| editorial |
| O Estado de S. Paulo |
| 7/6/2006 |
Quaisquer que sejam as realizações que o governo acredite que tenha a mostrar aos brasileiros, faltando meio ano para o término do mandato que o presidente Lula deseja ardentemente que seja apenas o primeiro, a modernização e o desenvolvimento da infra-estrutura física do País definitivamente não figuram entre elas. Mas que diferença faz? No Planalto, a quatro meses das eleições, Lula parece imitar, sem dramas de consciência aparentes, o jornalista fictício do clássico O homem que matou o facínora, filmado por John Ford, que ensinava que se deve publicar a lenda sempre que ela seja mais conveniente do que a realidade. E as lendas que o presidente da República propaga com a maior sem-cerimônia - ou melhor, em sucessivas cerimônias-comício - são as das obras que ele se vangloria de tocar, fazendo o que os antecessores não fizeram. A diferença entre fato e mito, no caso, é que Lula não inaugura obras: inaugura intenções ou, quando muito, início de obras, e isso no último semestre do seu período de governo - mais uma singularidade desse presidente que não deve ter passado um único dia desde que se instalou no Planalto sem pensar na reeleição e ainda hoje tem o desplante de não assumir a recandidatura, mesmo quando se reúne e torna a se reunir com hierarcas do PMDB para oferecer ao partido a vaga de vice. O mais recente exemplo da desbragada parlapatice presidencial foi o anúncio, anteontem, do plano de desenvolvimento sustentável da área cortada pela Rodovia Cuiabá-Santarém (BR-163) no Pará. "Eu não prometi (construir a estrada, na campanha de 1989) porque era contar uma mentira. E depois de tantos anos estamos aqui falando da BR-163", discursou Lula, pondo as palavras de ponta-cabeça. Ele começou a falar do plano da BR-163 em fevereiro do ano passado, numa tentativa de rebater as críticas à omissão federal que teria conduzido ao assassínio da missionária americana Dorothy Stang. E só voltou a falar do assunto em fevereiro deste ano, dessa vez numa solenidade para anunciar a criação de um distrito florestal de 16 milhões de hectares destinado a impedir que a pavimentação da rodovia provocasse o aumento do desmatamento na região. Agora, na sua terceira incursão oral pelo tema, o sentido de missão cumprida que transbordava de sua retórica encobria a singela verdade de que o asfaltamento de há muito esperado ainda depende de uma parceria público-privada a ser formalizada e que a obra levará pelo menos dois anos para ficar pronta. Outra parlapatice, ventilada na mesma segunda-feira, dava como líquida e certa a conclusão do Ferroanel, uma via férrea de 125 km ao redor da capital paulista, para transporte de carga. Numa exibição de duplipensar que teria feito a delícia do escritor inglês George Orwell, Lula disse que "estamos pensando em resolver definitivamente a questão do Ferroanel" - indiferente à distância entre o pensar e o resolver os problemas, mesmo que não definitivamente, uma das marcas salientes de sua gestão. A verdadeira história da obra é prova disso. Tão logo assumiu, em 2003, o governador Geraldo Alckmin pediu ao então ministro dos Transportes, Anderson Adauto, participação federal no projeto de término do anel ferroviário. Em outubro daquele ano, União e Estado assinaram um convênio para esse fim. "Fizemos até algumas reuniões", lembra o agora candidato tucano à Presidência, "mas nada saiu do papel." É assim que o presidente se põe a pensar em resolver definitivamente as grandes questões da vida real que dele dependem. Pensar, mesmo, e agir com empenho, só quando a questão a ser resolvida de uma vez por todas é a da sua permanência no Planalto por mais quatro anos. Ou quando o problema é persuadir a sociedade de sua completa inocência no escândalo do mensalão e da sua impossibilidade de saber o que faziam, não raro nas cercanias de seu gabinete, os companheiros integrantes da "sofisticada organização criminosa" de que fala o procurador-geral da República. Para compensar uma inação que manifesta todos os sintomas de laborfobia, ele produz factóides por atacado, em eventos coreografados por colaboradores pagos com o dinheiro do contribuinte para exibir um chefe de Estado que, a rigor, não existe. "Esse é o trololó eleitoral de Lula", resume o ex-prefeito José Serra. Às vezes, a inércia vem para o bem. Poupou o Nordeste, por exemplo, da transposição do São Francisco - algo que merece ficar definitivamente no terreno do trololó. |
Entrevista:O Estado inteligente
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