Entrevista:O Estado inteligente

domingo, junho 11, 2006

Alberto Tamer:Economia sacode e China sorri

 Estado


Enquanto a economia mundial balança, os juros sobem, as bolsas despencam, o Ministério do Comércio da China pede desculpas. Errou ao informar que, em 2005, o país havia recebido US$ 60,3 bilhões em investimentos. Perdoem, diz , refiz as contas e deram mais US$ 12 bilhões. O dado final é que a China recebeu investimentos de US$ 72,4 bilhões! No total, estão incluídos os investimentos financeiros que os bancos internacionais passaram a fazer no país. E neste ano? O ritmo aumenta.

Também suave, a China diz "sim" quando EUA, UE e OMC reclamam contra a desvalorização do yuan que "subsidia" exportações, mas continua mantendo a sua taxa, cumprindo promessa feita aos investidores externos de não alterar as regras, nem câmbio, nem os juros baixos, nem os impostos, nem os incentivos de toda ordem (até a taxa de corrupção).

VAI AJUDAR SIM...

Também ao ser convidada pelo presidente do FMI, Rodrigo de Rato, para integrar o grupo criado para enfrentar o desafio das enormes disparidades de crescimento entre países, principalmente os que têm maiores superávits, a China foi uma das primeiras a concordar. Sim, por que não? Afinal, é mais uma série de reuniões em que participa, acena com promessas, mas não altera nada. E não altera porque não lhe interessa. Promete importar mais, porém suas exportações explodem para mais de US$ 500 bilhões.

Ela vai ajudar a reduzir as disparidades de crescimento, mas só depois que puder resolver o desafio de alimentar 1,3 bilhão de chineses, 800 milhões dos quais sobrevivendo na quase miséria rural.

Mas a velha guarda reage e vem pressionando contra a abertura do seu mercado para investimentos financeiros. Teme perder o controle da situação diante da invasão de tantos estrangeiros poderosos. Já bastam as crescentes agitações e protestos no campo.

O livro Uma pesquisa de Camponeses Chineses, de Chen Guidi e Wu Chuntai, afirma que "o edifício da indústria da China foi construído com a carne e o sangue de camponeses laboriosos, e que o desenvolvimento urbano foi alçado por sua dor e sacrifício", informa Jonatham Watts, do Guardian, que esteve lá.

AGORA, O MUNDO

Para atenuar os comunistas da "velha China", os que temem a perda de autonomia e força com a invasão do capital externo - mais de US$ 700 bilhões nos últimos 10 anos -, o Ministério do Comércio informou também que a China vai agora disputar seu espaço no mundo. Quer romper fronteiras e ser uma grande potência.

No mesmo dia a vice-ministra do Comércio, Ma Xiuhong, informou que os investimentos chineses no exterior só no primeiro trimestre se elevam a US$ 2,6 bilhões. Mas não é pouco? Não, diz ela, pois representa um aumento de 280% em relação a idêntico período de 2005. E acrescenta: não parou aí. "A estratégia da China 'vamos para fora' vai trazer grandes resultados. As empresas estatais, principalmente do setor de energia, têm sido agressivas na compra de bens no exterior."

E tem mais: "Cerca de 80 mil trabalhadores chineses foram enviados para operar nessas empresas, só nos três primeiros meses do ano! E é apenas o começo", diz, tentando mostrar à velha guarda, um novo cenário sem retorno. O que importa é transformar investimentos externos e agora também internos da China no exterior em lucro, emprego e menos pobreza. Em uma palavra, Poder.

US$ 2,5 TRILHÕES!

Nesse contexto, não se pode incluir a China para buscar maior equilíbrio de crescimento mundial, reduzir não só disparidades, mas o acúmulo de superávits e reservas cambiais enquanto o crescimento econômico mundial vacila.

E não é só a China. São todos os países do Leste Asiático. Eles detêm reservas da ordem de US$ 2,5 trilhões.

Quinta-feira, o Japão anunciou que o valor de suas reservas em abril chegou a US$ 860 bilhões, quase US$ 2 bilhões sobre o mês anterior, por causa, em parte, da valorização do euro. Mas a maior parte continua investida em títulos dos EUA.

Os asiáticos são os financiadores da dívida e do déficit do país que vem sustentando até agora o crescimento mundial. Os EUA. São déficits crescentes de US$ 830 bilhões nas contas externas e US$ 320 bilhões nas contas públicas.

No fundo, os EUA, a Europa e o Brasil também estão se sustentando com dívidas num desequilíbrio mundial arriscado. Desequilíbrio que em parte explica a inquietação pelo anúncio que os juros americanos devem aumentar mais e que a economia dos EUA crescerá menos.

OLHA NÓS...

E nós? Ora, os EUA se endividam em dólares e nós nos endividamos em reais. Não é ótimo? Estamos transformando nossa dívida em dólares em dívida em real valorizado de tal forma que hoje é mais rentável importar do que produzir. E, escoltado por essa dívida que pode chegar a R$ 2 trilhões, nosso presidente e nosso ministro da Fazenda dizem que estamos fora do vendaval que se arma e que ronda lá fora... A gente é forte, não deve ao FMI. A gente agüenta...

O negócio é ganhar a Copa e as eleições... Depois a gente pensa no resto. Afinal, no Brasil não foi sempre assim? Não crescemos os gloriosos 2% em média nas últimas décadas deixando tudo para depois? Por que mudar, ainda mais num ano de eleição? Ufa!


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