"Este país não tem por que não dar certo. Basta que o governante não seja medíocre e que não governe pensando apenas na próxima eleição." Esta frase, semanticamente tão volumosa, foi pronunciada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em discurso feito em Belo Horizonte, quinta-feira. Em um certo sentido lembra o que disse aquela modelo que, entrevistada sobre a coisa que mais detestava, asseverou: "O que mais odeio são as pessoas que têm preconceito contra as raças inferiores." Quer dizer, é a revelação, no ato, de quem faz aquilo contra o que falou, ou de quem é aquilo que criticou: um governante, em plena campanha eleitoral, falando mal de governantes que governam pensando apenas em eleição. Agora, quanto ao fato de alguém (governante ou não) ser medíocre, ou não chegar a isso, eis aí um tema interessante para reflexão. A inexistência de mediocriômetro pode levar, a muitos, a diluição do senso de autocrítica. Na verdade, poucos seriam aqueles que teriam a coragem - como Antonio Salieri, que se frustrou ao tentar se imortalizar vampirizando Mozart (segundo o dramaturgo Peter Shaffer) - de lançar o manifesto: "Medíocres do mundo, uni-vos!" Medíocres são sempre "os outros", como o inferno sartriano. Mas de qualquer forma dá para inferir, com um certo senso de objetividade, que estão acima (não abaixo) da mediocridade aqueles que revelam consciência da importância ou desimportância dos próprios atos, de conformidade com os papéis que estão a desempenhar. É papel de um chefe de Estado e governo, na plena vigência de seu mandato, exercer suas funções rotineiras de comando, concentrar-se na tomada de decisões de questões que subiram à sua exclusiva alçada e fazer a representação do Poder de Estado que encabeça - sem deixar de atentar, sempre, para a majestade do cargo. Dessa maneira, um chefe de Estado e governo não pode preencher a quase totalidade de sua jornada de trabalho comparecendo a cerimônias sem qualquer importância, artificialmente montadas para gerar discursos político-eleitorais. Muitos podem ter julgado de entendimento duvidoso outra frase do presidente Lula, proferida em outro discurso - nos últimos dias ele tem proferido três por dia - em Pouso Alegre, também em Minas Gerais, quando disse que o País vive "um momento virtuoso". Embora o presidente tenha se referido, explicitamente, ao bom desempenho da economia, é claro que em termos políticos a sensação muito maior percebida é a de que o País esteja vivendo um "momento pecaminoso", prova é que até propostas as mais indecentes (como a da renúncia coletiva dos parlamentares petistas prestes a serem cassados, em troca da garantia de legenda para as próximas eleições) têm vindo à baila, além das estarrecedoras mutretas praticadas por pessoas públicas, junto a outras com elas relacionadas, conforme o volume descomunal de indícios emergidos das três CPIs em curso e demais investigações a cargo da Polícia Federal e do Ministério Público. No mesmo pronunciamento o presidente Lula fez um "chamamento" - expressão que usou - sobretudo aos homens que têm influência na política de Minas Gerais, na indústria, na imprensa: "Não permitam, em hipótese alguma, que o processo eleitoral que vai eleger um homem por apenas quatro anos estrague a oportunidade que este País tem de se transformar numa grande nação." Que sentido o presidente pretendeu dar a tais palavras? Não cremos que se referiu à possibilidade de um homem, se eleito presidente da República, poder estragar a oportunidade de o Brasil virar grande nação. No caso quem seria? Não se tratando dele mesmo, por óbvio - a autocrítica tem limites -, algum tucano eventualmente eleito poderia, por exemplo, derrubar a política econômica, que é a menina-dos-olhos do presidente (mas por acaso é de origem inteiramente tucana)? Não, com certeza o presidente se referiu ao "processo eleitoral", a sua lisura, à necessidade de nem se pensar em uso de caixa 2, não é mesmo? Se a última interpretação for a correta, mais do que concitar os mineiros, os industriais e os profissionais de imprensa, o presidente Lula deveria dirigir essa pregação moral e ético-eleitoral aos elementos de seu próprio partido - e respectivos associados.
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Entrevista:O Estado inteligente
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