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domingo, junho 04, 2006

Folha de S.Paulo - Artigo - Ricardo Uceda: O eixo de Hugo Chávez - 04/06/2006

Vitória de Ollanta Humala no Peru poderia formar uma tríade bolivariana

RICARDO UCEDA
ESPECIAL PARA A FOLHA

NESTA NOITE Hugo Chávez vai saber se mais um país foi incluído em sua
área de influência. A vitória de Ollanta Humala converteria o eixo
Caracas-La Paz-Lima em realidade. Faltaria Quito. No Equador, Chávez
vai apostar em Rafael Correa nas eleições deste ano. Se ele vencer, a
Colômbia e Álvaro Uribe estarão cercados por regimes adeptos da
revolução bolivariana. A vitória de Alan García, em contrapartida,
anunciaria uma política externa peruana orientada para laços maiores
com Lula e, se possível, com Bachelet. A influência de Chávez seria
refreada na direção sul, e foi por isso, sem dominar seu gênio, que
Chávez interveio tanto a favor de Humala, sem levar em conta o
prejuízo que lhe causava. Isso porque Chávez não é bem visto pela
opinião pública peruana. Esse é um fator a se levar em conta,
sobretudo se Humala vencer. Também é preciso considerar que as
diferenças programáticas entre García e Humala não são enormes. Para
começar, nenhum dos dois é extremista. O anúncio mais radical feito
por Humala foi o de uma política de nacionalização, entendida como
maior poder de regulamentação e de veto do Estado, diante dos
investimentos privados. É muito diferente da mudança drástica das
regras do jogo empreendida na Bolívia. Quanto a García, disse apenas
que vai renegociar contratos com empresas estrangeiras. Como o
eleitorado peruano é de centro, seria possível imaginar que se
identifica mais com o social-democrata Alan García. Mas, quando se
pergunta aos eleitores qual é a orientação política de García, a
maioria relativa responde que é de direita. Ademais, 60% dos
eleitores acreditam que ele é desonesto. Se vencer hoje, não se
espera que modifique a política econômica nem que combata a
corrupção. Sua missão terá consistido em eliminar Humala. Quem votou
em García se conformará se ele fizer uma gestão responsável da
economia. Em que pese o descrédito em que é tido, Alan García teria
um governo inicialmente apoiado por setores amplos: os empresários,
os meios de comunicação, a direita, os partidários de Alberto
Fujimori e até a esquerda mais domesticada, que, embora destituída de
bases, possui figuras importantes. Podem incluir-se também os
defensores dos direitos humanos, apesar de estes estarem
escandalizados pelo fato de García ter proposto como vice-presidente
o almirante Luis Giampietri, acusado de exterminar detentos. Na
semana passada, Salomón Lerner, presidente da Comissão da Verdade,
chegou a declarar, com ar contrito, que votaria no homem a quem
atribuiu a responsabilidade política por matanças inesquecíveis.

Humala
Um Humala vencedor teria um governo mais complicado. Ele não poderia,
por exemplo, convocar uma Assembléia Constituinte e arrogar-se os
poderes que Chávez conquistou na Venezuela. Não só porque teria uma
frente de oposição majoritária no Congresso mas também porque carece
de uma bandeira para convencer o povo que o apóie como golpista. Isso
ocorreu em 1992, quando Fujimori fechou o Congresso. Mas a opinião
pública está assustada com a ameaça de nacionalizações e de redução
de liberdades que acompanha Humala, cujo herói é o ditador dos anos
1970 Juan Velasco. Sendo assim, cabe indagar por que Humala ainda tem
chances de vencer. A resposta é que o medo que gera um García
desbocado pode ser maior. Falta a Humala o carisma de que goza Chávez
diante dos venezuelanos e a base social que tem Evo Morales na
Bolívia. Para lançar-se num projeto autoritário, ele precisaria
construir uma base de apoio popular. Sem esse respaldo, petrodólares
de Hugo, amizade de Evo ou apadrinhamento de Fidel lhe seriam de
pouca ajuda. Se García ganhar, é possível imaginar uma ruptura
diplomática entre Peru e Venezuela, pois Chávez já declarou: "Não
tratarei com um ladrão". García adotaria com Lula um tom ainda mais
bajulador do que na campanha. Com Humala, seria possível imaginar
Chávez transmitindo de Lima seu programa de TV "Alô Presidente". Mas
o Peru não é a Bolívia, e Humala não poderia exibir a docilidade de
Evo Morales sem desencadear uma crise.
O jornalista RICARDO UCEDA , 53, é diretor-executivo do Instituto
Imprensa e Sociedade

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