No físico e nos modos, o deputado que se tornaria uma celebridade nacional no inverno de 2005 nada tinha a ver com as versões anteriores de Roberto Jefferson na maturidade. A primeira existiu nos anos 70, enquanto o jovem petropolitano nascido em junho de 1953 apresentou o programa “O Povo na TV”. Desenvolto, loquaz, cabeleira de zagueiro argentino aprisionada no rabo-de-cavalo, podia ser pesado em arrobas. Os óculos antiquados contrastavam com o figurino esportivo e colorido. Em segundos, passava da brandura à brutalidade. Milhares de espectadores apreciavam o estilo. E o artista decidiu mudar de palco. Virou político.
Em 1982, com 30 anos, o promissor criminalista formado na Estácio de Sá se elegeu deputado federal. Usava os mesmos óculos e passara dos 120 quilos. Mas retoques no visual e no comportamento produziram a segunda versão de Jefferson. O deputado desembarcou no Congresso menos falante, com cabelos curtos e ternos de funcionário público. Enquanto estagiava no baixo clero, aperfeiçoou a oratória em batalhas nos tribunais.
Jefferson enxergou no começo do fim da Era Collor a porta de saída do semi-anonimato. Na tropa de choque collorida, a espantosa agressividade logo o levaria ao generalato. Na tribuna, discursava com um revólver na cintura que o paletó nem tentava esconder. Aparteado, partia para a pancadaria. No plenário, interrompia inimigos aos berros. Na CPI, esbanjava truculência. Terminada a batalha na Câmara, o criminalista de raciocínio rápido se reunia com outros advogados do presidente Fernando Collor.
A queda do chefe recomendou-lhe um período de hibernação. Com a virada do século, ressurgiu no Congresso uma figura radicalmente repaginada. O penteado, os ternos, as gravatas, os sapatos – tudo parecia saído de revistas de moda masculina. Aderira às lentes de contato. O rosto fora remoçado pela plástica. A redução cirúrgica do estômago, que lhe removera algumas arrobas, redesenhara a silhueta. O gordo brigão e suado se tornara esbelto e elegante.
Jefferson ampliou o desconcerto dos colegas com outra revelação: as sessões de tiro-ao-alvo haviam sido trocadas por aulas de canto lírico. Com aulas diárias, uma professora cuidava de aveludar a voz e aumentar o repertório do cantor aprendiz. Era, decididamente, um novo Roberto Jefferson.
Mas não há bisturi capaz de corrigir defeitos de fabricação, e o velho Jefferson reaparecia periodicamente. O temperamento explosivo, adormecido ao som de óperas, era despertado com freqüência pelo som da fúria. Jornalistas que o criticaram com mais dureza, por exemplo, continuaram a receber bilhetes ameaçadores, redigidos na linguagem dos cortiços. Fui destinatário de um deles em meados de 2002, depois de comentar no “JB” absurdas parcerias geradas pela ciranda eleitoral.
Jefferson foi parceiro de Ciro Gomes no primeiro turno e seria companheiro de Lula no segundo. Em quatro ou cinco linhas, registrei que, camuflado pela metamorfose física, seguia existindo o truculento vocacional. No mesmo dia, o próprio Jefferson confirmou a suspeita com um recado por fax. Reproduzi na íntegra a mensagem que, nos momento brandos, me qualificava de “veado”, “proxeneta”, “canalha” e “covarde”. No fecho, o remetente avisava que preferia resolver pendências à bala.
Respondi no mesmo tom. Afirmei que, em matéria de bala, ele era mais chegado às de chocolate, alvo preferencial dos ataques noturnos à geladeira. E entrei com uma ação judicial para enquadrar o deputado em calúnia e difamação. Os advogados da empresa me alertaram que seria necessária a autorização do Supremo Tribunal Federal para castigá-lo. Pedi que fossem adiante. Os bacharéis não me pareceram alegres com a causa. Nunca me passaram informações sobre os rumos do processo.
NO MÍNIMO
Acabo de saber que, em setembro de 2004, ele foi arquivado pelo ministro Eros Grau por decurso de prazo. Em sua defesa, Jefferson limitara-se a alegar que nunca escreveu o bilhete que assinou. A Pastoral Parlamentar do STF achou muito bom o argumento. E deixou a coisa rolar até morrer de inanição.
Se a decisão coubesse a cumpridores da lei, Jefferson seria condenado. Em contrapartida, a crise imensa não viria e mensalões continuariam a jorrar do valerioduto. Como o caso foi resolvido na Pastoral, Jefferson acabou absolvido. E livre para brilhar como bandido-herói no maior novelão já produzido pelo Brasil real.
A caridade do ministro Eros Grau me liberou de possíveis remorsos. E o STF virou patrocinador da superprodução que há quatro meses atormenta o país.
Entrevista:O Estado inteligente
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