Correio Braziliense
13/6/2006
Foi ministro de Estado, governador e senador
Hitler começou sua maléfica trajetória política, no Partido dos
Trabalhadores Alemães, registrado como o 7º membro do Comitê. Dos 25
pontos do programa do partido, cabiam-lhe dois, um dos quais afirmava
que “as massas não necessitam de idéias, mas de símbolos que
conquistam a fé, e atos de violência e terror que, se bem-sucedidos,
atraem adeptos”. Depois de muitas discussões a analisar propostas,
decidiu-se por uma bandeira que tivesse as suas raízes no passado
distante. A que correspondeu a esse paradigma foi a bandeira que
ainda drapejava nos escombros de Pompéia, após sua destruição. Rendeu-
se Hitler a optar por um fundo vermelho – que não era da sua
preferência –, em cujo centro exibia um dístico branco, no qual se
estampava a suástica preta, cruz gamada, signo existente desde 4 mil
anos antes de Cristo.
O PT seria um partido novel, porque todos os da oposição eram
“farinha do mesmo saco”, sem um ideário subordinado à ética na
conduta partidária. Escolheu seu símbolo não na antigüidade, que
lembrasse Pompéia, lugar de recreio que as lavas do Vesúvio
soterraram. Deveria ser algo que revivesse a vitória, como a estrela
vermelha que identificava o exército com que os bolcheviques,
principalmente Trotski, venceram a guerra civil contra “os brancos”
de Kolchack, a aliança da contra-revolução que pretendia entregar a
Rússia de volta à monarquia depravada e aos mujiques miseravelmente
explorados, como Gogol descreveria no romance Almas mortas.
Adotado o símbolo que “conquista a fé”, caberia cumprir a missão da
“violência e do terror que atraem”. Não, igualmente, no estilo das SA
e suas tropas de choque no início do nazismo. Começaram as arruaças
pela intimidação. Apareceu o “apitaço”, no fim dos anos 1980. No
parlamento, deformou o sentido democrático. Era de ver senhores
deputados petistas soprando seus apitos, de sorte que o adversário
não fosse ouvido ou se exasperasse. A mesma tática foi usada nos
comícios. Quando Rachel de Queiroz assistiu, pela primeira vez, a um
ato desses, dirigido pelos comunistas, denominou-os “fascistas
vermelhos”. Tinha razão, porque essa fora a maneira pela qual os
fascistas preferiram a violência ao debate, o que não é de todo
diferente da violência que Hitler defendia. Ele acreditava que um bom
político só inflamasse as massas se fosse igualmente um bom orador.
Por isso suas brigadas de choque desfaziam reuniões ou comícios.
Preso por três meses, porque desfez chefiando pessoalmente o grupo de
choque que atacou o comício em que falava o respeitado orador bávaro
federalista Ballerstedt, e o esmurrou, passou só um mês na cadeia. Ao
sair, provocou os policiais: “Mas Ballerstedt não falou”. Impossível
deixar de fazer a analogia disso com os apitaços.
O que me fez lembrar a similitude foi inicialmente Stedile, em
constantes elogios aos atos de violência do MST. Mas foi o assalto ao
parlamento na semana passada que me fez ver a semelhança com o
nazismo e a frase feliz de Rachel de Queiroz. O assalto, planejou-o
um petista do comitê central do partido, “companheiro” várias vezes
recebido por Lula em encontros fraternos (de cujo governo recebeu R$
5,7 milhões) e também a solidariedade e as bênçãos de dom Tomás
Balduíno, da Pastoral da Terra. Os que depredaram a Câmara dos
Deputados seguiram um planejamento cuidadoso, reconheceram por vários
dias os acessos à ela, armaram-se com grandes tacões de pedra,
pedaços de madeira e até mesmo de algo suficientemente contundente
para quebrar computadores e desfigurar um automóvel posto de pernas
para o ar.
O líder, de uma família de donos de usineiros abastados do Nordeste,
não tem uma suástica a identificá-lo, no braço musculoso, mas é como
se a tivesse na cabeça proeminente e o gesto desafiador dirigido aos
policiais. Disse não ser responsável pelo estouro da boiada, como se
não fosse o bucéfalo que o inspirou. A súcia (mulheres inclusive) não
foi à Câmara para impedir nossos licurgos de falar, como usavam fazer
os recrutas das SA. Alguns – não surpreende – devem fazer parte da
“organização criminosa dos 40” que o bravo procurador-geral da
República teve o destemor de denunciar. Baderneiros, nada tinham com
reivindicação, tantas são elas numa sociedade injusta, mas provar que
os trogloditas reviveram. No rico Bruno, o PT encontrou, afinal, o
seu Pancho Villa.
O presidente da Câmara, que se honra de pertencer há 30 anos ao
Partido Comunista, incomoda Stalin, no cadáver às margens do Kremlin,
quando louva a democracia, a Casa do povo, e desanca a violência.
Para não parecer que aderiu à direita, obrigada a defender-se de
agressão, preferiu expor a vida dos poucos seguranças (que os
assaltantes, no planejamento feito já sabiam serem poucos) ante a
fúria dos baderneiros a solicitar a presença da Polícia Militar, que
ao menos poderia impor, pelo respeito à farda, comedimentos dos
brutos herdeiros camisas marrons das SA do início do nazismo. O
“estouro da boiada”, a violência de seus comandados estava implícita
nas lições de capacitação política. A pedra que perfurou o crânio do
servidor levado aos cuidados de UTI prova que o amor da liberdade
obriga, quem dela se serve, a defendê-la, sem medo de ser confundido
com o passado de quem Kruhshev fez o retrato nefando de um tirano.
Como afirmou Fareed Zakaria, as liberdades cresceram e o Estado,
antes monopolista das armas, diminuiu e com ele veio o
enfraquecimento da democracia.
Lyautey, biografado por André Maurois, disse: “A ordem e a segurança
não são, decerto, direitos, mas se tornaram necessidades humanas”.
Goethe foi mais longe. Embora vitorioso, diante das injustiças no
cerco de Mayence disse: “Amo melhor a injustiça que a desordem”. Por
aqui, neste Brasil, ama-se mais a desordem que a injustiça.