Entrevista:O Estado inteligente

segunda-feira, junho 12, 2006

Movimentos anti-sociais - Paulo Guedes


O Globo
12/6/2006

A invasão do Congresso Nacional por militantes do MLST na semana
passada provoca uma preocupação com os rumos que o país está tomando,
por não se tratar de ato isolado. Em 14 de abril do ano passado,
centenas de invasores do mesmo MLST ocupam o Ministério da Fazenda.
Seis dias depois, o Incra libera 1,9 milhão de reais para a Anara,
uma associação legal criada pelos líderes do MLST, sob o pretexto de
capacitar trabalhadores rurais em projetos de assentamento. Três
meses depois, o MLST é recebido pelo presidente Lula, que põe seu
boné e empunha sua bandeira. Segue-se novo repasse para a Anara, de
1,12 milhão de reais.

É fácil compreender os motivos do planejamento da invasão atual, e o
rastro deixado no bilhete de seu líder na reunião em que foi
arquitetado o crime: “A União financia”. Ao custo de 82.700 reais
cada, os atos violentos já renderam 5,6 milhões de reais em
transferências à Anara no governo Lula. Da mesma forma, o MST, o
irmão mais velho do MLST, já arrecadou em torno de 25 milhões de
reais. Por que pensar em buscar empregos no agronegócio, formar mão-
de-obra técnica especializada na agricultura ou na agroindústria, se
a extorsão de recursos públicos pela chantagem econômica mostra-se
tão rentável?

A proliferação de manifestações como a do MLST é uma violação
crescente aos princípios de economia de mercado e da democracia
representativa. Em vez de apontar para a economia de mercado, o
atendimento a reivindicações de grupos da espécie do MLST ampliam o
corporativismo. O processo é o mesmo do sindicalismo de elite (CUT,
Força Sindical, CGT) que se abastece no FAT, como os industriais se
abasteciam no BNDES, os ruralistas no Banco do Brasil, os
pensionistas nos fundos previdenciários das estatais e os financistas
no excessivo endividamento do setor público, retalhando
financeiramente um Estado indefeso.

A condescendência do presidente com o ambiente de conflito é
compreensível. Sua liderança foi exercitada nos anos 70 e 80. Eram
tempos de lucros extraordinários de uma indústria com encomendas
garantidas de estatais, crédito subsidiado e mercados protegidos por
barreiras. Os ganhos eram tão elevados que, mesmo sob controle de
preços e impostos elevados, o sindicalismo organizado ainda extraía
por meio de greves uma parte do butim. O corporativismo, o
sindicalismo e o protecionismo saíram do mesmo útero carcomido, a
velha ordem dirigista, que a social-democracia hegemônica não ousa
reformar. Apenas amplia a abrangência do ataque aos orçamentos públicos.

Pela condescendência do presidente, pela cumplicidade do PT e pela
ampliação de seu financiamento com recursos públicos, esses
movimentos tornaram-se mais ousados. Mobilização, confronto e
extorsão sempre foram possíveis em economias dirigistas. A crença ou
a visão de mundo de que o ganho econômico será determinado, em última
instância, pelo confronto, foi o caminho para a miséria material,
moral, política e humana do mundo socialista. Organizações
equivocadas como o MLST que, a pretexto da justiça social, invadem
propriedades privadas e depredam o Congresso, atentando contra o
Estado de direito e a democracia representativa, revelam-se, por
definição, movimentos anti-sociais.

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