Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, junho 07, 2006

VANDALISMO NO CONGRESSO

O MOVIMENTO DOS SEM-LIMITES
Ilimar Franco, Alan Gripp, Isabel Braga e Gerson Camarotti
O Globo
7/6/2006

A Câmara dos Deputados foi alvo ontem de cenas de vandalismo e de
extrema violência. Cerca de 500 manifestantes do Movimento de
Libertação dos Sem-Terra (MLST), comandados pelo secretário nacional
dos Movimentos Populares do PT e membro da executiva nacional do
partido, Bruno Maranhão, invadiram o prédio do Congresso. Os
manifestantes forçaram a passagem usando galhos de árvores, cones de
trânsito, pedras e paralelepípedos. Quebraram vidros; viraram um
carro que estava em exposição na entrada do Anexo II da Câmara;
destruíram portas de vidro e depredaram instalações e computadores,
deixando um saldo de 26 feridos. Os manifestantes foram detidos.
Maranhão foi o primeiro a ser preso.

Depois de uma tensa negociação, que durou quase três horas, os 500
invasores, que já estavam do lado de fora do Congresso, foram levados
para um ginásio de esportes, a menos de dois quilômetros da
Esplanada. Cercados no gramado em frente ao Congresso por policiais
militares do Batalhão de Choque, eles receberam voz de prisão do
diretor da Polícia Judiciária do Congresso, Alber Valle. Foram
revistados um a um, inclusive mulheres, idosos e crianças, e levados
em ônibus da PM.

Imagens identificam os agressores

No ginásio foi feita uma triagem para identificar os manifestantes
que participaram do quebra-quebra e das agressões. A identificação
seria feita com base em imagens do circuito interno de TV, de
fotógrafos e de cinegrafistas que a Polícia Legislativa reuniu ao
longo da tarde. O delegado da 2 Delegacia de Polícia do Distrito
Federal, Antônio Coelho Sampaio, informou que foram presas 549
pessoas, sendo 42 menores de idade. Onze foram identificadas como
líderes do MLST e transferidas para a delegacia. As demais seriam
ouvidos no ginásio. Todos os detidos foram presos em flagrante e
autuados por dano a bem pública, formação de quadrilha e corrupção de
menores. A polícia vai investigar ainda os envolvidos em lesões
corporais. Os sete líderes serão autuados por tentativa de homicídio.
Cerca de 490 pessoas ficaram no ginásio e seriam ouvidas de
madrugada. Os 42 menores foram levados para a Delegacia da Criança e
do Adolescente.

Os manifestantes foram levados para o ginásio depois que uma comissão
de deputados, temendo um novo conflito, negociou rendição deles. O
clima foi muito tenso:

— Por favor, temos que tentar uma saída pacífica — pedia o deputado
João Alfredo (PSOL-CE), em defesa dos manifestantes.

— Acontece que tem um agente nosso quase morto, isso não pode ficar
assim — reagiu o diretor da Câmara, Sérgio Sampaio, referindo-se a
Normando Fernandes, que até ontem à noite estava internado na UTI de
um hospital particular.

O tumulto começou por volta das 14h30m, quando os sem-terra tentaram
forçar a entrada no prédio da Câmara. A segurança não permitiu a
entrada, pois o protesto não estava autorizado. Os manifestantes
começaram a forçar passagem. Cerca de 12 seguranças da Câmara e oito
policiais militares, a serviço do Legislativo, tentaram impedir a
entrada.

Iniciou-se um empurra-empurra e uma grande confusão que durou quase
duas horas. O confronto na portaria do anexo que dá acesso às salas
das comissões durou cerca de 15 minutos. Atingidos por paus e pedras,
seguranças da Câmara caíram. Funcionários da Casa e visitantes, que
se aglomeraram para acompanhar a confusão, foram atingidos. Pessoas
gritavam, deputados corriam. Todos tentavam sair de perto da confusão.

Depois de arrombarem a porta do Anexo II, os manifestantes
percorreram 200 metros, destruindo o vidro da porta da sala da
taquigrafia e da porta que separa o Anexo II do túnel subterrâneo que
dá acesso ao prédio principal. Chegaram então ao Salão Verde, que dá
acesso ao plenário da Câmara. Eles entraram pulando e gritando “o
povo unido jamais será vencido”. A essa altura, já estavam armados
também com os suportes de aço usados para delimitar áreas de isolamento.

“Quero todos presos”, diz Aldo

A escultura “O Anjo”, do artista mineiro Alfredo Ceschiati, só não
foi destruída porque é de bronze. Os manifestantes ensaiaram uma
invasão do plenário, mas desistiram. Tentaram ainda entrar no Senado
pelo Salão Azul e no Salão Negro da Câmara, mas foram impedidos pela
segurança.

— Quero todos presos! — gritou o presidente da Câmara dos Deputados,
Aldo Rebelo (PCdoB-SP).

— Não quebramos nada. Tentaram impedir os trabalhadores de entrar na
sua Casa para fazer uma ação direta de soberania — afirmou Joaquim
Ribeiro, um dos sem-terra que pediam a aceleração da reforma agrária
e o fim do trabalho escravo.

— Estamos protestando contra a corrupção, o mensalão e o sanguessuga,
e pelo fim da medida provisória que impede a desapropriação de terras
invadidas — disse Jean Gomes, também da coordenação do movimento.

Deputados tentaram intermediar um encontro dos líderes com Aldo.
Diante da recusa de Aldo e de sua decisão de prender todos, Maranhão
organizou a saída dos manifestantes.

— Após ser informado, determinei que todos os envolvidos na ocupação
e depredação, sem exceção, sejam presos —- anunciou Aldo.

‘Não me arrependo de nada’

Pouco antes de ser preso, o coordenador nacional do Movimento de
Libertação dos Sem-Terra (MLST), secretário nacional dos Movimentos
Populares e membro da executiva nacional do PT, Bruno Maranhão, disse
que sua intenção era promover uma manifestação pacífica e dizia não
se arrepender de nada:

— Queremos fazer o debate democrático. Não me arrependo de nada que
eu fiz, pois não somos vândalos. A prova disso é que no ano passado
fizemos uma ocupação pacífica no Ministério da Fazenda.

Ele foi detido por oito seguranças da Câmara dos Deputados logo
depois, por volta das 17h, após retirar cerca de 500 militantes sem-
terra que invadiram e depredaram o Congresso Nacional. Maranhão
acabara de dar uma tumultuada entrevista, na qual apresentou uma
pauta de reivindicações, quando foi cercado por seguranças e detido.
Chegou a simular uma crise nervosa, contorcendo-se na calçada. Quando
estava sendo posto no carro da Polícia Militar do Distrito Federal,
ainda tentou resistir a prisão.

— Me pediram para tirar o pessoal da Câmara e agora me pegaram!

Maranhão afirmou que semana passada pedira a Aldo que o recebesse em
audiência na qual apresentaria suas reivindicações para acelerar a
reforma agrária. Ontem de manhã, não conseguiu confirmar a reunião. O
encontro acabou ocorrendo ontem à tarde, na sala de espera da
presidência da Câmara. Maranhão estava acompanhado de deputados,
quando Aldo entrou na sala e reagiu ao vê-lo:

— Eu te conheço há 30 anos. Mas não aceito esse tipo de atitude. Você
está autuado. Não recebo essa pauta. Não converso com pessoas que
invadem o Congresso.

Deputados que acompanhavam Maranhão o convenceram que a melhor
solução seria a saída imediata dos invasores.

— Aldo estava muito revoltado com a invasão. Ele me disse que ia
cumprir a lei e prender todo mundo. Tentei explicar que não sabia a
origem do tumulto. A nossa intenção sempre foi a de fazer uma
manifestação pacífica. Tanto que saímos do Congresso — argumentou
Maranhão.

Outros ataques

Palco habitual de protestos e manifestações de classes e grupos
sociais diversos, o Congresso Nacional já foi alvo de atos de
vandalismo como os de ontem. Em 24 de novembro de 2004, cerca de 150
manifestantes, entre sindicalistas, estudantes ligados ao PSTU e ao P-
SOL, punks e sem-terra, avançaram sobre o espelho d"água na frente do
prédio, atiraram água e provocaram policiais militares. Dois
estudantes foram presos, ao tentar subir a rampa do Congresso. Uma
pedrada quebrou uma vidraça da Câmara. O grupo protestava contra o
governo Lula, atacando as reformas trabalhista, sindical e
universitária.

Outro ataque, mais violento, ocorreu em 6 de agosto de 2003, horas
depois de a Câmara aprovar a reforma da Previdência. Um grupo de
servidores públicos apedrejou o prédio, quebrou 52 vidraças do Salão
Negro com chutes e pedaços de pau. Uma tampa de bueiro foi atirada
contra a portaria principal. Os servidores, que tentavam manter
privilégios, participavam de marcha contra a reforma que reuniu de 50
mil a 60 mil funcionários públicos em Brasília, segundo a PM.

Dois manifestantes, quatro funcionários do Congresso e quatro
seguranças da Casa ficaram feridos. Apenas um manifestante, Adriano
Gomes da Silva, funcionário dos Correios em São Paulo, foi detido
pela segurança da Câmara e liberado uma hora depois, por intervenção
da senadora Heloísa Helena (PSOL-AL), na ocasião ainda filiada ao PT.

Funcionário teve traumatismo craniano

Segundo o balanço oficial da Câmara, 26 pessoas foram atendidas no
Departamento Médico da Casa após o confronto entre segurança e
manifestantes do MLST ontem. O caso mais grave foi o do coordenador
de logística do Departamento de Polícia da Câmara (Depol), Normando
Fernandes, internado na UTI do Hospital Santa Lúcia com traumatismo
craniano.

Normando, segundo informações da assessoria da Casa, foi atingido por
um galho de árvore arrancado pelos manifestantes antes de invadirem o
Anexo II da Câmara. Ele teve afundamento do crânio no lado esquerdo
da cabeça e edema cerebral. O servidor foi submetido a uma tomografia
computadorizada. Depois de passar algumas horas sedado, Normando
acordou e, segundo informações médicas, não corre risco de morte.

— No começo fiquei nervoso, agora estou calmo — afirmou o pai do
funcionário, José Fernandes depois de visitar o filho.

O hospital não informou quando o paciente receberá alta. Entre as 26
pessoas atendidas no Departamento Médico da Casa, duas pertencem ao
MLST, mas a maioria era de servidores do Depol e de seguranças
terceirizados. Ontem à tarde, alguns servidores deixaram o
Departamento Médico com faixas de gaze na cabeça, curativos nos
braços e nas pernas. O policial legislativo Antonio Carlos de Abreu
Crone teve a cabeça enfaixada.

Ele contou que foi atingido por um dos manifestantes com um cadeira
de ferro. Hilton Ferras, também da Polícia Legislativa, também estava
com a cabeça enfaixada e negou que a segurança tenha impedido a
entrada dos manifestantes:

— Existem regras para entrar, a identificação. Eles entraram de
supetão e nós tentamos exercer nosso papel de contê-los. Eles usaram
pedras e paus para nos agredir.

A servidora Olímpia Goulart estava chegando de carro, com os vidros
abertos, quando os manifestantes a cercaram. Ela contou ter sofrido
puxões de cabelo e levado socos.

O estrago no patrimônio público da Câmara foi grande. Ainda de fora
da Câmara, os manifestantes tombaram um Fiat Uno vermelho zero
quilômetro, que estava exposto na entrada do Anexo II porque seria
sorteado na festa junina da Associação dos Servidores da Câmara
(Ascade). Os manifestantes quebraram também três portas de vidro da
Casa: a da entrada do Anexo II, a que dá acesso à taquigrafia e a do
corredor que dá acesso ao Salão Verde.

Os manifestantes destruíram ainda quatro computadores que podem ser
usados por visitantes para obter informações sobre a Câmara. Com
pedras e paus, eles quebraram detector de metais, jogaram no chão o
busto de bronze do governador Mário Covas e quebraram luminárias do
corredor de acesso ao Salão Verde.

Aldo: “Vou cobrar responsabilidades materiais”

Depois de invadir o Salão Verde, os manifestantes ainda arrancaram
uma das lâminas de aço escovado que cobrem as pilastras. Um dos
manifestantes escalou a escultura O Anjo, de Alfredo Ceschiati, em
bronze. Um outro amarrou uma bandeira do movimento na estátua. Nos
carpetes do salão, pedaços de telha e pedras.

Os manifestantes tentaram ainda, usando um extintor de incêndio,
quebrar uma porta de vidro que dá acesso ao Salão Negro, mas foram
impedidos. Outras portas de vidro do Salão Verde, o painel vitral da
artista Mariane Perretti e o painel, óleo sobre tela, de Di
Cavalcanti foram preservados. O presidente da Câmara, Aldo Rebelo
(PCdoB-SP), disse ontem que os danos serão calculados pela Casa e
serão cobrados dos responsáveis.

— Vai arcar quem a lei determinar. Vou cobrar todas as
responsabilidade penais e materiais — disse Aldo.

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