9/6/2006
Poderia ser Sarajevo, no auge das guerras na antiga Iugoslávia. Ou
poderia ser Bagdá hoje ou ontem. Poderia talvez ser Darfur, no Sudão,
ou alguma outra cidade africana devastada por intermináveis guerras
civis. Mas era o Rio de Janeiro, na quarta-feira. Como poderia ser
São Paulo há um mês.
É só ler a descrição desta Folha: "Quando as mães chegaram à escola
municipal Henrique Foréis, no morro da Fazendinha (complexo do
Alemão, zona norte do Rio), a cena era de pânico: crianças
ensangüentadas, chorando e escondidas debaixo das carteiras,
aterrorizadas. Além dos gritos, havia sangue espalhado nas carteiras,
paredes e roupas".
"Esse foi o resultado de um tiroteio que feriu 17 crianças, de acordo
com a Prefeitura do Rio. Seis delas foram atingidas por tiros, duas
por estilhaços, e as outras ficaram feridas na tentativa de fugir."
"Algumas estavam na sala de aula. Outras, no pátio. As balas
atingiram o muro, furaram paredes e janelas da escola." "Cinco
passaram por cirurgias.
Uma menina, de oito anos, levou um tiro no abdômen. Um menino, de 11
anos, foi atingido no fêmur do lado esquerdo."
"Os tiros foram supostamente disparados por traficantes que tentavam
atingir PMs."
Há, no entanto, uma importante diferença: em qualquer das situações
mencionadas no primeiro parágrafo, houve escândalo, mobilização
internacional (ainda que tardia e por vezes ineficaz), até
intervenção de tropas estrangeiras e o afluxo de organizações não-
governamentais tipo Médicos sem Fronteira etc.
No Brasil, Rio ou São Paulo, a barbárie é, digamos, normal. Faz tão
parte do cotidiano como o nascer do sol todos os dias. Ninguém mais
fala nada, reclama, grita.