Panorama Econômico |
O Globo |
7/2/2007 |
O repórter era de economia, o ministro era de economia e a entrevista foi sobre meio ambiente. Guido Mantega foi bombardeado por perguntas sobre o tema quando concedia uma entrevista ao "The Times", de Londres. A ampla reportagem publicada anteontem mostra que 70% do espaço foi para a questão ambiental. Sinal dos tempos. Mantega aproveitou para vender o álcool brasileiro. Mas o jornal ressaltou os problemas do desmatamento. Mantega disse que a Inglaterra deveria fazer acordos com o Brasil para fornecimento de etanol, a ser usado como substituto de derivados de petróleo. E lembrou que o Brasil tem 30 anos de experiência no ramo, produzindo uma alternativa ao combustível fóssil. O mercado para o álcool é amplo e pode ter crescimento explosivo em breve. O anúncio feito pelo presidente Bush de substituir, até 2017, 20% da gasolina por etanol levará o consumo anual americano a 130 bilhões de litros. Se os EUA, até 2010, conseguirem dobrar a produção de etanol, serão 36 bilhões de litros. Os otimistas acham que pode chegar aos 57 bilhões. O Brasil, segundo a Unica, o sindicato das usinas, deverá produzir, em 2013, 30 bilhões de litros (hoje são 17,5 bi). Ou seja, ainda muito longe da demanda. Segundo o boletim "Energia em Foco", do CBIE, em 2006, 14% da safra de milho americana foram destinados à produção de etanol. Para se ter os 130 bilhões de litros em 2017, seria necessário que 64% do milho fossem para o etanol. Caso a produtividade dobre, seriam 32%. - Substituir 20% da gasolina por etanol em 10 anos é inviável nos parâmetros de hoje. Os EUA têm uma frota de 250 milhões de carros. Se eles decidissem, mais que isso, substituir gasolina por etanol, o preço do milho subiria tanto que pipoca valeria uma pepita de ouro. Os programas são ambiciosos, mas serão balizados pelos preços - comenta Fabio Silveira, da RC Consultores. Fabio acha que o grande mercado para o álcool brasileiro continuará sendo o próprio Brasil. Ele calcula que, já em 2015, a frota de flex fuel aqui será maior que a de veículos a gasolina. No país, deverão ficar 85% da produção brasileira. Hoje, de 40% a 45% da nossa gasolina são substituídos pelo etanol. Mesmo daqui a anos, não se prevê que nenhum país chegue perto desse percentual. O jornal "The Times" trata como grande novidade o que para nós era um fato banal: o de que quase metade do combustível usado no Brasil é de cana-de-açúcar. Estamos bem à frente. A empresa americana Mosaic calcula, por exemplo, que, até 2015, a capacidade de substituição da gasolina pelo etanol nos EUA será de 9,8%; hoje é de apenas 3%. A exportação brasileira de álcool vai passar de US$600 milhões para US$1,3 bilhão em 2010 graças ao acordo com o Japão e a Suécia. Exportar para os Estados Unidos continua sendo um desafio. Tanto os EUA quanto a Europa impõem altas barreiras tarifárias. Mesmo assim, nosso álcool é competitivo. A briga dos produtores de milho americanos contra o álcool brasileiro é grande. No site da National Corn Growers Association (a Unica do milho americano), eles afirmam que o álcool do Brasil tem taxas de importação para compensar o fato de ele ser "altamente subsidiado pelo governo brasileiro". Já teve, hoje tem o que todos têm: os empréstimos com juros mais baixos do BNDES. Em 2006, as exportações para os EUA foram seis vezes maiores que em 2005. Eles foram os principais compradores, seguidos de Países Baixos e Japão. Mas Alfred Szwarc, consultor da Unica, acha que a enorme alta foi um ponto fora da curva: - Foi um ano atípico. Por causa da substituição da mistura do MTBE, aumentou muito a demanda por etanol. Eles também tinham muitos problemas de logística que agora estão sendo resolvidos. O galão (em torno de 3,8 litros) chegou a US$5. Hoje já está em US$2. A situação não deve se repetir em 2007 - afirma ele. Até 2012, a Unica calcula que a área plantada de cana chegará aos 9,8 milhões de hectares - hoje são 6,4 milhões -, expandindo no Oeste de São Paulo, no Triângulo Mineiro e em Goiás. Garantem que será sem desmatar. A conferir. - O subsídio ao milho nos Estados Unidos deve acabar em 2010. Nós acreditamos que o Brasil pode atuar lá como um parceiro complementar - diz Alfred. A Mosaic vê vantagens para todos no avanço do etanol: "Biocombustíveis não apenas estimulam a economia, como também criam um otimismo que não era visto há anos nas áreas rurais americanas (...), reduzem nossa dependência do petróleo de áreas instáveis, a necessidade de pagamento de subsídios aos produtores", afirma. Amaryllis Romano, da Tendências, também acha que a entrada do etanol vai causar forte impacto na agricultura mundial, inclusive, na Europa. Ela acredita que o velho continente vai obedecer à determinação de retirar 2 milhões de toneladas de açúcar do mercado internacional - por causa de problemas com o subsídio - redirecionando a produção para o álcool. Mercado há e amplo. Competitividade e pioneirismo do Brasil são incontestáveis. O problema todo é que, nesse mercado, só vai crescer quem for exemplar em meio ambiente. A entrevista de Guido Mantega ao repórter do "Times" Gabriel Rozenberg foi uma amostra disso. O subtítulo dizia: "O lado sombrio do desenvolvimento brasileiro é a destruição da Região Amazônica." O ministro teve de explicar que é difícil patrulhar área tão grande, mas a reportagem lembra que, pelo Relatório Stern, o Brasil tem o pior nível de desmatamento do mundo. Mesmo que jamais se plante um único pé de cana em região desmatada, os dois assuntos estão ligados. Para ter oportunidade nesse mercado, o Brasil terá que fazer mais esforços em conter o desmatamento. |
Entrevista:O Estado inteligente
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Míriam Leitão - O álcool e a mata
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