Primeira Leitura
Minha maior decepção nesse processo eleitoral decorre menos da
qualidade dos políticos, que evidentemente merecem críticas, e mais
da adesão de parte expressiva da sociedade à despolitização que o PT
pregou desde que se tornou governo. Adesão tão maciça que dá para
afirmar que o petismo não está sozinho nessa empreitada.
Caixa dois já é considerado mal menor, como revelam as pesquisas
eleitorais nacionais. Há gente demais passando recibo à leitura do
presidente da República, segundo a qual todo mundo tem sua reserva de
“recursos não contabilizados”.
A corrupção tem “500 anos”, repete parte expressiva do eleitorado.
Decorre do atraso social e econômico de “500 anos”, da
irresponsabilidade da elite de “500 anos”. Daí para aceitar a suposta
tragédia secular como desculpa para exercer a também suposta
complacência brasileira na hora de votar, de não menos de “500 anos”,
é um passo pequeno.
A turma dos “500 anos” que serão seguidos por mais “500 anos”
evidentemente estava dormindo quando o povo desse mesmo Brasil
derrubou uma ditadura, reinventou o voto direto, impichou um
presidente, aprovou uma Constituição, acabou com a inflação, adotou a
responsabilidade fiscal, fez valer seus contratos... Isso para ficar
apenas nas últimas três décadas. Já fizemos tudo isso e mais.
Decepção não tenho mais com o PT, com Lula e com seus manos da
periferia do juízo. Que sigam seu destino. Tenho, isso sim, com a
população que toma as urnas por lata de lixo obedecendo aos mantras
que lhes assopra nos ouvidos uma gente politicamente canalha. E vejam
que essa percepção de que estamos diante de um movimento muito bem
orquestrado de desmoralização da democracia, tornada depósito da
impunidade, pode não ser só minha.
O petismo parece confiar na competência desses bordões ao promover
seus suspeitos e investigados à condição de candidatos prestigiados.
Gozação do PT? Não, senhores. É puro cálculo político. Nunca o
ambiente esteve tão propício para a lavagem de reputações imundas nas
águas do povo rendido à lógica dos “500 anos”, pintados como natureza
política morta.
Outros partidos também ensaiam lançar nomes enrolados em processos na
disputa a uma vaga na Câmara. Outro dia mesmo os jornais eletrônicos
noticiaram movimentos para fazer de Paulo Maluf deputado por São
Paulo. Por que não? Se haverá Palocci, Genoino, Luizinho e tantos
mais no páreo, não há por que não socializar esse happening do quinto
centenário de uma escola derrotista que floresceu assim que o antes
inquieto e barulhento “líder de massas” deu licença para que todo
cidadão colocasse o burro na sombra e a própria moralidade para
hibernar.
Mundo interessante esse da desobrigação pessoal e coletiva. Que se
fechem os consultórios especializados em aparar os dramas das pessoas
que acabaram emocionalmente seqüeladas pelos rigores dos códigos de
condutas. A teoria dos “500 anos” liberou geral.
Claro que, com isso, entram em cena os novos seqüelados: os
espancados pelo movimento dos sem-terra nesta terça, por exemplo. Os
sem-terra foram liderados pelo PT de Lula na invasão à Câmara. A
ordem partidária para enxovalhar a Casa que representa o povo
organizado está inequivocamente ligada ao presidente, dado que a
principal liderança presa é nada menos que o secretário de Movimentos
Sociais do PT. Vão dizer que não está, não. Que o meu raciocínio
sobre o dado inequívoco é um equívoco.
Tudo bem, nem percam tempo em me processar. Equivoquei-me.
Inequivoquei-me, se preferirem. Esqueci-me de que, como manda a
neoteoria política, Lula não é o PT, e que o PT não é Lula; que Lula
nem é Lula, e o PT nem é o PT. A política até inventou um jargão para
isso: o verbo descolar, que, aliás, eu também uso para expressar o
que não pode ser expresso em palavras normais. Quem se descola pode
ser e não ser, estar ou não estar, ou as quatro alternativas
simultaneamente. Há quem se descole do governo que fez. Há quem se
descole da biografia e mesmo da própria cara.
Dizem os neoteóricos desse Brasil falsificado que isso de “descolar”
também tem “500 anos”. É uma forma de nos mandar para casa enquanto
eles garantem mais “500 anos” para Lula.
[liliana@primeiraleitura.com.br]
Publicado em 6 de junho de 2006
http://www.primeiraleitura.com.br/auto/entenda.php?id=7643