Estado
Sempre que é época de Copa e/ou saem muitos livros sobre futebol, a pergunta retorna: cadê o grande romance brasileiro sobre o esporte? Entendo a razão da pergunta, mas ela cria equívocos. Afinal, não temos um grande romance brasileiro sobre muitos outros temas. Cadê o grande romance sobre a classe política nacional, esse bando de zeligs corruptos em que ideologicamente não se distingue esquerdista, centrista e direitista, rico e pobre, nortista e sulista? Cadê o grande romance sobre São Paulo, essa cidade de contrastes tão absurdos que ao mesmo tempo constrói um mesmo discurso que não cola para a nação? Cadê o grande romance sobre a música popular brasileira, seguramente uma das melhores do mundo, como o futebol? Cadê o grande romance sobre a auto-ilusão do Brasil moderno, que se crê alegre e democrático e, no entanto, violenta os direitos do cidadão dia e noite? E cadê o grande romance sobre a criminalidade das cidades ou sobre o cotidiano das periferias, grande romance que Cidade de Deus não é?
É claro que enfrentar a realidade é, ou deveria ser, o desafio dos escritores. Não necessariamente a realidade contemporânea que aparece com tanta instantaneidade e redundância no noticiário nacional. Mas a realidade em toda sua complexidade, em seus paradoxos exteriores e interiores, em seus efeitos sobre a natureza humana. Aparentemente o cinema atual está mais disposto a enfrentar essa realidade do que a literatura, o que não é verdade, até porque quase todos esses filmes se baseiam em romances (ou livros de não-ficção, como Carandiru, de Babenco). Mas isto dá o que pensar. As histórias que têm sido inventadas acabam traduzidas com mais força para o cinema. Não deveria ser sempre assim, já que o cinema exige um aparato industrial que poderia tolher sua contundência; a literatura precisa de lápis e papel (e editoras, que há aos montes, proporcionalmente) e disso vem sua liberdade única. Vejo dois motivos para isso, obviamente interligados.
Primeiro, o cinema brasileiro atual - como a seleção brasileira atual - contrariou os prognósticos dos analistas e provou que é possível combinar organização e talento. Diretores, muitos deles vindos do meio publicitário ou televisual (o que acarreta problemas em muitos casos, mas não pode ser convertido em fator de preconceito, como tem sido convertido), mostram domínio dos tempos narrativos; a produção ganhou profissionalismo; uma série de técnicos, inclusive roteiristas (que antes eram assessores do diretor ou então era o próprio diretor), surgiu nos diversos setores, dos efeitos especiais à fotografia, da tecnologia de som à cenografia. Há um respeito aos fundamentos, ao passo que na ficção brasileira ainda é válida a frase de José Lins do Rego: "O escritor brasileiro não sabe bater escanteio." Ou seja, não sabe executar uma ação básica, transmitir uma informação útil. Não me esqueço de Millôr Fernandes listando as contradições elementares de um romance de José Sarney, como a de um personagem que chega, amarra o cavalo e, quando sai, não o desamarra. Literatura não é contar uma história, mas é disso que parte.
Segundo, o tipo de história que tem sido valorizada na ficção recente é justamente aquela que o cinema aprecia. Cheguei à conclusão, depois de ler livros como o mais recente de Patrícia Melo, Mundo Perdido, de que a força do cinema e da TV na mente desses escritores tem lhe feito mal. A escrita é telegráfica e chula. As citações são para dar um ar "cult", como se diz. As cenas parecem todas inspiradas em filmes ou seriados. Até em Marçal Aquino, o mais capacitado desses herdeiros de Rubem Fonseca, vemos o narrador entrar numa sala e encontrar um delegado com pés em cima de mesa como se fosse xerife de western. Quem defende a existência de uma "literatura de entretenimento" não precisa fechar os olhos a esses problemas; além disso, podemos cobrar mais dos escritores brasileiros - que ao menos representem uma tradição que tem Machado, Rosa, Graciliano, Drummond e João Cabral.
Não que não tenhamos bons escritores que dominam os fundamentos. Carlos Heitor Cony, em O Adiantado da Hora, e Moacyr Scliar, em Os Vendilhões do Templo, para citar dois livros que acabam de sair, são exemplos, ainda que raros. Cony volta ao gênero em que se dá melhor, o picaresco (como em Pilatos e O Piano e a Orquestra), e Scliar faz uma narrativa em três planos de tempo, usando alegoria bíblica para remeter à corrupção moderna. Mas faltam personagens que fiquem em nossa memória, um conjunto de vozes que sobreviva às cenas, uma idéia melódica que transcenda ao impacto ou ao enredo. O mesmo vale para o bom livro do jovem Daniel Galera, Mãos de Cavalo, que tem momentos de sutileza e precisão sobre o comportamento humano e os perde no excesso de falas juvenis ("Tomei tudo de uma vez, no gutiguti") e referências pop. O Paraíso É bem Bacana, ambicioso romance de André Sant'Anna sobre um jogador de futebol, Mané, que se converte ao islamismo, está mais próximo daquilo que James Wood batizou de "realismo histérico", uma busca de vitalidade pela linguagem desmedida, algo maníaca em seus jorros subjoycianos de palavrões e enormes parágrafos quase sem vírgulas.
O que falta muitas vezes ao escritor brasileiro é não se bastar na descrição da fisionomia e da ação. É ter a coragem de fazer enxertos ensaísticos, opinativos ou aforismáticos, e/ou fazer brechas sugestivas, uma rede de subentendidos; e os melhores autores, como Philip Roth e Ian McEwan, são os que conseguem fazer as duas coisas. Além de bater escanteio, o escritor brasileiro precisa saber ler a partida e jogar sem a bola. Saber se distanciar para escolher os momentos mais importantes e captar a realidade subjacente às correrias ao redor.
RODAPÉ
Machado de Assis continua tema de livros e mais livros. The Author as Plagiarist (University of Massachusetts Dartmouth, org. João Cezar de Castro Rocha), do qual participo e que terá edição brasileira em 2007, reúne 42 textos de especialistas de diversos países, inclusive um pequeno depoimento de José Saramago em que se queixa da ausência de menções a Diderot como influência sobre Machado, queixa que também faço. E na revista Teresa, em formato de livro, o destaque é para o texto de Alfredo Bosi, que igualmente tenta superar a divisão da crítica entre os que vêem Machado como crítico social e os que o vêem como esteta alienado. Pouco a pouco o bom senso vai se impondo...
ZAPPING
Estou na Alemanha, cobrindo a Copa, então vou perder algumas semanas da novela Belíssima. Ela esteve confusa e morna por um bom período. Uma das razões foi a saída de Fernanda Montenegro, que deixou Marcelo Anthony como vilão principal, sem que ele tenha estofo para tanto; folhetins sem vilões marcantes, convenhamos, não é nada. O que sustentou o pique foram as passagens cômicas, especialmente na família do casarão, que evocam uma velha tradição do palco brasileiro. Mas a volta de Bia Falcão e a entrada de novos personagens, como o delegado ético de Marcos Palmeira, reanimaram a novela, gênero que em sua expressão brasileira sempre viveu da abertura aos debates do momento. Mesmo assim, não se vai identificá-la aos tempos atuais como se identifica Roque Santeiro à abertura democrática e Vale Tudo ao cinismo que daria em Collor.
VALORES VIRTUAIS
Leitores perguntam onde encontrar meu blog. É no portal do Estadão, mais exatamente em http://blog.estadao.com.br/blog/piza. Meu site continua, com arquivo atualizado duas vezes por semana e link para o blog. Reproduzo aqui a primeira nota que escrevi: "Motivos para fazer um blog: 1. Vivo de escrever; é assim que me alimento e aos meus filhos. 2. Sempre gostei de ler diários, de autores como Samuel Pepys e Evelyn Waugh, que comentam da árvore da esquina à conjuntura geopolítica. 3. Toda vez que fiz coluna diária gostei do desafio de 'escrever com a chapa quente sem queimar os dedos'. 4. Machado de Assis dizia que escrever é conversar sem ser interrompido. Interação virtual não é interrupção, mas pode ser conversa. Espero que elegante."
POR QUE NÃO ME UFANO
Fico feliz em ver expressões que uso sobre o governo Lula desde o início, como "esquizofrênico", "elogio da ignorância" e "o PT tem projeto de poder, não de país", muito repetidas em entrevistas e artigos alheios, ainda que sem crédito. Mas o fato é que é tarde. Lula, como suspeitei, dá a volta por cima e conta com mais de 40% das intenções de voto, ajudado pela leve recuperação econômica (se bem que o crescimento deste ano mal deverá chegar a 4%, novamente na rabeira dos emergentes) e pela pesada máquina publicitária, além, claro, da assim chamada oposição, de rabo e mente presos. E Alckmin, sem carisma nem projeto, parece mais em campanha para prefeito de Pindamonhangaba. No país dos sanguessugas, ficou difícil sangrar Lula, que, ao contrário de Collor, não foi comprometido pessoalmente de forma cabal e não confiscou diretamente a poupança da sociedade. O seu foi um confisco ético, de danos irreparáveis a qualquer prazo. A invasão da Câmara pelo MLST na terça passada, sob comando de um petista, é mais um exemplo disso. O vale-tudo domina.
Aforismos sem juízo
No amor nada se é senão amador.
E-mail: daniel.piza@grupoestado.com.br Site: www.danielpiza.com.br
É claro que enfrentar a realidade é, ou deveria ser, o desafio dos escritores. Não necessariamente a realidade contemporânea que aparece com tanta instantaneidade e redundância no noticiário nacional. Mas a realidade em toda sua complexidade, em seus paradoxos exteriores e interiores, em seus efeitos sobre a natureza humana. Aparentemente o cinema atual está mais disposto a enfrentar essa realidade do que a literatura, o que não é verdade, até porque quase todos esses filmes se baseiam em romances (ou livros de não-ficção, como Carandiru, de Babenco). Mas isto dá o que pensar. As histórias que têm sido inventadas acabam traduzidas com mais força para o cinema. Não deveria ser sempre assim, já que o cinema exige um aparato industrial que poderia tolher sua contundência; a literatura precisa de lápis e papel (e editoras, que há aos montes, proporcionalmente) e disso vem sua liberdade única. Vejo dois motivos para isso, obviamente interligados.
Primeiro, o cinema brasileiro atual - como a seleção brasileira atual - contrariou os prognósticos dos analistas e provou que é possível combinar organização e talento. Diretores, muitos deles vindos do meio publicitário ou televisual (o que acarreta problemas em muitos casos, mas não pode ser convertido em fator de preconceito, como tem sido convertido), mostram domínio dos tempos narrativos; a produção ganhou profissionalismo; uma série de técnicos, inclusive roteiristas (que antes eram assessores do diretor ou então era o próprio diretor), surgiu nos diversos setores, dos efeitos especiais à fotografia, da tecnologia de som à cenografia. Há um respeito aos fundamentos, ao passo que na ficção brasileira ainda é válida a frase de José Lins do Rego: "O escritor brasileiro não sabe bater escanteio." Ou seja, não sabe executar uma ação básica, transmitir uma informação útil. Não me esqueço de Millôr Fernandes listando as contradições elementares de um romance de José Sarney, como a de um personagem que chega, amarra o cavalo e, quando sai, não o desamarra. Literatura não é contar uma história, mas é disso que parte.
Segundo, o tipo de história que tem sido valorizada na ficção recente é justamente aquela que o cinema aprecia. Cheguei à conclusão, depois de ler livros como o mais recente de Patrícia Melo, Mundo Perdido, de que a força do cinema e da TV na mente desses escritores tem lhe feito mal. A escrita é telegráfica e chula. As citações são para dar um ar "cult", como se diz. As cenas parecem todas inspiradas em filmes ou seriados. Até em Marçal Aquino, o mais capacitado desses herdeiros de Rubem Fonseca, vemos o narrador entrar numa sala e encontrar um delegado com pés em cima de mesa como se fosse xerife de western. Quem defende a existência de uma "literatura de entretenimento" não precisa fechar os olhos a esses problemas; além disso, podemos cobrar mais dos escritores brasileiros - que ao menos representem uma tradição que tem Machado, Rosa, Graciliano, Drummond e João Cabral.
Não que não tenhamos bons escritores que dominam os fundamentos. Carlos Heitor Cony, em O Adiantado da Hora, e Moacyr Scliar, em Os Vendilhões do Templo, para citar dois livros que acabam de sair, são exemplos, ainda que raros. Cony volta ao gênero em que se dá melhor, o picaresco (como em Pilatos e O Piano e a Orquestra), e Scliar faz uma narrativa em três planos de tempo, usando alegoria bíblica para remeter à corrupção moderna. Mas faltam personagens que fiquem em nossa memória, um conjunto de vozes que sobreviva às cenas, uma idéia melódica que transcenda ao impacto ou ao enredo. O mesmo vale para o bom livro do jovem Daniel Galera, Mãos de Cavalo, que tem momentos de sutileza e precisão sobre o comportamento humano e os perde no excesso de falas juvenis ("Tomei tudo de uma vez, no gutiguti") e referências pop. O Paraíso É bem Bacana, ambicioso romance de André Sant'Anna sobre um jogador de futebol, Mané, que se converte ao islamismo, está mais próximo daquilo que James Wood batizou de "realismo histérico", uma busca de vitalidade pela linguagem desmedida, algo maníaca em seus jorros subjoycianos de palavrões e enormes parágrafos quase sem vírgulas.
O que falta muitas vezes ao escritor brasileiro é não se bastar na descrição da fisionomia e da ação. É ter a coragem de fazer enxertos ensaísticos, opinativos ou aforismáticos, e/ou fazer brechas sugestivas, uma rede de subentendidos; e os melhores autores, como Philip Roth e Ian McEwan, são os que conseguem fazer as duas coisas. Além de bater escanteio, o escritor brasileiro precisa saber ler a partida e jogar sem a bola. Saber se distanciar para escolher os momentos mais importantes e captar a realidade subjacente às correrias ao redor.
RODAPÉ
Machado de Assis continua tema de livros e mais livros. The Author as Plagiarist (University of Massachusetts Dartmouth, org. João Cezar de Castro Rocha), do qual participo e que terá edição brasileira em 2007, reúne 42 textos de especialistas de diversos países, inclusive um pequeno depoimento de José Saramago em que se queixa da ausência de menções a Diderot como influência sobre Machado, queixa que também faço. E na revista Teresa, em formato de livro, o destaque é para o texto de Alfredo Bosi, que igualmente tenta superar a divisão da crítica entre os que vêem Machado como crítico social e os que o vêem como esteta alienado. Pouco a pouco o bom senso vai se impondo...
ZAPPING
Estou na Alemanha, cobrindo a Copa, então vou perder algumas semanas da novela Belíssima. Ela esteve confusa e morna por um bom período. Uma das razões foi a saída de Fernanda Montenegro, que deixou Marcelo Anthony como vilão principal, sem que ele tenha estofo para tanto; folhetins sem vilões marcantes, convenhamos, não é nada. O que sustentou o pique foram as passagens cômicas, especialmente na família do casarão, que evocam uma velha tradição do palco brasileiro. Mas a volta de Bia Falcão e a entrada de novos personagens, como o delegado ético de Marcos Palmeira, reanimaram a novela, gênero que em sua expressão brasileira sempre viveu da abertura aos debates do momento. Mesmo assim, não se vai identificá-la aos tempos atuais como se identifica Roque Santeiro à abertura democrática e Vale Tudo ao cinismo que daria em Collor.
VALORES VIRTUAIS
Leitores perguntam onde encontrar meu blog. É no portal do Estadão, mais exatamente em http://blog.estadao.com.br/blog/piza. Meu site continua, com arquivo atualizado duas vezes por semana e link para o blog. Reproduzo aqui a primeira nota que escrevi: "Motivos para fazer um blog: 1. Vivo de escrever; é assim que me alimento e aos meus filhos. 2. Sempre gostei de ler diários, de autores como Samuel Pepys e Evelyn Waugh, que comentam da árvore da esquina à conjuntura geopolítica. 3. Toda vez que fiz coluna diária gostei do desafio de 'escrever com a chapa quente sem queimar os dedos'. 4. Machado de Assis dizia que escrever é conversar sem ser interrompido. Interação virtual não é interrupção, mas pode ser conversa. Espero que elegante."
POR QUE NÃO ME UFANO
Fico feliz em ver expressões que uso sobre o governo Lula desde o início, como "esquizofrênico", "elogio da ignorância" e "o PT tem projeto de poder, não de país", muito repetidas em entrevistas e artigos alheios, ainda que sem crédito. Mas o fato é que é tarde. Lula, como suspeitei, dá a volta por cima e conta com mais de 40% das intenções de voto, ajudado pela leve recuperação econômica (se bem que o crescimento deste ano mal deverá chegar a 4%, novamente na rabeira dos emergentes) e pela pesada máquina publicitária, além, claro, da assim chamada oposição, de rabo e mente presos. E Alckmin, sem carisma nem projeto, parece mais em campanha para prefeito de Pindamonhangaba. No país dos sanguessugas, ficou difícil sangrar Lula, que, ao contrário de Collor, não foi comprometido pessoalmente de forma cabal e não confiscou diretamente a poupança da sociedade. O seu foi um confisco ético, de danos irreparáveis a qualquer prazo. A invasão da Câmara pelo MLST na terça passada, sob comando de um petista, é mais um exemplo disso. O vale-tudo domina.
Aforismos sem juízo
No amor nada se é senão amador.
E-mail: daniel.piza@grupoestado.com.br Site: www.danielpiza.com.br