Entrevista:O Estado inteligente

sábado, fevereiro 03, 2007

Miriam Leitão Serra e os juros

O governador José Serra acha que os juros do Brasil são “erro de economia, de análise econômica” e que é difícil explicar até a um prêmio Nobel de economia como o país pode ter 13% de juros e menos de 4% de inflação. Num texto, escrito a pedido da coluna, ele explica todos os pontos da sua discordância, critica duramente a diretoria do Banco Central e fala do efeito dos juros na economia. Um deles: “Encarece o retorno exigido dos investimentos em infra-estrutura”, aumentando o custo de obras públicas.

Serra tem sido um adversário da política monetária.Pedi que ele explicasse, como economista, seus pontos contra a política que vem sendo seguida pelo Banco Central, no governo Lula e desde o governo Fernando Henrique.

Serra tem feito declarações duras, mas curtas e pouco claras. Quis entender melhor suas críticas.

Ele me enviou um texto com nove parágrafos explicando o que pensa dos juros praticados no Brasil, os quais chama de “siderais”.

“A taxa de juros básica da economia continua sendo a mais alta do mundo em termos reais. Isso apesar da economia semi-estagnada, com déficit fiscal moderado para os padrões internacionais e inflação baixa.” Ele discorda da tese, defendida por economistas que trabalharam no governo tucano, como Edmar Bacha, de que é a incerteza jurídica e regulatória do Brasil uma das causas dos juros altos. “Se assim fosse, quais seriam as taxas de juros reais da Rússia, da China ou da Argentina?” Serra acha que o argumento de que os juros caíram e não provocaram crescimento está errado por não ver que, como a inflação caiu junto, os juros reais permaneceram no mesmo patamar. Ele também não acredita que a causa dos juros altos seja a falta de poupança no Brasil. “Estamos exportando poupança pela primeira vez na História.

Os grandes empresários reclamam que têm recursos, mas faltam oportunidades rentáveis para investimentos produtivos.” Serra admite que há outros fatores impedindo a criação de um bom ambiente de investimento, como a carga tributária, o enfraquecimento das agências, a falta de investimentos e o aumento “exagerado” dos gastos públicos. Mas acredita que os juros altos têm sido um dos fatores que impedem a criação do ambiente propício ao investimento no Brasil por três fatores.

Primeiro, aumentam os gastos públicos ao encarecer a dívida. Segundo, aumentam outros custos: “A Selic real elevada estabelece um piso também elevado para o retorno exigido dos investimentos privados em infra-estrutura. Quem, nos três níveis de governo, procura atrair investimentos privados sabe disso.” Terceiro, distorcem os preços relativos, barateando exageradamente as importações e ameaçando indústrias mesmo fisicamente competitivas e eficientes.

Foi por causa dos juros que o real se valorizou mais que qualquer outra moeda, lembra Serra.

“Por que o yuan chinês e o peso argentino não foram valorizados como o real?”, Serra se pergunta. Ele mesmo responde que, na Argentina, por causa dos juros baixos, o governo pode comprar reservas com um custo fiscal pequeno. “No Brasil, isso é inviável. Em face dos juros elevados, o custo fiscal de uma acumulação muito mais intensa de reservas seria insuportável.” Serra lembra que isso produz uma contradição inesperada: a melhora nos termos de troca, resultado da elevação do preço do que o Brasil exporta, é transformada numa “maldição”.

“Uma ironia histórica sem precedentes. Quem diria que a alta de preços de alguns itens importantes de exportação produziria estagnação econômica e desemprego? É preciso uma política econômica muito equivocada para obtermos esse resultado. Estagnação quando há estrangulamento externo, e estagnação quando há bonança externa?” O governador de São Paulo acha que, dentro do capítulo reformas microeconômicas, há boas propostas, como, por exemplo, a educação, mercado de trabalho, qualidade do sistema tributário.

Mas não são incompatíveis com mudanças na política macroeconômica.

“Pelo contrário, estas mudanças facilitariam sua adoção ao ajudar o país a sair deste jogo de soma zero que exacerba a necessidade do assistencialismo e enlouquece as investidas corporativistas de todo tipo.” Serra disse que ouviu de “experiente empresário do sistema financeiro” que “a diretoria do Banco Central está comprometendo o futuro da autonomia do Banco, com essa sua atuação pouca corajosa”. Segundo Serra, o Banco Central pode até não ter como um objetivo acelerar a economia, “mas não pode ser o o p o s t o ” .

Esse tema é polêmico, e o governador não economiza em seus ataques: “Essa diretoria tem cometido erros de análise econômica incríveis, por ideologia ou falta de formação e estudo, não sei. Aliás, a melhor prova de que essa política não funciona bem é o fato de que o risco-Argentina hoje equivale, em certos momentos fica até abaixo, ao riscoBrasil, apesar de que eles sofreram hiperinflação recente, deram calote na dívida externa, fazem controle de preços, tributam exportação de commodities e têm inflação bem mais alta que a nossa.” Aqui na coluna, já critiquei o Banco Central e, às vezes, os críticos do Banco Central.

Hoje, aqui está o pensamento de um dos maiores críticos, que tem essa posição desde que seu partido estava no poder. O tema precisa mesmo ser debatido, desta forma, com argumentos, e não apenas com adjetivos e voluntarismos.

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