Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, junho 06, 2006

Escárnio - MIGUEL REALE JÚNIOR


Folha de S. Paulo
6/6/2006

EM ASSOMO de arrogância o presidente Lula, falando aos moradores de
palafitas em Manaus, pediu aos seus adversários que aprendam a
perder, a ser derrotados. Pediu, ainda, para aprenderem que a
sabedoria do ser humano não está na quantidade de anos na escola, mas
"na capacidade do sentimento, de sua consciência e de seu coração".
Pediu mais: "Quero que coloquem CPI na televisão todo dia, que
coloquem as torturas que eles fizeram com muita gente lá. Quero que o
povo veja".

Lula, como Collor, pisoteou sobre o que nos resta de sentimento de
dignidade, ferido pela lamentável prática do mensalão

O presidente conseguiu, contrariamente ao que diz, não traduzir o
sentimento que perpassa pela maioria dos brasileiros, induzido em
erro, como está, pela vantagem na intenção de votos revelada pelos
institutos de pesquisa. Há uma indignação em estado de repouso diante
da deslavada corrupção de seu governo, que pode aflorar a qualquer
instante. Lula, como Collor, desafiou o senso de honestidade do povo,
dos humildes aos ricos, e pisoteou sobre o que nos resta de
sentimento de dignidade, ferido pela lamentável prática do mensalão,
que comprometeu por inteiro o jogo democrático. Com arrogância
própria da segurança filha da certeza da impunidade, o presidente
desafiou: "Coloquem CPI na televisão todo dia, que coloquem as
torturas que eles fizeram com muita gente lá". Os seus íntimos
companheiros de governo, uma vez apontados por ele como traidores,
mas elogiados ao saírem dos cargos mais elevados da República, e
depois réus em ações criminais, agora se transmudam em vítimas de
"tortura". Pela CPI dos Correios, desfilaram os fatos mais chocantes
de uma corrupção que se transformou em forma do exercício do poder,
visando a perpetuá-lo pela via da compra de consciências. A farsa
presidencial foi contínua: ora afirmou que pretendia que se
investigassem os fatos, ora, com a liberação de verbas para emendas
parlamentares, buscou diretamente retirar assinaturas de deputados
para impedir a continuidade da CPI dos Correios. Desafia agora a que
se mostrem as cenas da CPI, na repetida tática da desqualificação de
todas as circunstâncias desabonadoras, tentando empulhar as pessoas
ao transformar uma investigação séria, base da denúncia do Ministério
Público, em prática de tortura. Vale-se o presidente da artimanha de
vitimizar os companheiros, corruptores e corruptos, seus ministros
próximos e altos dirigentes do seu partido, que fizeram da democracia
a arte de governar por meio da corrupção do Congresso. Só um
conivente e beneficiário do sujo sistema implantado poderia agora,
montado nas pesquisas de opinião, querer enganar a Nação, ao
travestir os réus em vítimas de "tortura", com a ousadia própria dos
impunes. Esquece-se o presidente que a impunidade será possivelmente
breve. A população pode ser recordada, por exemplo, do testemunho da
secretária Fernanda Karina Sommagio, que indicou ter havido
inexplicáveis saques de valores elevados de agências do Banco Rural,
transportados em carro forte para suítes de hotéis em Brasília, onde
eram distribuídos para parlamentares ou seus assessores. Deve a
população ser lembrada das revelações feitas na CPI acerca dos saques
em agência de um banco em shopping de Brasília, freqüentada por
assessores parlamentares às vésperas de votações de interesse do
governo no Congresso. Cumpre recordar que a CPI mostrou ter Marcos
Valério acompanhado diretores do BMG, dias depois de empréstimo
fictício feito pelo banco ao PT, em reunião com então chefe do Casa
Civil, José Dirceu, tendo o BMG se tornado o agente financeiro do
crédito consignado aos aposentados. Os 17 milhões de aposentados
receberam carta pessoal do presidente Lula sugerindo que se servissem
desse crédito consignado, apenas operado pelo BMG. Deve-se rememorar
a quebra do sigilo do caseiro Francenildo, a mando do poderoso
ministro da Fazenda, acobertada por outros membros do governo,
ocupando o ministro durante esses dias, no Palácio do Planalto, a
sala vizinha à do presidente da Nação. Cumpre trazer à tona a cena
dos governistas, inclusive o presidente, que para a imprensa apenas
sorriam e diziam "esperem", logo após as revelações do caseiro,
certos de que uma "novidade" comprometeria a grave acusação de
Francenildo. Essas lembranças mostram que a impunidade, existente na
Câmara ao absolver os deputados mensaleiros, pode, ao final, não ser
festejada como foi no discurso de Manaus. A irresponsável dança das
palavras presidenciais foi mais aviltante que a dança lúgubre da
deputada Ângela Guadagnin: atingiu a inteligência e a hombridade dos
brasileiros.

MIGUEL REALE JR. , 62, advogado, é professor titular da Faculdade de
Direito da USP (Universidade de São Paulo). Foi secretário da
Segurança Pública (governo Montoro) e da Administração (governo
Covas) do Estado de São Paulo e ministro da Justiça (governo Fernando
Henrique).

Arquivo do blog