Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, junho 06, 2006

Futebol e batata - XICO GRAZIANO


O Globo
6/6/2006

Todas as atenções se voltam para a Alemanha. O espetáculo da Copa do
Mundo mobiliza milhões, desperta paixões. Reinará o futebol no país
da salsicha e da cerveja. Afora a batata.

Ao contrário do que se crê, a batata não é européia. Sua origem se
encontra nos altiplanos andinos, entre o Peru e a Bolívia. Cultivada
pelos povos pré-colombianos, a “papa” quíchua acabou descoberta pelos
conquistadores e levada para a Europa.

Frederico II, o Grande, rei da Prússia, obrigou ao consumo do
tubérculo entre seus súditos desde 1740. Assim, na marra, a batata
entrou definitivamente na culinária alemã. Hoje, nos solos germânicos
se colhem 11 milhões de toneladas de batata. Sua auto-suficiência
garante um consumo médio de 66,5kg/habitante/ano. No Brasil, para
comparação, o consumo per capita está em 15kg/ano.

Nem só da batata vivem os alemães. A produção de cereais,
principalmente trigo, cevada e centeio, soma 43 milhões de toneladas.
Boa parte se destina à fermentação alcoólica, nas 1.270 cervejarias
alemãs. Incríveis 130 litros é o consumo médio dos beberrões.

Na verdade, o primeiro produto da agricultura germânica é a beterraba
açucareira, que ocupa 500 mil hectares. Não confundir com seu parente
avermelhado, legume utilizado aqui na salada. As beterrabas
açucareiras são gigantes, suplantando fácil 10kg cada unidade. A
Alemanha é o maior produtor europeu de açúcar.

A Copa do Mundo se inicia num momento de fortalecimento da
agricultura alemã. Ao contrário do Brasil, onde a crise agrícola se
espalha, lá a renda agregada das atividades rurais mostra
crescimento. Uma das razões reside na produção de biodiesel. É
surpreendente.

Os alemães são campeões mundiais na produção de óleo combustível
vegetal. Devem, em 2006, atingir a marca de 2 milhões de toneladas de
biodiesel, obtido a partir da colza. Ninguém sabe disso. Essa planta,
a colza, pertence à família das brássicas, cujo exemplar mais
conhecido no Brasil é a couve manteiga. Ou a couve-flor.

Deixada florescer, a planta de colza produz abundantes sementes,
pequeninas, riquíssimas em óleo. Os acordos, no contexto do Protocolo
de Kioto, para redução da emissão de gás poluente, aliados à alta
freqüente do petróleo, expandem na Europa a agricultura energética.
Prevê-se assim, na Alemanha especialmente, o deslocamento da produção
da beterraba açucareira para a destilação de álcool, abrindo nova
fronteira para a agricultura local.

Inexiste por lá problema de sem-terra. A questão agrária envolve o
trabalhador com terra. Entre 1950 e 2001, o número de empresas
agropecuárias caiu de 1,5 milhão para 412 mil. Mesmo com tanto
subsídio, a queda continua. Existem hoje em solo alemão 366 mil
produtores rurais, com área média de 46 hectares. O fenômeno é europeu.

Quando, em 1945, derrotado Hitler, os chefes de Estado aliados se
reuniram no castelo de Potsdam, para discutir o final da Segunda
Guerra Mundial, consta que o ministro da Fazenda americano propôs um
plano para evitar a industrialização da Alemanha. Ficou conhecido
como o “Plano da Batata”. Não prosperou.

Mais tarde, ao ruir o muro de Berlim, percebeu-se que a parte
oriental da Alemanha, dominada pelos comunistas, restava atrasada.
Não apenas na indústria, mas também na agropecuária. O socialismo, no
campo como na cidade, fracassara.

Quem chegar à Alemanha para torcer pela seleção canarinho não se
aperceberá dos dilemas da agricultura alemã. Nem poderia ser
diferente. Não esquente. Beba cerveja à vontade e pode ficar
tranqüilo, que ninguém o mandará plantar batata. Lá, a agricultura é
valorizada.

Se tiver tempo, dê um pulo para conhecer o túmulo de Frederico, o
Grande, no Palácio de Sans Souci. Sobre sua lápide, junto com flores,
costuma haver umas batatas cruas. Um costume que reverencia o passado.

Divididos por Hitler, massacrados na guerra, separados pelo
comunismo, a Alemanha supera traumas e surpreende quem a conhece.
Berlim, reconstruída, reluz. Na agropecuária, dá um show de competência.

Tomara que, no futebol, se comporte!

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