Panorama Econômico - Jornal O Globo
A três professores eu fiz a mesma pergunta: o que mais o preocupa
sobre o Brasil neste momento? O economista José Alexandre Scheinkman
disse que é o país se acostumando com um desempenho medíocre; o
cientista político Amaury de Souza disse que é a crise de
governabilidade de 2007; o economista Eduardo Giannetti da Fonseca
acha que é o capital intelectual pouco desenvolvido.
Amaury vê o risco imediato de crise de governabilidade já em 2007.
Metade do atual mandato de Lula foi vivida em crise política. Se
houver um segundo mandato, o PT provavelmente terá uma bancada menor.
Ele calcula que o partido acabará conquistando cerca de 65 cadeiras.
Isso torna ainda mais urgente que o presidente se empenhe em
construir a maioria necessária para governar; do contrário, serão
mais 4 anos de turbulência, agravados por um fato:
— Estarão correndo na Justiça os processos contra os denunciados pelo
mensalão. Isso pode atingir o próprio presidente. O mais assustador é
o cenário Nixon. Ele foi reeleito com uma votação consagradora, mas,
como Watergate havia acontecido no primeiro mandato, o processo
continuou e ele sofreu impeachment. No Brasil, um segundo impeachment
em 15 anos será uma tragédia institucional — diz Amaury.
Lula não poderá mais se omitir na costura de uma maioria parlamentar
que lhe dê condições de governabilidade. Isso é fundamental,
sobretudo num ambiente em que a economia pode piorar por força de
ventos externos. Até hoje, Lula só teve vento externo a favor. Mas o
mundo está em transição.
José Alexandre Scheinkman, da Universidade de Princeton, acha que os
Estados Unidos terão que fazer um ajuste da sua economia e que isso
afetará o crescimento mundial. Um estudo do BIS analisou 28 casos de
ajuste de déficit em transações correntes nas economias desenvolvidas
entre 1973 e 2002. Todas as economias estudadas estavam com um
déficit de 3% a 5% do PIB; todas tiveram que se ajustar. Em todos os
casos, houve perda de 2 pontos percentuais do nível de crescimento. A
única exceção dos 28 foi exatamente os EUA, em 87. Eles fizeram uma
desvalorização bem maior (o yen subiu 65% e o marco alemão, 60%), mas
conseguiram manter o ritmo de crescimento. Hoje, os Estados Unidos
têm um déficit externo muito maior: 6,5% do PIB.
Num ambiente de incerteza externa, as urgências ficam mais agudas.
Scheinkman acha que o cenário brasileiro mostra dados de uma equação
que não fecha: o governo tem aumentado o gasto e a carga tributária;
os juros são excessivos. O país não fez nenhuma das reformas que
tinha que ter feito para mudar o quadro em que está — e há pouca
chance de que venha a fazer se for confirmado o cenário de impasse
político no ano que vem.
— O que me preocupa é que o Brasil se acostume com o cenário de
mediocridade. Ele tem tido um crescimento per capita menor do que o
resto do mundo há muito tempo.
Encontrei Scheinkman e Amaury num debate. Na Globonews, entrevistei
Eduardo Giannetti da Fonseca. Ele também alertou que o governo
comemora taxas medíocres de crescimento:
— Há 25 anos, estamos diminuindo nosso percentual de participação no
PIB mundial. Este ano mesmo, os emergentes devem crescer 6,9%; o
mundo, 4,9%; e nós, menos que isso. Mais uma vez ficaremos atrás da
média mundial e dos emergentes.
Mas afinal que PIB devemos comemorar? Até isso é relativo.
— Os alunos brasileiros sistematicamente tiram notas baixas nas
provas internacionais. Os métodos que a economia usa para valorar as
ações estão atrasados, deixam de fora a economia do conhecimento. Se
uma empresa constrói um galpão, é considerado investimento; se treina
um funcionário, é gasto. Se compra um computador, é investimento; se
desenvolve um software, é gasto. Dois terços do estoque ativo dos EUA
são capital humano e um terço é tangível, como máquinas e
equipamentos. Mas isso não aparece na taxa de investimento, que
inclui construção civil, máquinas e equipamentos, e o que importa no
mundo atual é a qualidade dos jogadores — diz Giannetti da Fonseca.
Na eleição de 2002, o economista José Alexandre Scheinkman reuniu um
grupo de estudiosos e montou um documento que, na época, chamou-se
Agenda Perdida. Nessa agenda, foram identificados vários impasses e
feitas várias recomendações sobre os problemas brasileiros a serem
atacados. Alguns itens foram seguidos como, por exemplo, manter a
política macroeconômica. Na lista das reformas para garantir o
crescimento sustentado, pouca coisa foi feita.
Mas, de lá para cá, o mundo viveu uma conjuntura favorável com
abundância de capital, aumento do comércio internacional, queda da
aversão ao risco e forte crescimento. O Brasil melhorou as contas
externas, mas continuou crescendo a taxas baixas. Agora a conjuntura
vai piorar e o Brasil desperdiçou a sorte.
Giannetti da Fonseca disse que, nos últimos anos, o país veio
experimentando todos os grupos políticos criados na ditadura:
primeiro o PMDB, com Sarney e Ulysses, depois o PSDB e agora o PT.
— A ditadura cria a ilusão de que tudo vai mudar quando ela não
existir mais. A ilusão de que tudo se resolverá por mágica. Essa é a
primeira eleição sem ilusões. Agora, ou amadurecemos, tratando com
realismo as questões, ou se vai para o descrédito das instituições —
afirmou.