Folha de S. Paulo
13/6/2006
Já foi dito diversas vezes que o brasileiro, que não é mais cordial
como os sociólogos pensavam, é capaz de inventar o círculo quadrado
ou dar nó em pingo d"água. A inventiva nacional é farta e abundante.
E acho que está em processo uma nova proeza, inédita na história
universal: a ditadura democrática.
Explico: a menos que ocorra um fato novo e grave (os escândalos de
seu governo só impressionaram a mídia e a classe média que é bitolada
pela mídia), o grosso do eleitorado nem está aí para o que houve.
Votará em Lula, que tem a maior exposição e a menor contestação
popular. Não apareceu no cenário político (e muito menos no cenário
eleitoral) um adversário de peso que o enfrente nas urnas e na
preferência do povo.
Se é certa a sua reeleição, é certa também a sua incompetência em
governar, em administrar não apenas a máquina do Estado mas as
correntes heterogêneas que formam a sociedade. É um demagogo vulgar,
e só não chega a ser um tirano porque lhe faltam condições para isso:
no fundo, é um bom sujeito.
Mas seu novo governo não terá estrutura nenhuma para levar o país a
qualquer lugar, a não ser ao crescimento vegetativo de seu primeiro
mandato. Ele não terá equipe nem mesmo um esquema de forças sociais
que o apóiem. Será eleito e governará com os náufragos de diferentes
partidos (inclusive do seu partido), que embarcarão em sua canoa -a
única que parece ainda flutuar no tenebroso mar da política nacional.
Um ditador eleito democraticamente e aceitando críticas,
esculhambações até do Ronaldo, e contestações, mas confiante de que o
povão o aprova e o admira pelo que é e pelo que não é. Um ditador que
achou o mapa da mina: torça pelo Corinthians, beba sua pinga, fale
mal dos ricos e deixe o país se danar.