Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, outubro 07, 2005

Grandes políticos não se aposentam CESAR MAIA

O GLOBO

O político não tem um direito básico: o de envelhecer. É natural que, com o passar dos anos, em qualquer profissão, o rendimento seja decrescente. As grandes empresas internacionais fixam uma idade limite, muitas vezes de apenas 60 anos, para se ocupar um cargo de direção superior. Um grande político não se aposenta. Mesmo que fique sem mandato. Um atleta, um artista, estes são julgados pelas suas grandes performances. Ninguém avalia Garrincha pelo que fez no Corinthians. Ninguém avalia Judy Garland pelos seus difíceis últimos dias. Ficam os dribles e o mágico de Oz. Os políticos, ao contrário, são julgados pelo seu período final. Décadas depois, os pesquisadores os redescobrem e os colocam em sua verdadeira dimensão.

Mas seus contemporâneos, em geral, não são tão sábios. E, num período de declínio, seus defeitos são realçados. Terão sorte aqueles que ficam na memória porque a carreira foi interrompida com a própria vida? Com isso, o retrato do auge é o que permanece para seus contemporâneos. Lincoln, Kennedy, Getúlio, Ulysses, Tancredo... Ou aqueles que são expelidos prematuramente da vida pública por razões políticas, como JK, cassado pelo arbítrio, ou a senhora Thatcher, cassada por seus pares. A imagem de Brizola, hoje, é a do grande governador do Rio Grande do Sul, a do herói da democracia brasileira, no início dos anos 60, ou então...?

Amaral Peixoto está entre os que, hoje, precisam ter sua memória política adequadamente desenhada por seus contemporâneos. Tratar dos conflitos de poder no MDB pós-fusão, ou na alternativa que surgiu para prolongar seu mandato político, é perder a dimensão de um dos maiores governadores de estado de toda a República. Se usarmos como régua o que os governadores conquistaram pessoalmente para seus estados, não se terá dúvida disso.

Oficial da Marinha, ativista na revolução de 30, oficial designado para fazer o cerco desde Parati à revolução paulista de 32, ajudante-de-ordens de Vargas, de quem teve a capacidade de assimilar, por observação, o método administrativo e o estilo político, terminando por ganhar a sua confiança. Na decretação do Estado Novo, em 37, Vargas decide renovar a política dos três grandes estados, escolhendo interventores fora do jogo político existente, fora dos grandes nomes e das tradições.

Em São Paulo, pediu uma lista de 10 nomes e conseguiu que o seu secretário de Segurança incluísse, no final, alguém da confiança dele, um deputado estadual sem maior expressão. O escolhido foi Adhemar de Barros, que terminou fundando um ciclo político que vai até 1967, quando foi cassado. Benedito Valadares, um deputado federal de segundo time de Minas, é indicado como se fosse um ato provisório. E o estilo político imposto por ele sobrevive até hoje e se faz presente no atual governador. Para o Estado do Rio, Vargas escolheu seu ajudante-de-ordens, Amaral Peixoto, com apenas 32 anos, passando por cima de Macedo Soares, que já considerava a sua escolha como certa. Amaral, que sempre morou no Rio, chegou a Niterói sem saber onde dormir. A partir daí, ele vai influenciar a vida política brasileira, cumprindo um papel decisivo na escolha e na afirmação da candidatura de JK.

Mas o que mais surpreende na releitura dos governos que dirigiu no Estado do Rio, desde a interventoria, é um leque de realizações que raramente outro governador pode apresentar. Ganhou de Minas na localização da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e na instalação da Fábrica Nacional de Motores (FNM), que começou fabricando motores de avião DC3 em Caxias-Xerém, antes de fazer motores de veículos. Décadas depois, a FNM foi levada do Rio a golpes de esperteza, pelos secretários mineiros de Faria Lima, para se instalar em Minas, assim como a Fiat, a partir de 1976. Amaral Peixoto também ganhou do Nordeste para Cabo Frio a Companhia Nacional de Álcalis.

Aproveitou os conflitos de produtores e lavradores de cana em Pernambuco, no governo de Agamenon Magalhães, e atraiu os Pessoa de Queiroz, os Lapa e os Cleofas, elevando a produção de açúcar do Rio para o segundo lugar do Brasil e pacificando a relação de plantadores e usineiros com a quota dos 50%. Organizou a produção/comercialização de leite, criando a CCPL. Construiu a mais moderna rodovia do Brasil daquela época, a Niterói-Campos.

Incansável, brigou com o Conselho Nacional de Petróleo, que defendia a importação de petróleo refinado, por uma refinaria para o Estado do Rio, imaginando que pudesse ser instalada no cais de Niterói. Não conseguiu, mas abriu um vetor de força determinante para a localização, anos depois, da refinaria em Caxias, território fluminense.

Criou a Escola Militar de Resende, com doação de uma fazenda estadual, o Hospital Antonio Pedro, a primeira Escola Superior de Serviço Social, que, junto com as escolas de Enfermagem e de Engenharia, também criadas por ele, formaria o núcleo do que viria a ser a Universidade Federal Fluminense. Refundou a Educação Pública com o grupo de Anísio Teixeira. Convenceu os sanitaristas da necessidade de instalação de ambulatórios ao lado dos centros de combate às endemias e de vacinação. Ativou o DNOS para o saneamento da Baixada Fluminense. Teve a sabedoria de manter parte dos prefeitos que recebeu em 37 e fez as mudanças de forma progressiva. Inaugurou um estilo de governar combinando a autoridade à acessibilidade.

Como interventor, Amaral Peixoto foi um dos primeiros governadores a sair do Palácio para visitar o interior. Criou o primeiro grupo de engenheiros estaduais e levou os agrônomos ao trabalho de campo. Terminou com a diluição do jogo, que na época era legal, e o relativo descontrole. Definiu três locais onde os concessionários deveriam construir grandes hotéis — que depois voltariam ao Estado — para explorar o jogo. Disso resultaram o Quitandinha, que deu nova centralidade a Petrópolis, o Higino, que lançou Teresópolis, e o Icaraí, onde é hoje a Universidade Federal Fluminense. Ele introduziu o primeiro sistema técnico de administração pública no plano estadual, acompanhando o Dasp, que era federal.

Anos mais tarde, coube ao regime militar arrasar o Estado do Rio, nomeando primeiro um governador crente, fundamentalista e, depois, outro, cujo grupo comandado pelo filho realizou uma das maiores pilhagens que o setor público brasileiro já conheceu. Foi assim a década pós-64, concluída em seguida com a fusão, que tirou, mais que tudo, a alma ao Estado do Rio.

Quando hoje vemos o que se chama de sucesso entre governos estaduais, podemos ter por comparação, olhando toda a história da República até nossos dias, a verdadeira dimensão de um gigante político, extraordinário administrador público e incomparável realizador.
CESAR MAIA é prefeito do Rio de Janeiro.

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