Entrevista:O Estado inteligente

domingo, junho 04, 2006

Folha de S.Paulo - José Alexandre Scheinkman: Volatilidade - 04/06/2006

JOSÉ ALEXANDRE SCHEINKMAN

Volatilidade

A mensagem do Fed é que a política monetária nos próximos meses vai
depender muito de dados ainda por vir

A TURBULÊNCIA dos mercados nas últimas semanas reflete uma forte
incerteza em relação ao futuro da economia mundial. A economia global
continua crescendo, e os preços de commodities, em particular o do
petróleo, aumentaram muito nos últimos anos. Pela primeira vez em
mais de uma década, as taxas de inflação nos países avançados estão
subindo, mas as expectativas de inflação, medidas comparando os
rendimentos de papéis indexados e não-indexados do Tesouro americano,
continuam baixas. Os bancos centrais têm aumentado as taxas de juros,
mas estão incertos sobre o que fazer a partir de agora. Por boas
razões, a mensagem do Federal Reserve (BC dos EUA) é que a política
monetária nos próximos meses vai depender muito de dados ainda por
vir. Além das incertezas geopolíticas, uma importante fonte de
volatilidade é o enorme déficit em conta corrente dos Estados Unidos,
que atingiu 6,5% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2005. Isso
significa que os investimentos no país excederam a poupança americana
em 6,5% do produto, diferença que foi financiada por poupadores no
resto do mundo. Esse grau de financiamento externo não seria
desastroso se refletisse uma taxa extraordinária de formação de
capital, mas o investimento nos EUA em 2005 representou 20,2% do PIB,
pouco mais de 1% acima da taxa média que prevaleceu nos dez anos
precedentes. Há quase unanimidade de que essa situação não é
sustentável e que o ajuste requer uma desvalorização do dólar e o
aumento da poupança americana. Ninguém sabe, no entanto, quando isso
vai acontecer ou quais as conseqüências para a economia mundial. Um
relatório do BIS, a organização que promove a cooperação entre bancos
centrais, descreve os episódios de ajuste de conta corrente em
economias avançadas entre 1973 e 2000. Em 27 ocorrências, a economia
em questão desacelerou; na média, a taxa de crescimento caiu dois
pontos. Em um só caso não houve queda substancial da taxa de
crescimento, mas é exatamente o único que envolve os Estados Unidos.
Naquela ocasião, houve uma desvalorização enorme da moeda americana
em relação a alguns de seus parceiros comerciais mais importantes,
atingindo 60% ante o iene japonês ou o marco alemão, e o déficit em
conta corrente americano, que atingiu 3,5% do PIB em 1987, caiu para
2% em 1990. Apesar disso, a taxa de crescimento anual média da
economia americana em 1988-1990 foi de 3,2%. Essa "exceção americana"
anima os otimistas que acreditam que a acomodação vai se dar por meio
da queda ordenada do dólar, do maior crescimento dos outros países e
da conseqüente ampliação da demanda por produtos americanos e do
aumento da poupança nos Estados Unidos. Os pessimistas apontam que,
desta vez, o desequilíbrio é maior e que os déficits estruturais
criados pela administração George W. Bush vão tornar muito difícil um
aumento da poupança americana. Como resultado, o ajuste viria
principalmente por meio de uma queda dos investimentos em um ambiente
de recessão profunda. Há mais de uma década, a economia americana tem
sido responsável por uma parcela considerável da expansão global, e
uma recessão nos Estados Unidos não será bem-vinda. Mas o Japão está
aparentemente reencontrando o caminho do crescimento, e China, Índia
e sudeste asiático têm um peso econômico crescente no mundo. É
possível que uma expansão dessas economias substitua parcialmente a
contribuição americana. Apesar de a economia brasileira não estar
blindada, é inegável que progressos na gestão econômica dos últimos
dois governos tornaram menos provável que uma recessão global se
transforme em uma crise para o Brasil. O país tem mais reservas,
menos dívida de curto prazo e uma balança comercial superavitária.
Mas, para o Brasil, o desempenho da economia mundial é importante,
porque o nosso crescimento é razoavelmente correlacionado com o do
resto do mundo. Já que não aproveitamos a grande oportunidade que
tivemos em 2005, é ainda mais importante adotar medidas necessárias
para crescer num ambiente global agora menos favorável. No curto
prazo, essas medidas incluem a continuação da queda dos juros reais,
a manutenção do equilíbrio fiscal e o corte de despesas correntes que
permitam o aumento dos investimentos em infra-estrutura.

Arquivo do blog