O Estado de S. Paulo
9/6/2006
Enquanto continua o sacolejo dos mercados financeiros pelo avanço da
inflação mundial, por aqui a inflação continua em retração, gerando
dividendos políticos para o presidente Lula.
Ontem , o IBGE revelou que o custo de vida medido pelo IPCA subiu
apenas 0,10% em maio (foi de 0,21% em abril), abaixo da expectativa,
que contava com alguma coisa próxima dos 0,20%, como indica a
Pesquisa Focus, do Banco Central.
Com isso, a inflação em 12 meses (terminados em maio) ficou em 4,23%,
abaixo da meta de 4,50% estipulada para todo este ano. É a inflação
em 12 meses mais baixa desde junho de 1999, quando cravou os 3,33%.
Com esse número aí, 4,23%, o Brasil começa a aparecer na foto dos
países de inflação relativamente controlada. O último número da
revista The Economist aponta, também para 12 meses, inflação de 4,1%
na Espanha; 3,5% nos Estados Unidos; 3,2% no México; 11,6% na
Argentina; 8,8% na Turquia; 10,0% na Rússia; e 5,0%, na Índia.
Mais do que econômico, o expressivo recuo da inflação brasileira é um
fato político. Inflação domada é vitamina injetada nas veias da
campanha eleitoral do presidente Lula. Nos 12 últimos meses
terminados em maio, o segmento Alimentos e Bebidas elencado no IPCA
teve uma inflação negativa de 1,71% - e a isso não é preciso
acrescentar mais nada.
Como a inflação de maio só foi divulgada ontem, a reunião do Copom,
realizada nos dias 30 e 31 de maio, não dispunha desse dado para
avançar suas análises. Por isso, nesse particular, o recado do Copom
na ata da reunião ontem divulgada pareceu um tanto desatualizado.
Festejou o recuo da inflação em 12 meses, de 5,70% em janeiro para
4,63% em abril. Mais ainda teria festejado se tivesse à disposição o
número de maio.
O único fator que talvez trabalhe contra a tendência de queda de
inflação é a alta do dólar no câmbio interno nas três últimas
semanas, pelo impacto que exerce sobre os preços dos importados.
Ainda assim, esse fator negativo não deverá ter peso decisivo a ponto
de alterar a atual trajetória da inflação.
No texto da ata, os membros do Copom preferiram avisar que manterão a
"parcimônia" na derrubada dos juros, para que a baixa de 4,5 pontos
porcentuais desde setembro continue produzindo as conseqüências
esperadas.
Mas não puderam esconder que, por esse lado, continua desobstruída a
avenida para o prosseguimento do corte dos juros. A próxima mudança
nos juros está programada para 19 de julho. A inflação divulgada
ontem parece reforçar tendência de corte de mais meio ponto.
O afrouxamento da política monetária no Brasil vai acontecendo na
contramão do que acontece no resto do mundo. O Federal Reserve (banco
central dos Estados Unidos) desde junho de 2004 vem puxando os juros
para cima. Já estão nos 5% ao ano e já é tido como praticamente certo
que vem mais um aperto de um quarto de ponto na reunião do dia 29 de
junho.
Quarta-feira foi a vez da Turquia e ontem nada menos que seis bancos
centrais trataram de cortar ração monetária para suas próprias
economias: Banco Central Europeu, banco central da Índia, da
Dinamarca, da Coréia do Sul, da Tailândia e da África do Sul - todos
eles empenhados em conter a inflação provocada pela alta da energia e
das commodities metálicas.
A Ata do Copom dedica especial atenção à trepidação externa. Fala do
"reordenamento abrupto de carteiras de investimento" e das incertezas
quanto à trajetória e duração da curva dos juros americanos, mas
trata de tranqüilizar os ânimos no Brasil. Ressalva que "essa
instabilidade não configura um quadro de crise" para o Brasil, graças
à solidez dos fundamentos da economia. Em seguida, junta os gols
marcados pela política econômica, os mesmos que aumentaram a
resistência a choques externos como este.
Fossem outros os tempos, não seria apenas a nossa Bolsa que estaria
exposta à intempérie. A porta de saída seria estreita demais para a
avalanche de dólares. Lembrem-se do que aconteceu em 2002.
Enfim, é bom espiar de bom abrigo aqui dentro a ação da chuva e da
ventania lá fora.