Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, junho 08, 2006

Do ‘nunca antes’ ao ‘nunca mais’? por ILAN GOLDFAJN

O Globo -

Fortes quedas no mercado financeiro nem sempre indicam mudanças
relevantes na economia. Às vezes refletem apenas o efêmero,
flutuações momentâneas que esqueceremos assim que os preços dos
ativos se recuperarem. Mas há algo de mais interessante na recente
queda nas bolsas e outros ativos no mundo. Reflete uma incerteza
crescente com o desempenho futuro da economia mundial. Como estamos
vivendo um período de bonança internacional de intensidade e
longevidade não usuais, é natural temer pelo seu fim.

Para ilustrar as incertezas atuais basta observar que o mais
importante banco central do mundo — o Fed, dos EUA — simplesmente não
sabe se “assovia ou chupa cana”. Em economês: o Fed não sabe se
continua subindo os juros para combater a inflação ou se se preocupa
com os sinais de desaceleração da economia que já são evidentes. Há
de se fazer uma escolha: o risco atual é de mais inflação ou de uma
desaceleração mais acentuada?

Para piorar, a sensação é de que o piloto sumiu. Ao invés do mágico
ex-presidente do banco central Alan Greenspan, agora há que confiar
no atual presidente carne-e-osso Ben Bernanke. E se ele errar? Poderá
subir os juros desnecessariamente e afundar a economia americana (e,
por conseguinte, o resto do mundo) numa recessão ou, ao contrário,
menosprezar os riscos inflacionários e ter que fazer um aperto ainda
maior no futuro?

Por enquanto, no aguardo de evidências mais fortes para definir o
cenário para um dos lados, no mercado financeiro ainda prevalece o
otimismo: acredita-se que os juros podem subir no máximo até 5,25%
nos EUA e que o mais provável é uma desaceleração mundial suave,
prolongando o crescimento atual por mais algum tempo.

Mas é evidente que a incerteza em torno desse cenário aumentou
consideravelmente. Na dúvida, o objetivo é reduzir o risco e se
refugiar em ativos menos arriscados. Como o risco é de juros mais
altos no mundo e/ou uma desaceleração mundial mais forte, economias
emergentes que dependem dos preços das commodities e/ou receberam
consideráveis influxos de capital no passado recente (e, portanto,
podem sofrer mais com uma volta dos capitais) sofrem mais. Como
conseqüência, a lira turca se depreciou 16%, o real 9% e a rúpia da
Indonésia 6% desde o início da turbulência.

É claro que o maior ou menor impacto dessa maior aversão global ao
risco depende das políticas econômicas de cada país. No Brasil, muito
se avançou nos últimos anos (e governos) para tornar o país menos
vulnerável aos humores internacionais. Mas é infeliz a coincidência
temporal de uma piora no humor internacional com dúvidas crescentes
sobre a qualidade da política econômica no Brasil. Há a percepção de
que o esforço fiscal diminuiu para uma meta em torno de 4% e há
dúvidas se os reajustes salariais arriscam o cumprimento até mesmo
dessa meta menos ambiciosa. Finalmente, há o receio de que o atual
governo não venha promover as reformas necessárias no ano que vem
para que o crescimento de gastos entre numa trajetória sustentável.

O impacto da turbulência depende também da capacidade de reação do
governo. Neste sentido, “nunca antes” se registrou um ministro da
Fazenda declarando que está satisfeito com a perda de valor da sua
moeda no meio de uma turbulência, e reclamando da sua queda quando
finalmente a moeda se estabiliza. Será que há falta de entendimento
de que não há ganho nenhum para o país se o câmbio se depreciar pelo
aumento de risco no Brasil? Por outro lado, o BC reagiu bem,
administrou a volatilidade cambial a partir da segunda semana da
turbulência, intervindo no mercado vendendo swaps cambiais. Também
não deixou sua decisão de juros ser determinada unicamente pela
volatilidade conjuntural recente.

Enquanto isso, a cultura do “nunca antes” tem se espalhado pelo
governo. Todas as conquistas — auto-suficiência no petróleo, alto
saldo comercial e menor dívida externa, redução da desigualdade e
pobreza, crescimento, inflação — são todos recordes “nunca antes”
vistos. Não importa que as conquistas façam parte de um processo que
depende de esforço de muitos anos e diferentes governos. Nem que a
velocidade do avanço dependa da conjuntura internacional, que talvez,
“nunca antes”, tenha tido um período tão longo e favorável a países
em desenvolvimento como o Brasil. Não há dúvida de que, se o cenário
internacional mudar, as conquistas atuais sejam cada vez mais
difíceis de replicar: a fase do “nunca antes” terá terminado
melancolicamente. O risco é de que na falta de maiores esforços e de
um rumo claro à frente, migremos nos próximos anos para a fase do
“nunca mais”.
ILAN GOLDFAJN é economista.

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