente, e que já tem gente dizendo por aí que, diante da canalhice geral, resolveu ser honesto “só de sacanagem”, o artigo semanal vai continuar aparecendo neste espaço de notas. E permanecerá nas quartas-feiras. Só de sacanagem.

Voltando ao cadáver da sociedade civil. Muitos devem lembrar que ela já teve codinomes bastante simpáticos. Num dado momento da abertura política, “ouvir a opinião da sociedade civil” queria dizer que alguma autoridade ou jornalista ia dar um telefonema para o Betinho. O irmão do Henfil inventou o Ibase, que não era órgão do governo, não era empresa, nem universidade, nem igreja, nem partido. Betinho e o Ibase eram “a sociedade civil”.

Houve também a época de ouro da Famerj (na efervescência das associações de moradores no Rio), dos sindicatos do ABC paulista, da ABI, da OAB. Uma mistura de romantismo da esquerda com um certo heroísmo dessas instituições forjou a idéia, confortante, de que a “sociedade civil” não apenas existia, como tinha seu rosto e sua voz encarnados em cada uma dessas entidades. Mas foi um sonho de uma noite de verão. Infelizmente, um Barbosa Lima Sobrinho e um Herbert de Souza não duram para sempre. E na ausência deles, esses supostos rostos da sociedade civil vão se reduzindo a meras assombrações particulares.

O informe da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), por exemplo, andou trazendo destacada e insistentemente a fotografia do deputado Francisco Dornelles. Nada contra o rosto do deputado, mas a tal sociedade civil, se existisse, possivelmente acharia que estava difícil se reconhecer naquele espelho. De qualquer forma, no último quarto de século, a miragem rapidamente se reconstituía, bastando alguns versos de “Vai passar” ou de “O bêbado e a equilibrista” para alguma voz indignada gritar “chamem a OAB e a ABI!”.

Agora mesmo, na novela do mensalão, esses bastiões da sociedade civil foram requisitados para salvar a pátria das garras podres da sociedade não-civil. Demorou um pouco, mas a Ordem dos Advogados do Brasil finalmente apareceu. E apresentou uma notícia-crime contra Lula. Com uma peculiaridade típica dessa entidade-fetiche: a notícia-crime não noticia nenhum crime.

Foi bom que isso acontecesse, embora a sociedade civil mais uma vez nem vá notar, porque não existe. O importante é que o texto assinado pelo presidente da OAB, Roberto Busato, por ser um monumento à preguiça, à indigência intelectual e ao ridículo irremediável, funciona como uma espécie de atestado de óbito. Para quem insistir nessa miragem de sociedade civil, bastará sacar do bolso a notícia-crime da OAB e bradar: aqui jaz um caminhão de esperança vã do povo brasileiro.

Busato juntou três temas extraídos das manchetes dos últimos meses, colou neles alguns adjetivos e suposições contra Lula e anunciou que estava oferecendo ao Ministério Público a munição para incriminar o presidente. Deveria ser processado por falsidade ideológica. Mas isso não acontecerá, porque a coletividade, que um dia sonhou com essa história de sociedade civil, está acostumada a não ligar o nome à pessoa de quem lhe faz mal.

No enterro de Netinho, guitarrista dos Detonautas assassinado num assalto, o cantor do grupo discursou desejando que começassem “as baixas no lado da corrupção”. Não vai haver baixas no lado da corrupção, caro cantor, enquanto o lado da não-corrupção tiver idéias vagas e superficiais sobre as linhas de causa e efeito dos fenômenos que o aflige. Os deputados do mensalão têm se alimentado apetitosamente de palavras bonitas contra tudo isso que aí está.

Se as manifestações dos não-bandidos mantiverem esse padrão OAB de consistência, é bem capaz de os mensaleiros arriscarem até uma passadinha no velório da sociedade civil. Se bobear, ainda puxam um corinho de “O bêbado e a equilibrista” em homenagem à falecida.

Talvez os Detonautas pudessem liderar um movimento para apresentar, contra a governadora do Rio e o presidente da República, uma notícia-crime decente. Só de sacanagem.
[comente]

Publicado por Guilherme Fiuza - 7/06/06 6:00 AM 




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