Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, junho 07, 2006

A franqueza de Bernanke



editorial
O Estado de S. Paulo
7/6/2006

O presidente do banco central dos Estados Unidos, Ben Bernanke, continua a chacoalhar os mercados financeiros com suas declarações públicas. Seus últimos comentários sobre a inflação, na segunda-feira, foram seguidos de quedas de bolsas em todo o mundo. Alguns o chamam de trapalhão, outros lhe dão um desconto: é inexperiente, pois só assumiu o posto em 1º de fevereiro. Os impacientes falam com nostalgia de seu antecessor, o quase mítico Alan Greenspan. Mas Bernanke não caiu de pára-quedas na presidência do Federal Reserve, o Fed, a mais poderosa instituição monetária do mundo. Ele não tem apenas uma reputação acadêmica. Foi assessor do Fed e um de seus governadores, além de ter chefiado a assessoria econômica da Casa Branca. Instalado em seu novo cargo, teria revelado uma inesperada incompetência no uso das palavras?

Não se trata disso. A agitação nos mercados não tem sido atribuída à obscuridade, mas à clareza de suas palavras. Seus comentários de segunda-feira trouxeram somente uma novidade - e essa foi suficiente, segundo os analistas, para desencadear nervosismo, derrubar preços de ações e desviar dinheiro dos papéis emitidos pelos países em desenvolvimento.

A novidade não foi a referência à inflação elevada. Todos conheciam os índices de preços calculados pelo governo dos Estados Unidos. Todos sabiam, também, do aumento mais acelerado, nos últimos tempos, do núcleo da inflação. Se esse núcleo permanecer no nível atingido nos últimos três a seis meses, poderá ultrapassar o limite considerado "por muitos economistas" como compatível com a estabilidade de preços e com crescimento econômico, disse o presidente do Fed. E nesse ponto apareceu a novidade. Foi uma confissão: "Eu me incluo" entre esses economistas, disse o presidente do Fed.

Bernanke revelou, portanto, seu limite de tolerância à inflação. Deu uma informação com uma clareza que seu antecessor não costumava usar. Há uma semana, quando se divulgou a ata da última reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto, o órgão do Fed responsável pela política monetária, a perplexidade foi a reação mais comum. O texto era de uma obscuridade exemplar. Não dava nenhum indício razoavelmente seguro sobre a decisão do comitê em sua próxima reunião, marcada para os dias 28 e 29 de junho.

A fala de Bernanke parece ter eliminado as dúvidas. O juro básico da economia americana continuará a subir. No 16º aumento a partir de 2004, chegou a 5% ao ano. Poderia parar por aí, segundo vários analistas, pois as conseqüências desse aperto monetário ainda não devem ter-se manifestado completamente.

Essa é a opinião conhecida, também, de alguns dirigentes do Sistema da Reserva Federal. Mas Bernanke parece menos disposto a contemporizar e suas últimas declarações têm permitido caracterizá-lo como um falcão da política monetária. Mas o presidente do Fed não está sozinho. Outros dirigentes do sistema vêm expressando preocupação semelhante com a alta de preços. Ontem, o diretor do Fed de Saint Louis, William Poole, defendeu o uso de um viés de alta para o juro, se persistirem as expectativas de inflação mais alta. Poole não é membro votante do Comitê de Mercado Aberto, mas esse detalhe não faz muita diferença neste momento.

Será uma surpresa se o comitê, na próxima reunião, decidir interromper a alta do juro, pelo menos por algum tempo, para verificar seus efeitos. Essa possibilidade não é descartável, apesar das últimas declarações de Bernanke e de outras autoridades monetárias dos Estados Unidos. Novos dados sobre a economia surgirão até lá e poderão modificar parcialmente o cenário.

Mas a novidade mais importante permanece: o novo presidente do Fed revelou seu limite de tolerância. Pode ter sido um escorregão, mas parece pouco provável. Bernanke é um conhecido defensor do regime de metas de inflação explícitas. Seu estilo mais franco - e desastrado, na opinião de alguns - pode ser simplesmente um reflexo dessa preferência.

Por enquanto, isto é apenas uma hipótese. Não se vai confirmá-la ou derrubá-la de um dia para outro. Será preciso observar por mais tempo o comportamento de Bernanke. Considerá-lo simplesmente inábil é no mínimo precipitado.

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