Entrevista:O Estado inteligente
MIRIAM lEITÃO Bom pagador
O GLOBO
O novo mandato presidencial começará com o Brasil sem dívida com o Clube de Paris. O secretário do Tesouro, Joaquim Levy, conta que o governo decidiu pagar toda a dívida até o fim de 2006. Depois de pagar antecipadamente a dívida com o FMI, o Brasil decidiu agora quitar os débitos com instituições dos governos de países desenvolvidos reunidos no Clube de Paris.
Ontem foi mais um dia de otimismo no mercado brasileiro, com nova alta da Bolsa para mais de 31 mil pontos. O risco-país está chegando ao nível mais baixo já atingido. A balança comercial fechou com mais um saldo positivo de US$ 4,3 bilhões em setembro, mês em que normalmente o saldo cai por força do aumento da importação para o fim do ano.
Os departamentos de análise dos bancos mandaram nos últimos dias para seus clientes avisos de que esperam ainda para 2005 uma elevação da nota dada ao Brasil pelas agências internacionais. Tudo se passa como se o país não estivesse vivendo um stress político. Na economia, considera-se que o pior passou, apesar dos fatos inesperados que sempre aparecem como a declaração do ex-secretário geral do PT de que a executiva sabia da existência do caixa dois do partido. Ontem, obviamente, vários da executiva negaram, mas era de se esperar que negassem.
A Rússia comunicou recentemente que pagará, no ano que vem, US$ 15 bilhões da sua dívida com o Clube de Paris. O país tem ainda uma dívida de US$ 28 bilhões. O Brasil, lembra Levy, deve apenas US$ 2,6 bilhões e vai quitá-los integralmente até o fim de 2006. A Rússia é investment grade , o nível a que o Brasil gostaria de chegar, mas, para atingi-lo, o país precisará subir três ou quatro degraus, dependendo da agência.
No mercado brasileiro, o que tem alimentado o otimismo é a redução do nível de compromissos externos públicos nos últimos tempos e o fato anunciado semana passada pelo diretor do Banco Central Afonso Bevilaqua de que US$ 4 bilhões dos recursos necessários para fazer frente aos compromissos do ano que vem já estão em caixa.
A última vez em que o rating brasileiro foi elevado foi em setembro de 2004. Naquela época, o risco-país no Embi estava em 490. Ontem fechou em 341, quase igual ao melhor número conseguido pelo país em outubro de 1997, 337. Houve um momento nesta segunda-feira em que esteve em 338. No Embi, o risco é dado pelo volume de negócios com os papéis do país, não é uma nota, é o cálculo feito a partir das negociações diárias. Mede, portanto, a aceitação dos papéis e a perspectiva do país segundo os investidores. Os níveis de risco dados pelas agências classificadoras são uma nota que segue metodologias estabelecidas por elas.
Mesmo subindo, o Brasil tem uma classificação muito ruim em todas as agências e sobe muito lentamente. Na Standard & Poor's, o Brasil estava, antes da posse do presidente Lula, quando se tinha uma enorme dúvida sobre qual poderia ser a disposição do novo governo de pagar a dívida, no nível B, que, na classificação deles, significa "vulnerável, mas ainda com capacidade de pagamento". Depois disso, ele foi elevado para BB-, com perspectiva neutra, e agora a notícia que está sendo comemorada é a de o Brasil continuar em BB-, mas passando a perspectiva positiva. Faltaria, assim, ser BB, depois BB+ com todas essas mudanças de sinais de negativo, positivo e neutro, mas, depois, chegaria no BBB, que é a linha divisória do nível investment grade, que equivale a uma recomendação da agência para investimento.
A mudança, aos mortais comuns, parece muito pequena e tardia porque o Brasil fez avanços recentes importantes em todos os quesitos que entram na conta das agências. São muitos os indicadores que mostram a melhora da capacidade brasileira — pública e privada — de pagamentos de compromissos. O Brasil passou, nos últimos 12 anos, por sucessivas crises e estresses sem atrasar pagamento de qualquer dívida. Mas, para as agências, o Brasil ainda é muito mal classificado.
Herói estrangeiro
O deputado Aldo Rebelo acha que símbolos nacionais são farinha de mandioca, saci-pererê e um idioma congelado que não receba de fora qualquer influência. Quando vira o presidente da Câmara dos Deputados põe na parede um quadro estilizado de Simon Bolívar, o herói da América Hispânica! Ou seja, o deputado é nacionalista no acessório, mas não no essencial.
Idiomas, como se sabe, recebem influências externas. São línguas vivas; isso é natural. Basta ver o volume de palavras de origem árabe no português que veio de Portugal e das inúmeras palavras africanas, indígenas que falamos hoje.
É assim que se faz um país sem heróis, sem símbolos nacionais, sem fundadores da pátria. É com gestos como o do deputado Aldo Rebelo que se faz uma pátria sem patriotas.
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