Correio Braziliense
12/6/2006
Lula deu a Jorge Bastos Moreno, de O Globo, entrevista sobre futebol,
na qual incluiu metáforas políticas, área que lhe fora vetada por seu
secretário de Comunicação. Lula desnudou-se no futebol e ficou de
tanga na política ao dizê-la “a coisa mais chata do mundo”.
Nesse retrato de corpo inteiro, ele fez maus juízos da política e do
futebol. Elogiou as chuteiras modernas, por serem macias como luvas.
Pois o jogador Ronaldo, com tais luvas, saíra do treino da Seleção
com bolhas nos pés.
Para quem só pensa em futebol, Lula errou demais. De Zagalo, contou
que treinara a seleção em Copa na qual fora só membro da comissão
técnica. Corrigido, ao contrário dos “não sei” dos escândalos, disse:
“Eu sei, eu sei. Ele era da comissão”.
Lembrou, depois, um velho craque e enalteceu sua “arte no futebol”.
Tal jogador, numa Copa, fizera pênalti. Quando o árbitro se dirigia
ao local da falta, ele, sorrateiro, saiu da área, evitando a punição
devida. A arte que Lula elogiou tivera, pois, viés antiético. Já seu
conselho para o Brasil ganhar a Copa foi simplório: “O negócio é não
sofrer gol”.
Disse Lula que o gol contra inspirou sua disposição de insistir na
política, até ganhar. Vitorioso, porém, seu comportamento mudou.
Esgotado, talvez, pelo gol, preferiu, na presidência, a retórica da
vitória à ação cotidiana e maçante da política. Lula chama de
“chata”, pelo jeito, sua obrigação de fazer. Mas a política, já se
disse, é força construtiva na vida dos povos, não só dos que a
praticam ou dela se beneficiam, como espectadores omissos e
displicentes da história.
Para reeleger-se, Lula topa tudo. O que é política para ele?
Benefício? Omissão? Displicência? Inebriado pelas pesquisas, Lula
denunciou torturas contra petistas nas CPIs do Congresso.
Coincidência ou não, o MLST logo depredou essa Bastilha, deixando o
presidente em situação pior do que a de Lembo no motim do PCC, mas a
falar de futebol na tevê.
O TSE, que salvara a Copa da sucessão, voltou atrás. Em outubro,
portanto, o negocismo político e a bandalhice eleitoral continuam
livres para impor ao país seus arranjos espúrios. Cuidado, eleitor.
Brasil, il, il, il!