Entrevista:O Estado inteligente

segunda-feira, junho 12, 2006

TRIUNFO DAS NULIDADES por Adriana Vandoni


12.06, 12h00

JORNALISTA DIEGO CASAGRANDE

A liberdade de expressão é direito supremo da democracia. A imprensa
tem papel fundamental na cobrança à observância dos princípios
democráticos, na fiscalização da atuação dos setores público e
privado, na denúncia de irregularidades, é lógico que sempre
observando os limites constitucionais e legais do Direito. Tendo isso
em mente, sempre me pautei por esses princípios. Não sou jornalista,
mas através de colunas opinativas ocupo espaço na imprensa, e como
articulista me atenho às informações captadas por reportagens, amparo-
me em documentos, pareceres ou decisões da Justiça.

Pratico meu ofício de opinar seguindo a Constituição Federal que me
garante no Art. 220 que a manifestação do pensamento, a expressão e a
informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão
qualquer restrição. Porém, não tenho papas na língua e não tenho
compromisso outro, senão com a ética e a verdade, e quem acompanha
meus textos sabe disso, por isso estou exposta a reações inclusive de
repúdio. A verdade incomoda, principalmente àqueles que ainda não
assimilaram a existência dessa liberdade de expressão.

Escrevi um artigo relembrando ilícitos cometidos por figuras locais.
Ilícitos já amplamente divulgados pela imprensa e por órgãos da
Justiça. Relembrei também alguns delitos cômicos, todos veiculados
pela mídia, descobertos e divulgados por autoridades da Justiça
brasileira.

No mesmo dia em que o artigo foi publicado, as coações começaram a
ser feitas. O método usado foi indireto, ou seja, eram enviados
recados através pessoas ligadas a mim, ou que eles julgavam ligadas a
mim. Quando soube do fato, me questionei as razões de não terem
entrado em contato direto comigo. Por que envolver outros? Por que
optaram por mandar recadinhos?

Como não sou mulher de mandar recados, assim que soube telefonei para
um dos “corajosos” para passar o meu telefone, caso ele não tivesse,
e avisar que quando quisessem me fazer intimidações, que ele e seu
companheiro não envolvessem outros.

Como fui ingênua! Esqueci-me a espécie de gente com a qual estava
mexendo. Fui atendida aos berros e, com o telefone em viva-voz
(percebi isso) o cidadão (!) passou a gritar “vagabunda”, entre
outras coisas. Acredito até que o fato dele ter platéia tenha sido o
motivador da súbita atitude de macheza, uma vez que o cidadão (!) não
é conhecido exatamente por valentia ou por assumir posições, mas a
viva-voz forjou-lhe coragem e deu-lhe a chance de impressionar os que
o rodeava.

A ameaça foi contra a honra minha e de minha família. O cidadão (!)
disse que eu e meu marido não prestamos, espero que ele tenha como
provar isso, como também prove que sou uma pessoa “que age com
desonestidade, canalha, biltre, de má-qualidade, ordinária” e assim
comprove que sou de fato uma pessoa “vagabunda”. Mas quero que meu
extorsionário prove isso na Justiça, pois me recuso a manter diálogo
com tipos que se comportam como bandidos.

Diante dos berros e ao perceber o telefone na viva-voz, desliguei
para não participar do circo montado pelo valente recadeiro.
Interessante é que o rompante de macheza passou rapidinho. Logo que
desliguei o telefone, meu marido tentou por diversas vezes ligar para
o cidadão (!), mas ele não teve coragem de atender. Diante dessa
postura, imagino que se fosse um assaltante de casas seria do tipo
que quando sai das casas assaltadas deixa sempre a privada cheia.

Isso é uma clara intimidação truculenta para cercear o direito
constitucional da livre expressão. Estes cidadãos (!) agiram como se
os limites da lei pertencessem a eles. Acreditam que ainda podem
esconder a verdade usando a coação, a intimidação ou ameaça. Pessoas
que agem assim, mas que costumam transitar com desenvoltura pelas
colunas esportivas, políticas, sociais e policiais dos noticiários
nacionais, deveriam ter um comportamento mais inteligente ou
estratégico diante de críticas.

Maquiavel em seu livro "O Príncipe" aconselha às pessoas que
pretendam impor respeito a se mostrarem temidos, mas alerta que é
mais seguro conquistar o respeito através da competência. Como neste
caso a segunda alternativa é improvável... valem-se da intimidação.

Este meu relato prova que mortes como de Tim Lopes e tantos outros
jornalistas ou articulistas não são fatos isolados ou esporádicos.
Prova que falar ou escrever, apesar da democracia, ainda é um ofício
de risco neste país. Infelizmente, tive que escrever este artigo como
forma de me proteger. É ultrajante essa distorção de direitos, onde
quem comete delitos, faz chantagem, ameaça a integridade de pessoas
de bem, apropria-se do que não lhe pertence, e mesmo os que matam,
possuem o livre transitar. É como Rui Barbosa disse: “De tanto ver
triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver
crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos
dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a
ter vergonha de ser honesto”.

Estou me sentindo ameaçada na minha liberdade de expressão e na minha
liberdade de ir e vir, direitos constitucionalmente garantidos aos
cidadãos. Não sei até aonde é capaz de ir pessoas que fazem da
intimidação a sua defesa, não a defesa de sua honra, já que dessa
parecem ser desprovidos, mas em defesa do seu poder. Tenho filhos e
não estou acostumada a viver com pendências e nem me escondendo dessa
espécie de gente.

Confio na Justiça e na atuação dela como única garantidora dos
princípios constitucionais.

Adriana Vandoni é economista, especialista em Administração Pública
pela Fundação Getúlio Vargas/RJ e articulista de A Gazeta – Cuiabá/MT.
E-mail: avandoni@uol.com.br Blog: www.argumento.bigblogger.com.br

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