Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, junho 09, 2006

Míriam Leitão - Ata e desata

Panorama Econômico
O Globo
9/6/2006

A inflação está abaixo da meta, os juros vão continuar caindo, a
turbulência externa é transitória, a gasolina não vai aumentar e o
crescimento econômico pode ser maior porque nem todo o efeito da
queda dos juros foi passado para o nível de atividade. Essa coleção
de notícias boas estava ontem na ata do Copom. Claro, continuou
avisando que vai reduzir os juros com a tal da “parcimônia”, mas
nenhuma ata é perfeita. Numa reunião em São Paulo com economistas do
mercado, o BC confirmou que trabalha com “um cenário benigno” para a
economia.

Enquanto isso, na política, ontem foi mais um dia de pânico até que,
à noite, o TSE emitiu o sinal de que fica tudo como dantes: a
verticalização é pela metade, até que caia por inteiro na próxima
eleição. A arguta pergunta de Tereza Cruvinel, “para que numa hora
dessas?”, não quis calar. O TSE deu o entendido por desentendido.
Mas, enquanto não veio o alívio, os políticos começaram a olhar seus
próprios interesses e se surpreenderam, na opinião de Amaury de Souza:

— Feitas as contas, PFL e PMDB estão juntos em 12 estados, mais do
que as alianças entre PFL e PSDB, ou seja, faria mais sentido uma
candidatura PMDB-PFL.

A quatro meses das eleições, a política ferve. O presidente do PT,
Ricardo Berzoini, disse que o Partido dos Trabalhadores não ajudou a
financiar o gasto de R$ 80 mil para preparar o vandalismo no
Congresso. Era só mesmo o que faltava. Resta saber quanto o governo
transfere para o MLST.

Tudo isso é política. Terreno pantanoso. Voltemos à economia. A ata
de ontem do Copom mostrou que o Banco Central tem uma avaliação muito
mais moderada do que vários outros economistas sobre o cenário
econômico internacional. O Comitê acha que há “baixa probabilidade”
de ocorrer “um cenário de deterioração significativa que comprometa
as condições de financiamento da economia brasileira”. Ou seja, a
crise não será grande a ponto de faltarem dólares para o Brasil. E
isso por dois motivos: a economia mundial continua crescendo e os
nossos fundamentos externos estão sólidos. Um dado: o nosso superávit
em transações correntes é hoje de US$ 12,8 bilhões.

A inflação continua em queda, disse o Banco Central, e ontem mesmo
foi confirmado pelos fatos. O IPCA de maio foi até menor do que o
previsto e já se esperava um número baixo. Deu 0,1%, levando o
acumulado em 12 meses para 4,23%. Após a divulgação, já havia banco
revendo a inflação do ano para 4%.

O petróleo está com um preço alto e, pior, volátil, avisou o BC. Mas,
mesmo assim, ele não vê risco de os preços dos combustíveis subirem
aqui no Brasil, e projeta 0% de aumento este ano. Para quem está
concorrendo à reeleição, é uma maravilha! O Banco Central admite que
a principal mudança em relação ao cenário avaliado na última reunião
do Copom é o quadro externo, que está numa fase de “volatilidade
expressiva”, mas acha que é passageiro. Tomara seja.

A diretoria do Banco Central fez ontem uma das costumeiras reuniões
com os economistas do mercado. Os diretores e o presidente disseram
que ouviriam mais do que falariam. No que falaram, fizeram três pontos.

Primeiro, o nível de atividade está se recuperando. Na ata, eles
haviam dito que normalmente demora um pouco para que a queda dos
juros influencie o aumento do ritmo da economia. Que ainda nem todo o
efeito ocorreu, dos quatro pontos percentuais de queda na taxa
básica. Na reunião, disseram que o crescimento está sendo puxado pelo
mercado interno, por consumo das famílias, do governo e investimento.
Avisaram que o segundo trimestre vai dar a falsa impressão de uma
desaceleração forte de crescimento, porque o segundo trimestre do ano
passado foi bem forte e, quando for comparado trimestre contra
trimestre, haverá um número fraco. Já no terceiro trimestre será o
contrário; coisas da estatística. O fato concreto mesmo é que o país
está crescendo mais do que no ano passado. O Ipea, como se viu,
acredita em 3,8%.

Segundo, avisaram que a inflação está baixa, mas a deste ano parece
mais baixa do que a do próximo ano. Pelo regime de metas de inflação,
o Banco Central age com um horizonte mais largo. Ou seja, isso pode
conter a queda dos juros. Mas alguns economistas que estavam no
encontro continuam apostando em queda de 0,5 ponto percentual na
próxima reunião.

Terceiro, a turbulência externa é transitória. O crescimento mundial
será menor, haverá mais aversão ao risco, mesmo assim, isso não é
considerado crise. Acham que está havendo uma convergência para um
cenário normal, sem tanto aquecimento e liquidez como nos últimos anos.

Alguns economistas ponderaram que o nível de atividade vai bem, de
fato, mas que é preciso separar o que é crescimento permanente do que
é apenas efeito do aumento dos gastos públicos por razões eleitorais.
Aliás, o assunto mais falado na reunião com o Banco Central foi
exatamente a preocupação geral com o aumento dos gastos. O governo
está aprovando aumentos que terão efeito permanente sobre as contas
públicas.

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