Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, junho 08, 2006

Alberto Tamer - Brasil fica nu se vier vendaval





O Estado de S. Paulo
8/6/2006

Se antes muitos duvidavam de Ben Bernanke (presidente do Federal Reserve, o banco central americano), agora não duvidam mais. Nos dois últimos dias quase todos os presidentes dos bancos centrais regionais, a maioria com voto no comitê de mercado aberto, vieram espontaneamente - e em combinação - a público para reafirmar que a inflação nos Estados Unidos já preocupa muito e o Fed vai ter de agir.

Preferem um crescimento menor a uma inflação maior. Não acreditam que só a desaceleração atual da economia seja suficiente para conter as pressões inflacionárias puxadas pela alta do petróleo. Reconhecem que a economia americana está desacelerando, mas só isso não será suficiente para conter a inflação. Poderão ter de usar a arma dos juros.

Bernanke foi claro: se a economia americana se acomodar, como parece estar ocorrendo, caberá aos outros parceiros comerciais - Ásia, Europa, etc. - crescer internamente e substituir os Estados Unidos como suporte da economia mundial.

Se esses países não reagirem, a economia global poderá acompanhar a desaceleração americana.

BRASIL COM ROUPA LEVE
O Brasil está no momento mais preparado para resistir a uma retração mundial desde que seja rápida e não dure muito. As roupas que nos vestem (imensos gastos eleitorais, endividamento interno que caminha para R$ 2 trilhões e superávits comerciais serão rasgadas se o vendaval externo for mais forte e continuar em 2007.

Este cenário parece que vai agravar-se, diante da unanimidade e dos pronunciamentos dos presidentes do Fed, que desfizeram as dúvidas do mercado e reafirmaram a posição de Bernanke.

Inflação e crescimento menor. Foi mais ou menos isso o que disse Susan Bies, que vota no comitê que decidirá sobre os juros, para quem estamos num período de transição e não sabemos ainda até onde vamos.

O juro vai agora para 5,25%?

"Não está ainda claro quando o Fed vai parar de elevar a taxa." Ela prefere um ponto de equilíbrio em que os juros não segurem o crescimento.

E se a economia desacelerar ainda mais?

"Estamos num período de transição. A atual taxa de crescimento (anualizada) de 5% é insustentável." Ou seja, a prioridade é a inflação.

MERCADO ACEITA NERVOSO
Ontem, o mercado financeiro americano acabou por aceitar esses fatos. Mais de 75% dos analistas admitiam que o aumento virá mesmo no fim do mês, e uma parte menor deles acreditava que não seria o último. Pode vir mais. "Ninguém sabe. Depende dos novos dados", diz Susan Bies.

Coroando essas declarações, veio o alerta do ex-presidente do Fed Alan Greenspan. "Agora a alta dos preços do petróleo pode estar dando um novo impacto nos preços". Antes, havia mais flexibilidade, compras a custos menores aproveitando a globalização e outros fatores que não mais existem

SÓ UM CONTRA
A única voz contrária veio do setor imobiliário. A associação que congrega os corretores, os agentes mobiliários, pediu uma pausa porque o setor, que vem sendo nos últimos quatro anos o pilar do crescimento americano, está dando sinais de saturação. "A venda de imóveis já construídos deve recuar 6,8% neste ano. Os imóveis residenciais recuaram ainda mais, 13,4%", afirma o economista-chefe da associação, David Lereah.

Mas é verdade que esse resultado está sendo comparado com o ano passado, extremamente aquecido. A associação espera que o juro hipotecário para 30 anos fique em 6,9%. Não conta com mais uma alta do Fed. Sua voz, porém, não está sendo levada muito em conta porque o setor imobiliário vem crescendo não graças a uma demanda sadia, mas à especulação. O imóvel virou um "ativo financeiro".

DE OLHO NO PETRÓLEO
Ao contrário do que se esperava diante de tantas confirmações que os juros podem subir e até mais do que apenas 0,25 ponto nos próximos meses, as bolsas iniciaram o dia bem porque os preços do petróleo caíram U$ 2. Mas no fim da tarde houve uma onda de vendas, provocada por previsões de que a economia ia cair mais do que se previa. Foi um movimento de grande nervosismo sem fatos. Hoje pode-se esperar um mercado muito tenso.

"Estamos na terra de ninguém. Não sabemos se o mercado está entrando numa correção ou se é o começo de um movimento de vendas (como ocorreu há dias)", afirma David Briggs, da área de Bolsas do Federal Investors.

Assim, pode-se esperar mais algumas semanas de nervosismo. Nada de trágico. Por enquanto, só reajustes de preços exagerados. Mas o clima continua tenso.

FMI AJUDA
O FMI ofereceu-se para ajudar nesse reajuste econômico mundial que não vai depender só dos juros, mas de outras medidas visando ao crescimento. Os bancos centrais ainda não responderam. Vamos esperar que aceitem, pois o desequilíbrio entre países desenvolvidos não pode continuar.

Resumindo, os EUA dão sinais que vão jogar a toalha e não apareceu ainda ninguém para continuar lutando.

* E-mail: at@attglobal.net

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