Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, junho 06, 2006

A diplomacia do remendo


editorial
O Estado de S. Paulo
6/6/2006

A Colômbia pode ser a ponte entre a empresa brasileira e o mercado
americano. Pode ser, pelo menos, uma boa ponte para grupos
empresariais dispostos a investir no exterior para ganhar acesso à
maior economia do planeta. O presidente Álvaro Uribe sabe disso.
Mostra-se disposto a atrair capitais do Brasil para seu país,
acenando com as oportunidades criadas pelo acordo comercial entre
Colômbia e EUA. Não precisará de muita propaganda para isso.
Empresários brasileiros sabem da vantagem de se instalar em países
com acesso aos grandes mercados. Essa tem sido uma de suas motivações
para investir fora do Brasil. Não aplicam seus capitais noutros
países para dar a seus grupos dimensão multinacional, mas para
compensar a incompetência da diplomacia comercial de Brasília.

O governo petista continua a agir como se fosse normal investir no
exterior por esse motivo - a busca de uma ponte fornecida pela
diplomacia estrangeira, mas não pelos negociadores do próprio país.
Autoridades de Brasília já aconselharam os empresários nacionais a
instalar-se no exterior, em países com acordos de livre comércio com
os principais mercados. Enquanto isso, dão prioridade a acordos com
parceiros do "Sul", depois de terem feito o possível para torpedear a
Alca e emperrar a negociação entre o Mercosul e a União Européia.

Atolado na sua infantilidade ideológica, o governo de Brasília aceita
- e até festeja - soluções de segunda classe para o comércio exterior
brasileiro. Torpedeada a Alca, Brasília se contenta com a criação de
um sistema de consultas informais com Washington, para facilitar o
intercâmbio entre os dois países. "É um projeto para explorar com
mais profundidade os pontos positivos da relação bilateral, porque
nossas exportações para os EUA têm crescido menos que a média das
exportações brasileiras", disse o ministro do Desenvolvimento, Luiz
Furlan.

Pode ter sido um ato falho ou de mera indisciplina. Seja qual for a
explicação, o ministro do Desenvolvimento deu a versão correta da
história contada e recontada por seu colega Celso Amorim. Segundo o
chanceler, a opção diplomática brasileira é um sucesso e a prova
disso é o crescimento das exportações para a América Latina. No ano
passado, o Brasil vendeu mais para a região do que para os EUA.

A linguagem do ministro Furlan é mais convincente: é preciso dar
maior atenção ao comércio com os norte-americanos. Ele não discutiu
os detalhes do assunto, limitando-se a mencionar problemas
burocráticos. Mas valeria a pena ir mais fundo na questão. Seria
preciso lembrar, entre outros problemas, a perda de mercados para
concorrentes poderosos, como a China. Um acordo como o da Alca teria
dado ao Brasil melhores condições para enfrentar esses concorrentes,
mas os negociadores brasileiros preferiram gastar seu tempo brincando
de terceiro-mundismo. Com isso, o País aproveitou menos do que
poderia o extraordinário dinamismo do comércio internacional nos
últimos anos. As exportações cresceram, mas poderiam ter crescido
mais, se o governo tivesse feito os acordos mais promissores.

Mas o Brasil, segundo os negociadores do Planalto, conseguiu vitórias
noutro campo: a integração latino-americana e a aproximação com
outros países em desenvolvimento. Essa tese é inteiramente falsa. O
Mercosul agoniza, como observou corretamente o ex-presidente Fernando
Henrique numa entrevista ao jornal uruguaio El País. A integração
parou, o Brasil não esteve à altura da sua condição de maior economia
e foi incapaz até de trabalhar pelo entendimento entre Argentina e
Uruguai, divididos pela crise das "papeleras".

As "vitórias" da diplomacia brasileira podem ser medidas, também,
pela ação desagregadora do presidente Hugo Chávez e pela fraqueza de
Brasília diante das imposições do presidente boliviano Evo Morales.
Os brasileiros, disse Fernando Henrique, acomodaram-se numa posição
de encolhimento. O custo maior é para a economia brasileira,
dependente de investimentos no exterior para acesso aos principais
mercados e de soluções de segunda classe para o comércio com os EUA.

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