"Nossa ação interna e externa tem um só objetivo: crescer com estabilidade, gerando empregos, distribuindo renda e promovendo justiça social." A frase é do presidente Lula, proferida em seu discurso na cerimônia dos Maiores e Melhores da revista Exame, em São Paulo, três anos atrás. Passados três anos, nosso presidente parece absolutamente convencido de que seu único objetivo foi ou está sendo plenamente alcançado e que os méritos são exclusivamente seus, porque nunca antes na História do País esse objetivo havia sido pensado, proposto, tentado ou alcançado. Portanto, agora, e só agora, com Ele, e graças a seu tirocínio, o País estaria, como afirmou num dos discursos da semana passada, "por cima da carne-seca" e não mais seria, desde 2003, "aquele paisinho" (país apequenado) dos 500 anos anteriores.
No mesmo discurso de três anos atrás, avaliando os primeiros seis meses de sua política externa, nosso presidente não conseguiu impor um mínimo de limite à sua reconhecida capacidade de empolgar-se consigo mesmo. "Este país se apresenta hoje ao mundo com uma agenda própria: observem a espiral ascendente desenhada pela nossa diplomacia na redefinição do espaço de influência do Brasil na comunidade internacional das nações." Alguém poderia dizer à época: eram arroubos de presidente iniciante, deslumbrado com o poder e desconhecendo suas transfigurações. Como experimentaram vários dos seus.
Passados três anos, nosso presidente parece absolutamente convencido de que o que dissera era a mais pura realidade, agora sobejamente confirmada. "Aquele paisinho" apequenado dos últimos 500 anos caminhava a passos céleres, desde 2003, para ser no século 21 o que a Inglaterra fora no século 19 e os EUA no século 20, ou pelo menos, como no improviso da última semana, "disputar com a China a dianteira das nações em desenvolvimento".
Nosso presidente, como é sabido, está em campanha aberta pela reeleição desde o início de seu governo. Se concedeu apenas duas ou três entrevistas coletivas desde a posse, contam-se em mais de mil seus discursos para platéias selecionadas, que se têm transformado nos últimos meses em verdadeiros palanques eleitorais. Onde nosso presidente parece sentir-se "feliz como pinto no lixo", como disse Jamelão de Bill Clinton quando da visita deste à Mangueira.
Menos poético que Jamelão foi um dos dirigentes do "movimento social" que organizou a lastimável "ação direta de soberania popular" sobre o Congresso na semana passada, ao afirmar a seus militantes (ou sua massa de manobra) que "o Lula está tranqüilo, tranqüilo, ca...ando e andando pro mundo". Política Perdida é um livro recém-lançado nos EUA, de Joe Klein, que tem como subtítulo Porque a democracia americana foi trivializada por pessoas que pensam que você é estúpido. Questão de opinião.
Opinião é uma palavra complexa, com história difícil. O original grego (doxa) pode significar opinião, crença, mas também glória ou honra. O tema fascinou Shakespeare, que a ele dedicou uma bela peça (Troilus e Cressida), brilhantemente analisada por Frank Kermode, que diz ser possível argumentar que a peça "derrota a verdade, sendo em si uma rapsódia sobre a opinião". Porém, diz ele, é também possível argumentar que só quando as duas são diretamente confrontadas pode a verdade ter a última palavra, ainda que a opinião procure sempre estar vestida com trajes semelhantes aos trajes da verdade.
Nos mundos da política e da economia este confronto não é fácil e pode ser excessivamente prolongado. Como na belíssima tradução de Chaucer (para o inglês medieval) do velho ditado "ars longa, vita brevis" - a vida tão curta, o ofício tão longo de aprender.
Este ofício tão longo de aprender, hoje, no Brasil, tem duas dimensões fundamentais. Primeiro, a do aprendizado de convivência num genuíno processo político democrático, que não comporta "ações diretas de soberania popular" que confrontem o Estado, a lei e a autoridade legitimamente constituída. É inaceitável que "movimentos sociais" pensem que podem invadir, depredar e afrontar o Estado democrático de Direito. Mas o fato é que o fazem porque sabem, por experiência, que estão hoje representados - em vários escalões - no aparelho de Estado e, como notou a Folha de S.Paulo em editorial da semana que passou, "porque são tratados com leniência, paternalismo, dinheiro do contribuinte e recepções presidenciais".
A segunda dimensão do "ofício tão longo de aprender" tem que ver com o longo aprendizado econômico do governo Lula - para o qual o ex-ministro Palocci e sua equipe na Fazenda e no Banco Central tanto contribuíram, apesar de constante e crescente fogo amigo e sua insistência em mudanças de curso.
A este respeito vale notar, neste momento em que os ventos externos indicam claramente um período menos favorável, com maior turbulência e volatilidade à frente, a importância da coerência, da consistência e do sentido de rumo e de propósito por parte do Brasil nesta transição para o próximo quadriênio, qualquer que seja o resultado das urnas.
Rosângela Bittar, em artigo de fins de maio no jornal Valor, escreve: "Estão na mesma categoria de crédulos inveterados os que vêem na ascensão do ministro Guido Mantega ao comando da equipe econômica a manutenção da política adotada no início do governo Lula, e os que admitem veracidade à assertiva de que o presidente Lula não está em campanha eleitoral porque ainda não decidiu ser candidato."
Não tenhamos ilusões. Cada vez mais, as atenções estarão sendo concentradas na composição possível do próximo governo (ainda que possa ser um segundo mandato para o atual presidente) e, principalmente, na avaliação da capacidade técnica e política que este tenha para avançar em processos de mudança e de reformas, sem as quais o único objetivo mencionado na primeira linha deste artigo dificilmente poderá ser alcançado de forma sustentada.
Entrevista:O Estado inteligente
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domingo, junho 11, 2006
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