Estado
As festas juninas são uma ancestral celebração do fim das colheitas. Mas, desta vez, tirando meia dúzia de segmentos da agricultura brasileira, como os da cana-de-açúcar, café e cítricos, em que os resultados são ótimos ou bons, há pouco a celebrar. São balões que não sobem; fogos que dão chabu.
As estimativas dos organismos especializados continuam dando falsa impressão. Falam em recordes de produção física, aumento da produtividade e vão por aí. Mas o escorregão do dólar no câmbio interno, sem indício de reversão, a seca no Sul e outras maçadas têm se encarregado de achatar a renda do produtor. Até mesmo o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, normalmente tão otimista, não tem disfarçado a preocupação. Já disse que não volta para o Ministério da Agricultura "nem que a vaca tussa".
Cada especialista faz contas de seu jeito e, por isso, há números para cada gosto. Um desses números é o de que o setor agropecuário contabiliza perdas de R$ 30 bilhões em dois anos. Na semana passada, o ministro Rodrigues afirmou que esse buraco é "intapável".
O levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) sobre a safra 2005/2006, divulgado na semana passada, aponta aumento de 5,6% na produção em relação à safra passada, com 120,3 milhões de toneladas de grãos neste ano em comparação com as 113,9 milhões de toneladas colhidas no ano passado.
O IBGE chegou a números alguma coisa mais baixos: 119,7 milhões de toneladas, crescimento de 6,34%.
José Carlos Hausknecht, consultor da MB Associados, vê esses números com reserva. Ele reconhece que a safra será recorde, mas adverte que o avanço será tão insignificante - de apenas 1% - que o recorde batido perde importância. As instituições encarregadas dos levantamentos estão revendo seus números para baixo.
A Conab, por exemplo, no início do ano previa uma produção de 124,4 milhões de toneladas de grãos. Em abril, rebaixou esse número para 121,1 milhões de toneladas. O IBGE também estimara em janeiro uma safra 5,0% maior do que a da sua última previsão. Foi obrigado a ser mais realista depois que tomou conhecimento da extensão da seca em alguns Estados, do excesso de chuvas no Centro Oeste e da diminuição de cerca de 3,5% da área total plantada.
Daniel Dias, analista de mercado da FNP Consultoria, avalia que o governo Lula contribuiu para os maus resultados. Distribuiu uma fartura em créditos, os produtores acabaram se endividando mais do que podiam suas pernas e esse excesso de dívidas colaborou para a descapitalização do setor. Mas não se pode negar que poucos são os agricultores brasileiros que cumprem um plano de gestão de recursos.
O pacote de ajuda anunciado pelo ministro Roberto Rodrigues no último dia 25 veio para ajudar, mas vai deixar problemas sem solução.
Dos R$ 75,5 bilhões destinados à recuperação, serão utilizados R$ 60 bilhões para o financiamento da próxima safra e o restante será dividido entre o necessário para a rolagem de dívidas vencidas neste ano e para medidas de longo prazo, como a montagem de um seguro contra catástrofes.
Destinar recursos para a agricultura pode dar novo fôlego aos produtores, mas o equacionamento das dívidas apenas será empurrado com a barriga.
E aí desembocamos num problema velho de guerra: o Brasil não tem política agrícola de longo prazo. "As medidas do governo ajudam, mas em geral são apenas emergenciais", observa Flávio França Júnior, diretor-técnico da Safras & Mercados.
A boa notícia é que as cotações internacionais estão melhorando. De janeiro para cá, o preço do milho, por exemplo, subiu 5,4% e o do trigo, 7,3%. Mas os preços da soja continuam reagindo negativamente à montanha de estoques internacionais, hoje avaliados em 50 milhões de toneladas, "os maiores da história" - como observa Chau Kuohue, da LCA Consultores. As cotações caíram 7,1% desde o início do ano.
De qualquer maneira, nos segmentos onde acontece, a reação dos preços é vista com cautela, porque os ganhos nas cotações em dólares têm desaparecido em reais, já que o câmbio não ajuda.
As estimativas dos organismos especializados continuam dando falsa impressão. Falam em recordes de produção física, aumento da produtividade e vão por aí. Mas o escorregão do dólar no câmbio interno, sem indício de reversão, a seca no Sul e outras maçadas têm se encarregado de achatar a renda do produtor. Até mesmo o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, normalmente tão otimista, não tem disfarçado a preocupação. Já disse que não volta para o Ministério da Agricultura "nem que a vaca tussa".
Cada especialista faz contas de seu jeito e, por isso, há números para cada gosto. Um desses números é o de que o setor agropecuário contabiliza perdas de R$ 30 bilhões em dois anos. Na semana passada, o ministro Rodrigues afirmou que esse buraco é "intapável".
O levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) sobre a safra 2005/2006, divulgado na semana passada, aponta aumento de 5,6% na produção em relação à safra passada, com 120,3 milhões de toneladas de grãos neste ano em comparação com as 113,9 milhões de toneladas colhidas no ano passado.
O IBGE chegou a números alguma coisa mais baixos: 119,7 milhões de toneladas, crescimento de 6,34%.
José Carlos Hausknecht, consultor da MB Associados, vê esses números com reserva. Ele reconhece que a safra será recorde, mas adverte que o avanço será tão insignificante - de apenas 1% - que o recorde batido perde importância. As instituições encarregadas dos levantamentos estão revendo seus números para baixo.
A Conab, por exemplo, no início do ano previa uma produção de 124,4 milhões de toneladas de grãos. Em abril, rebaixou esse número para 121,1 milhões de toneladas. O IBGE também estimara em janeiro uma safra 5,0% maior do que a da sua última previsão. Foi obrigado a ser mais realista depois que tomou conhecimento da extensão da seca em alguns Estados, do excesso de chuvas no Centro Oeste e da diminuição de cerca de 3,5% da área total plantada.
Daniel Dias, analista de mercado da FNP Consultoria, avalia que o governo Lula contribuiu para os maus resultados. Distribuiu uma fartura em créditos, os produtores acabaram se endividando mais do que podiam suas pernas e esse excesso de dívidas colaborou para a descapitalização do setor. Mas não se pode negar que poucos são os agricultores brasileiros que cumprem um plano de gestão de recursos.
O pacote de ajuda anunciado pelo ministro Roberto Rodrigues no último dia 25 veio para ajudar, mas vai deixar problemas sem solução.
Dos R$ 75,5 bilhões destinados à recuperação, serão utilizados R$ 60 bilhões para o financiamento da próxima safra e o restante será dividido entre o necessário para a rolagem de dívidas vencidas neste ano e para medidas de longo prazo, como a montagem de um seguro contra catástrofes.
Destinar recursos para a agricultura pode dar novo fôlego aos produtores, mas o equacionamento das dívidas apenas será empurrado com a barriga.
E aí desembocamos num problema velho de guerra: o Brasil não tem política agrícola de longo prazo. "As medidas do governo ajudam, mas em geral são apenas emergenciais", observa Flávio França Júnior, diretor-técnico da Safras & Mercados.
A boa notícia é que as cotações internacionais estão melhorando. De janeiro para cá, o preço do milho, por exemplo, subiu 5,4% e o do trigo, 7,3%. Mas os preços da soja continuam reagindo negativamente à montanha de estoques internacionais, hoje avaliados em 50 milhões de toneladas, "os maiores da história" - como observa Chau Kuohue, da LCA Consultores. As cotações caíram 7,1% desde o início do ano.
De qualquer maneira, nos segmentos onde acontece, a reação dos preços é vista com cautela, porque os ganhos nas cotações em dólares têm desaparecido em reais, já que o câmbio não ajuda.