Entrevista:O Estado inteligente

sábado, junho 17, 2006

Nem Lula dá bola para eles

VEJA

Dirigentes do PT retomam idéias
desastrosas para a economia e
recebem o desdém do presidente


Giuliano Guandalini


Fotos Jefferson Bernardes/Preview.com e Adriano Machado/AE
Na campanha de 2002, Lula pregou a racionalidade administrativa; agora, Berzoini e Garcia (de óculos) propõem o retrocesso

Na campanha presidencial de 2002, o então candidato Lula e o PT deram uma guinada em direção à racionalidade administrativa. Na Carta ao Povo Brasileiro, partido e candidato aderiram à estabilidade da moeda e à sanidade das contas, dando-lhes o status de conquistas da sociedade brasileira. O gesto reduziu a apreensão que havia sobre a orientação econômica do PT, ajudando Lula a eleger-se. Na semana passada, o partido começou a produzir um programa de governo com o qual espera se apresentar aos eleitores na campanha de 2006. O documento, ainda em fase de debates, só será divulgado oficialmente em julho. Mas, pelo que já se soube das diretrizes – escritas a quatro mãos pelo presidente do PT, Ricardo Berzoini, e pelo coordenador do programa, Marco Aurélio Garcia –, trata-se de um retrocesso. Volta-se ao século passado, do qual Berzoini e Garcia nunca conseguiram escapar. É um desserviço a Lula como presidente e como candidato.

A dupla Berzoini e Garcia entrou no túnel do tempo. Do passado, seu ponto de vista do mundo, eles mandam sua receita: nada de redução de gastos, nada de autonomia do Banco Central, nada de cortes de impostos e toda a força ao comércio com a África e a América do Sul. Uma receita carregada de ideologia e ingenuidade. "É equivocada a tese do rombo explosivo da Previdência", afirma Berzoini. Garcia, o amigo do boliviano Evo Morales, faz eco ao colega: "Corte de custeio significa diminuição dos gastos sociais". Felizmente, ninguém os levou a sério – nem o presidente. É fácil entender a razão. Lula fez questão de se mostrar distante da turminha trevosa. Sobre a Previdência, disse o presidente: "A sociedade vai ter de compreender que a Previdência, de tempos em tempos, tem de passar por uma reforma. Hoje temos metade das pessoas trabalhando e metade recebendo aposentadoria. As pessoas estão vivendo mais. Nenhum sistema de previdência no mundo suporta que as pessoas vivam mais tempo recebendo aposentadoria do que o tempo em que contribuíram". Os especialistas em finanças públicas são unânimes em avaliar como insustentável a situação da Previdência. Os gastos com benefícios dobraram nos últimos dez anos e atingiram 146 bilhões de reais em 2005. As contas, que eram equilibradas, entraram no negativo – no ano passado, o déficit ficou em 38 bilhões de reais, quatro vezes o orçamento do Bolsa Família. A tendência é piorar.

Berzoini enxerga a questão de outra maneira. Ele acredita que, conforme os juros caírem e a economia crescer, o déficit naturalmente diminuirá. Essa confusão de causas com conseqüências é um velho truque petista que, imaginava-se, nunca mais viria a ser tentado dada sua primariedade. No mundo mágico de Berzoini, a redução por decreto dos juros levaria à queda da dívida e dos gastos públicos. No planeta Terra as coisas não funcionam assim. É justamente a diminuição dos gastos e da dívida que permite baixar juros e, assim, produzir maior progresso, mais empregos e bem-estar – sem inflação.

Foi esse o caminho que Irlanda e Espanha, para citar dois exemplos, trilharam para ingressar no time das economias modernas e prósperas. Só com o controle dos gastos será possível reduzir a carga tributária, estimulando investimentos. "Corte de impostos é a receita clássica dos liberais", disse Garcia. Seja de quem for a receita, ela é mais do que adequada ao Brasil, país em que as pessoas trabalham quatro meses por ano – atenção: quatro meses por ano! – para pagar impostos aos governos. Só então, paga sua alforria aos mandarins como Garcia, elas começam a suar o rosto para comprar comida, educar os filhos, garantir a segurança de suas casas, fazer frente às despesas de transporte e moradia. Enquanto isso, o dinheiro entregue ao Estado estará, em boa parte, se esvaindo pelos ralos da corrupção e do desperdício.

A dupla de formuladores da política econômica do PT investe também contra o tradicional moinho de vento que zune nos ouvidos da esquerda: o Banco Central. "Não se pode trabalhar com a idéia de autonomia total, porque seria retirar o Banco Central do controle democrático da sociedade. O BC deve estar submetido ao crivo do Executivo e do Legislativo", disse Berzoini. A miopia nesse caso é ainda mais grave do que não enxergar o déficit da Previdência. Em todos os países viáveis, o Banco Central goza de autonomia formal ou legal. Quanto mais distante das pressões do Executivo e do Legislativo, melhor os bancos centrais podem exercer sua função precípua: defender o poder de compra da moeda que está no bolso dos cidadãos. Em outras palavras, impedir que a inflação devore as economias das pessoas. Lula ainda não anunciou oficialmente sua candidatura, mas já se beneficia eleitoralmente da política econômica responsável que segurou o poder de compra do real, o efeito mais sentido pelas camadas mais pobres da população. É o que mostram as pesquisas de intenção de voto. Quem diria, Berzoini e Garcia trabalham contra Lula!

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