Folha de S.Paulo
MUNIQUE - Marco Maciel, o ex-vice-presidente, costumava dizer, quando
lhe pediam previsões sobre o futuro, que só as fazia sobre o passado.
Pedro Malan, o ex-ministro da Fazenda, aperfeiçoou a evasiva. Dizia
que, no Brasil, nem o passado podia ser "previsto", porque era tão
sujeito a chuvas e trovoadas quanto o futuro. Agora, chegamos à
perfeição. O passado é "vupt-vapt". Uma regra legal que deveria ser
permanente dura escassas 48 horas. Refiro-me a esse palavrão
transformado em assunto do dia na política, a tal de verticalização,
que deveria ser 100% na primeira interpretação da regra, mas passou a
ser sabe-se lá quantos por cento na segunda interpretação da mesma
regra, feitas, uma e outra, pelo mesmíssimo ministro das cortes mais
supremas, o TSE e o STF. Escrevo de manhã aqui em Munique, quando os
ministros dormem, justamente para não correr o risco de ter que mudar
o texto, pois sempre é possível que uma terceira (ou quarta ou
quinta) interpretação surja ao raiar do dia. Tenho a leve impressão
de que o brasileiro já nem se dá conta de quão ridículo é o seu país
com esse tipo de legislação-desodorante, com prazo curto de validade.
Entre outras mil coisas ridículas que acabam sendo incorporadas como
parte da paisagem. Começa, aliás, pelo fato de que verticalização nem
deveria ser objeto de regras. Em um país minimamente sério, não seria
preciso estabelecer coerência nas coligações partidárias. Ela seria
decorrência inevitável de programas, idéias, doutrinas, que,
naturalmente, seriam idênticas na Bahia ou no Rio Grande do Sul, em
Tocantins ou no Rio de Janeiro. Mas é preciso ser muito cretino para
pensar em idéias, doutrinas, programas no Brasil. É tudo "vupt-vapt".
@ - crossi@uol.com.br