domingo, julho 31, 2005

Do foguetório ao velório Por Reinaldo Azevedo

Primeira Leitura

Escrevi na edição anterior que Márcio Thomaz Bastos é um péssimo ministro da Justiça, mas um grande criminalista, daí que seja perfeito para estar no governo e ser o braço direito de Lula. Este governo precisa, obviamente, mais de criminalistas do que de ministros competentes. A estratégia que ele desenhou para atravessar o pântano parecia perfeita. Mas aqui também já se disse: nem tudo o que é, como vou dizer?, criminalisticamente perfeito obedece à realidade política. A opção começa a fazer água. Estratégias criminais precisam de criminosos e de bodes expiatórios. Nem todo mundo aceita o papel. Nem todo criminoso aceita o sacrifício de ser bode expiatório.

Mas há mais: a operação montada no Palácio do Planalto, que tentou arrastar para o pântano o PSDB, supunha que os demais atores políticos compactuassem do jogo, aí incluída a imprensa. Parte dela, é verdade, passou a dar mais atenção a Eduardo Azeredo, presidente do PSDB, do que ao núcleo do escândalo, que é a gigantesca máquina de corrupção montada pelo PT para desviar dinheiro público. Depois de dois meses sob intenso bombardeio, o petismo ameaçava descansar e sorrir um pouco, voltando a seu papel predileto: atacar a reputação alheia.

Não que esquemas irregulares de financiamento de campanha não devam ser investigados. Devem. E com determinação. Pegue quem pegar. O problema é sério e merece uma resposta dos entes políticos. Mas o encaminhamento dessa respota e mesmo a punição dos envolvidos não devem servir de panacéia, tampouco de biombo para esconder crimes maiores. Era tal a excitação do governo, que alguns de seus bate-paus já ameaçavam articular uma enorme pizza. E, pior, plantavam na mídia que o PSDB estava receptivo porque interessado em salvar Eduardo Azeredo. Que aceitou falar espontaneamente à Comissão Parlamentar de Inquérito. O PT montava a operação-massacre.

A alegria dos petistas durou pouco. A edição da Veja desta semana joga um balde de água fria no calor do entusiasmo. A sempre estridente senadora Ideli Salvatti (PT-SC), que ainda não conseguiu fazer uma miserável pergunta na CPI para saber se houve ou não mensalão — está interessada unicamente em salvar o PT, o que é compreesivel; o diabo é que ela é muito inábil — já falava em quebrar o sigilo de Marcos Valério desde 1995. Os petistas, para apressar a operação pizza, queriam transformar o PSDB no alvo da investigação.

Foram bem sucedidos no texto de alguns colunistas, mas se esqueceram de que uma boa parte da imprensa se move pautada pelo interesse público, por mais que isso doa na moral "revolucionária" dos antigos monopolistas da ética. As duas principais reportagens de Veja são muito graves. Talvez as mais graves que vieram a público até agora.

Um documento do Rural autoriza um auxiliar de José Dirceu, então chefe da Casa Civil, a sacar R$ 50 mil. Ele teria mesmo, segundo alguns, sugerido que o documento fosse eliminado do conjunto a ser investigado. Sentindo-se abandonado pelo governo e pela tal estratégia criminal de Bastos, teria comentado com amigos que Delúbio Soares falava mesmo era com Lula, não com ele. Delúbio, por sua vez, teve contato com a máfia dos vampiros e com a máfia do lixo, braço do escândalo que tanto a chega à administração Marta Suplicy como a Antonio Palocci, neste caso por meio de Rogério Buratti.

Reparem: não adianta Bastos ter desenhado a estratégia criminal, ter inventado a história verossímil, quando os fatos insistem em desmoralizá-la. O PT parece não ter percebido que há uma sociedade civil no país que até comprou, de boa fé, os pedaços de céu que o partido anunciava em suas perorações ideológicas de antigamente, mas não aceita o esbulho do Estado e o assalto aos cofres públicos.

Presidente Lula, malogrou a operação! Às falcatruas todas que seus partidários haviam cometido, vocês — inclusive Vossa Escelência — se encarregaram de acrescentar o crime eleitoral. Um crime a mais. A sociedade não riu da piada de que todo mundo é igual e de que até a roubalheira, que o PT pôs em prática por puro autodidatismo, é também parte da herança maldita. Era para o PT começar a semana com foguetório. Tem razões para vestir luto.

PS: Meus amigos sabem que cantei a bola de que Lula poderia ir de Ciro Gomes faz algum tempo. Eis aí. Quem há de negar que eles se merecem? Agum risco? Há, sim. Mas ninguém é tão bom para dar conta de Ciro Gomes como Ciro Gomes...  

FHC diz que Lula virou a casaca

Agestado

mais imagens Ouça um trecho da entrevista de Fernando Henrique

Campos do Jordão - O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse na noite deste sábado que está preocupado com o rumo do Brasil. Em entrevista para a Rádio Eldorado, FHC criticou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e afirmou que a situação do País é de desordem pois falta diretriz. "Essa crise é muito desafinada. Aqui é tudo harmonia", disse o ex-presidente, que estava em Campos do Jordão e assistiu um concerto do Festival de Inverno 2005.

Questionado sobre a necessidade de fazer um pacto de governabilidade entre governo e oposição, ele falou que é contra pactos. "Nenhum de nós está fazendo nada que atrapalhe a governabilidade. O que está acontecendo é roubo. Roubo não tem o que fazer, tem que apurar o roubo. Não há risco nenhum para a governabilidade", sustentou.

FHC afirmou ainda que o presidente Lula não precisa ser blindado. "Só se ele tiver pecados. Eu não estou sabendo". Porém, o tucano fez questão de reforçar que não está preocupado com Lula. "Estou preocupado com o Brasil. Eu gostaria que ele tivesse agido melhor como presidente, que não fosse deixar o Brasil na situação em que está, de desorganização, de desordem administrativa. O presidente Lula, o problema é dele, não meu", disse ao repórter Bruno Azevedo.

Segundo Fernando Henrique, o País está em crise por falta de diretriz. "Faltou acreditar em alguma coisa. A política econômica é a mesma que a minha, que ele (Lula) sempre atacou. Agora eu só o vejo louvando. Isso está errado. As pessoas devem ter posição na vida e não virar a casaca. O presidente Lula virou a casaca".

Com relação ao esquema de financiamento da campanha para reeleição do tucano Eduardo Azeredo ao governo de Minas Gerais, em 1998, que, segundo denúncias, teria recebido recursos da SMPB Comunicação, do empresário Marcos Valério, o ex-presidente disse que o seu partido é favorável às apurações. Mas destacou que não se deve misturar assuntos para que os erros do passado não sirvam de desculpa para deixar de apurar erros do presente.

"Aquilo é um fato que eu acho errado, se ocorreu mesmo, lamentável, mas é diferente do que acontece agora, que é uma quadrilha que se organiza para tirar dinheiro público, para comprar deputados na câmara. Isso tudo está provado. Provado ainda não, mas evidente", afirmou FHC. "O Eduardo Azeredo tem a mesma posição que o presidente Lula, ele não deu ordem a nada. Se for pegar o Eduardo Azeredo, tem que pegar o Lula também", completou.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso passou o final de semana em Campos do Jordão, no Palácio Boa Vista, a convite do governador de São Paulo Geraldo Alckmin. Ele assistiu a um concerto do Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão 2005, no auditório Cláudio Santoro. O evento, que começou no dia 9 de julho, termina neste domingo às 17h, com uma apresentação na Sala São Paulo, na capital paulista.

DORA KRAMER A prateleira do pefelê


O PFL dá combate sem trégua ao governo na crise, mas como também não troca o certo pelo duvidoso, presta muito mais atenção nas possibilidades eleitorais da oposição para outubro de 2006 do que na hipótese de antecipação de eleições ou mesmo interrupção do mandato do presidente Luiz Inácio da Silva.

O presidente nacional do partido, Jorge Bornhausen, por exemplo, tem desempenhado o papel de caça-talentos eleitorais, a fim de preparar um bom estoque de possibilidades de candidaturas para os mais diversos cenários em 2006: com Lula forte na disputa, sem ele na luta, com o presidente combalido a ponto de poder ser derrotado no primeiro turno e até com outro candidato do PT, o ministro Antonio Palocci talvez.

Dentro de mais uns 45 dias o senador Bornhausen vai finalizar os contatos com uma série de novos talentos que já tem na cabeça, mas cujos nomes não revela por nada.

A idéia dele é conseguir filiar ao PFL até o prazo final permitido pela legislação, dia 3 de outubro (um ano antes da eleição), um plantel de homens não necessariamente políticos, bem-sucedidos em suas áreas profissionais de origem, com boa imagem ética junto à população e capacidade de arrebatar o eleitorado, não tanto pelo batido - e algo desmoralizado - atributo do carisma, mas muito mais pelo preparo pessoal.

"O candidato bem formado do ponto de vista educacional e intelectual atenderá à demanda do eleitor e nem preciso explicar porquê." De fato, a idéia é apresentar aos eleitores alguém que seja uma perfeita e muito mais bem acabada tradução de um contraponto a Lula. Mas o senhor e a senhora leram linhas atrás a expressão "plantel de homens" e não era força de expressão.

Na concepção do presidente do PFL, ao contrário de 2002, quando Roseana Sarney (invenção de Bornhausen) quase chegou lá, agora não há nenhuma mulher "no topo da escada".

As duas em maior evidência, a senadora Heloísa Helena e a deputada Denise Frossard, ainda precisariam, segundo o senador, "subir a escada". O ideal, se fosse para escolher uma mulher, é que houvesse uma governadora com boa imagem popular, característica que, na ótica de Jorge Bornhausen, não inclui a governadora do Rio de Janeiro, Rosângela Matheus.

Ainda assim, as mulheres citadas pertencem à categoria dos políticos e, neste quesito, Bornhausen acha que já existem quatro homens perfeitamente capacitados a preencher os atributos necessários: no PFL, o prefeito César Maia e o senador Marco Maciel; no PSDB, o prefeito José Serra e o governador Geraldo Alckmin. Na visão dele, se o candidato for político a escolha fica entre esses nomes.

Mas Bornhausen não tem certeza se, do jeito que vai ladeira abaixo a imagem dos políticos, não será mais interessante apresentar à apreciação do eleitorado uma pessoa distante do metiê.

Não um ser parecido com Fernando Collor - "que, aliás, era político, havia sido deputado e governador, apenas incorporou o papel de não-político" -, mas alguém sem experiência mesmo na área. Bornhausen recorda que em outras ocasiões fez esse tipo de tentativa com Antônio Ermírio de Moraes e Adib Jatene. O cardiologista não aceitou e o empresário, "jogou uma eleição fora porque quis" ao governo de São Paulo.

A eles o senador não voltaria mais, são possibilidades já descartadas. Em 2004, lembra, tentou fazer do médico Drauzio Varella o candidato do PFL a prefeito de São Paulo.

Agora vai em busca de novos talentos, mas já avisa que o fará em segredo. "Quem aceitar assinar a ficha, terá sigilo garantido até o ano que vem, quando serão decididas as candidaturas." As consultas começam dia 15 de setembro e terão a participação de um número mínimo de pessoas dentro do PFL.

Na opinião de Bornhausen, se o partido optar por uma escolha fora da política não terá apoio dos companheiros tucanos, cuja quantidade de candidatos a presidente é algo próximo do movimento de uma rodoviária em véspera de feriado.

"Acho mais provável um acordo só para o segundo turno."

O telefone

O deputado Arnaldo Faria de Sá não é exatamente um fidalgo e chega às vias da grosseria na CPI dos Correios.

Foi dos poucos a não se impressionar com as lágrimas de Renilda Santiago - "Comigo ela não chorou porque bati no fígado, os outros tentaram atingir o coração" - e até o fim insistiu para que ela desse à CPI o número do telefone que usava para se comunicar com o marido, Marcos Valério.

Embora tenha prometido passar o número ao relator, ela saiu da CPI sem cumprir a promessa. Arnaldo no dia seguinte insistiu e cobrou a informação do presidente da CPI, senador Delcídio Amaral, que tergiversou e não forneceu.

Arnaldo acha que Delcídio fez de propósito. E por quê?

"Porque aquele telefone era pré-pago, não vai aparecer nas quebras de sigilo telefônico e era através dele que ela falava com toda a quadrilha. O número daquela linha é o xis da questão", diz Arnaldo, prometendo não desistir.

Alberto Tamer Alca nunca existiu nem vai existir

Alca nunca existiu nem vai existir

Os Estados Unidos revelaram o peso político do seu protecionismo quando a Câmara dos Deputados aprovou, após intensa batalha, o acordo comercial com seis pequenos países da América Central (Cafta). Com isso, fica jogada para o ostracismo qualquer possibilidade de negociar o grande acordo das Américas, a Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Há duas conclusões para o Brasil:

1 - A Alca não lhes interessa, pois já tem num bloco só toda a América do Norte e Central, formando, com o México e o Canadá, o maior bloco econômico mundial, voltado de costas para a Europa e, embaixo, para o Brasil.

2 - Os EUA estão negociando isoladamente acordos bilaterais com países sul-americanos.

O que vimos foi uma revolta dos parlamentares a qualquer acordo comercial com qualquer país, pois, dizem os lobbies, roubará empregos americanos na agricultura e na indústria. Não querem fazer nenhuma concessão.

Os seis países do acordo (Guatemala, Nicarágua, Honduras, El Salvador, Costa Rica e República Dominicana), mesmo tendo uma economia insignificante, foram obrigados a restringir as exportações dos seus dois principais produtos (açúcar e têxteis), a só 1% do que os EUA importam.

E, mesmo assim, o acordo só passou com a intervenção pessoal de Bush, que foi pessoalmente ao Congresso para arrancar os 2 votos que faltavam. Ele tinha contra si os dois partidos, os agricultores e os industriais. As exportações dos países do Cafta representam hoje menos de 1% das importações americanas.

O que mais exportam são emigrantes para os EUA.

Este foi um dos principais argumentos de Bush para convencer alguns deputados. Eles são subdesenvolvidos e concentram suas economias em poucos produtos agrícolas. Açúcar e tecidos estão limitados ao máximo de 1% do que os EUA importam desses produtos. Isso pode não representar nada, mas foi suficiente para mobilizar o Congresso, que usou até o argumento da "segurança nacional".

Parecia uma guerra, em que estavam negociando um acordo com um poderoso competidor. E eram só os pobres vizinhos. "Vamos dar para eles nossos têxteis, o nosso aço. Vamos desistir das frutas. E agora vamos dar tudo o mais e depender de outros países para obtermos alimentos e segurança", clamava o deputado Charlie Melancon, cuja família há 225 anos produz açúcar na Louisiana.

Esse era o pensamento da maioria. Um único argumento que seria a favor foi levantado pelo deputado republicano Howard Coble. Muitos Estados estavam persuadidos pelo argumento de que o Cafta teria como objetivo aumentar a competição com a China.

A ALCA JÁ ERA

Por que dedicamos tanto espaço falando de um assunto que não nos deveria interessar? É que, pela primeira vez, o poder dos lobbies dos agricultores e industriais aparece com tanta clareza. Se num "acordozinho" sem importância arregimenta uma oposição tão forte, imaginem o resto...

Isso enterra qualquer idéia de um amplo acordo com a América do Sul. A Alca, já tão desgastada pela rejeição no Brasil, já era. Ou, melhor, não era porque nunca foi. E, em conseqüência, vamos ficar sem acesso ao mercado americano de US$ 11 trilhões, o que afastará investidores que pretendiam produzir aqui e vender nos EUA.

Eles têm agora a opção da América Central. A mão-de-obra lá, a matéria final, a proximidade física, via terrestre, com os EUA, tudo enfim é tão favorável para os novos "parceiros" americanos que o Brasil fica em terceiro lugar.

Terceiro porque em segundo lugar os EUA estão negociando pactos de livre comércio com outros países latino-americanos, deixando praticamente isolados o Brasil e a Venezuela. Estão negociando também com outros países estratégicos como Jordânia, Cingapura, Marrocos e a Austrália, feroz competidora do Brasil no mercado internacional.

Daí que teremos de ficar lutando palmo a palmo por um pequeno espaço que se encurta dia a dia, à medida que novos acordos são fechados. Esta não é mais só uma questão de comércio, mas de um relacionamento político que só nos interessa. Afinal no primeiro semestre tivemos um saldo comercial US$ 4,7 bilhões com os EUA, US$ 1 bilhão a mais do que no mesmo período do ano passado. Um resultado mesquinho. Entre janeiro e junho, exportamos só US$ 10,8 bilhões para o mercado americano.

Os Estados Unidos importaram no ano passado, entre mercadorias e serviços, US$ 1,5 trilhão e vendemos para eles US$ 20,3 bilhões. Pouco mais de 1%. Foi protecionismo que agora se revela com todas as suas garras? Sim e não.

Não porque, como lembrou outro dia o ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos Rubens Barbosa, cerca de 80% das importações dos manufaturados entram no mercado americano com tarifa zero ou próximo dela. Apesar de todo o protecionismo, o mercado americano é o mais aberto do mundo.

E não porque eles aplicam tarifas elevadas, "escandalosas", selecionando os produtos, principalmente agroindustriais, que mais importam.

A conclusão é que eles são menos protecionistas do que a Europa, mas o protecionismo está aumentando com a exacerbação política. Mesmo assim, não deixa de ser ridículo exportarmos só US$ 20 bilhões para um país que importa US$ 1,5 trilhão.

Editorial de O Estado de S Paulo Ética do compadrio

Não bastassem as razões do presidente Lula da Silva para estar tenso e sentir-se acuado – e nem seria preciso enumerá-las –, o desnecessário imbróglio em que se tornou a sucessão administrativa da Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero), em razão da substituição de seu presidente Carlos Wilson, que pretende candidatar-se a deputado federal pelo PT, poderá acrescentar-lhe novas atribulações.

De fato, mostrando mais uma vez sua dificuldade para distinguir a ética do companheirismo da ética do governante, a Lula não ocorreu que sua escolha, inevitavelmente, levantará a suspeita de uma "ética do compadrio", ou seja, a prevalência, na escolha de administradores, dos critérios da afinidade pessoal, do companheirismo, da troca de favores entre velhos cupinchas – acima do interesse público.

Relembremos os fatos: inicialmente, Carlos Wilson sugeriu ao presidente o nome do ex-petista Airton Soares, com quem o presidente Lula já se reunira e cuja nomeação já parecia favas contadas. Mas, de repente, o presidente trocou Soares pelo funcionário de carreira Tércio Ivan de Barros.

Essa indicação durara apenas três horas quando a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, objetou firmemente contra a escolha, observando ao presidente que Tércio está sendo investigado pela Polícia Federal, por suspeita de irregularidades praticadas quando era superintendente regional da Infraero em São Paulo, em 2002.

O inquérito partiu de denúncias da Associação dos Concessionários dos Aeroportos do Estado de São Paulo (Acaesp), encaminhadas ao Ministério Público, apontando uma série de irregularidades em processos licitatórios, além de tratamentos diferenciados a alguns concessionários, em detrimento de outros.

Em fins dos anos 90, antes de ser superintendente regional de São Paulo, Tércio Ivan de Barros fora diretor comercial da Infraero. Fontes do setor aéreo afirmam que ele tinha fortes ligações com Celso Cipriani, então presidente da Transbrasil. Teria sido na gestão de Ivan de Barros, no Departamento Comercial da estatal, que Cipriani transformou parte do hangar da Transbrasil, em Congonhas, em uma área da Target, empresa de táxi aéreo do empresário.

Observe-se que, por lei, a transferência de área de concessão de uma empresa para outra teria que obedecer a uma licitação. O ex-presidente da Infraero Carlos Wilson (favorável à adoção de medidas legais para devolver à União os espaços em poder da Transbrasil) se opunha a um projeto de Cipriani de montar uma empresa de carga com a OceanAir – que ocuparia os espaços que a Transbrasil mantém por medida cautelar, apesar de não voar desde dezembro de 2001.

E aqui está o busilis da questão: esse projeto foi apresentado à Infraero pela advogada Waleska Teixeira, filha de Roberto Teixeira e afilhada de casamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O advogado Roberto Teixeira é o senhorio na casa de quem Luiz Inácio Lula da Silva morou durante 8 anos, sem pagar aluguel – e no sítio de quem passava os fins de semana, também gratuitamente. O mesmo Roberto Teixeira foi o acusado, em 1995, de comandar um amplo esquema junto a prefeituras do PT para captar recursos (de caixa 2) destinados a financiamento eleitoral do partido.

E quem denunciou tal esquema – em primeiro lugar ao próprio Lula –, o ex-guerrilheiro e petista-fundador Paulo de Tarso Venceslau, foi demitido pela então prefeita de São José dos Campos (Ângela Guadagnin, hoje fervorosa defensora do governo na CPI dos Correios) e julgado pelo Conselho de Ética petista acabou sendo expulso do Partido dos Trabalhadores – que encerrou, sumariamente, sua carreira política.

Apesar de tudo isso, o presidente Lula "recuou do recuo" e manteve a nomeação de Tércio Ivan de Barros para a presidência da Infraero.

É claro que, como no caso de São José dos Campos, choverão os desmentidos de que tenha havido qualquer interferência do fator compadrio na decisão do presidente sobre a direção de uma empresa que tem um orçamento anual de R$ 2 bilhões... Mas não é preciso estar conspirando para a queda de Lula para não acreditar neles.


LUÍS NASSIF A conta de R$ 3.000

Folha de S Paulo
 Na semana passada, sinais do Palácio do Planalto indicavam que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva estava esperando a abertura da caixa-preta dos financiamentos de campanha atingir lideranças da oposição para começar a conversar. Se era isso, a hora chegou.
Tem de rolar sangue, cassação dos deputados subornados e punição aos subornadores -já que não se pode considerar pagamentos de propina fora do período eleitoral como financiamento de campanha. O próprio Lula enviou ao PT uma tropa de choque de ex-ministros que, ao que tudo indica, vai cortar fundo no partido. O PSDB deu sinais de que não vai contemporizar com suas mazelas.
Mas não se pode ficar nisso. Fora o crime de suborno, o que aconteceu com o senador Eduardo Azeredo poderia ter ocorrido com grande parte dos caciques partidários. Nenhum acordo terá a mínima validade se não cortar o mal pela raiz.
O primeiro ponto desse trabalho é a blindagem da economia. Na sexta-feira, a Fitch -empresa de análise de risco- manteve a avaliação do Banco do Brasil melhor do que a do próprio país por "sua crescente independência comercial e administrativa". Não fosse a crise, por quanto tempo mais o banco suportaria as infiltrações? E o que significaria para o país, em meio à crise, um rebaixamento do banco? Portanto a blindagem passa por medidas severas de profissionalização de todos os órgãos públicos.
A segunda frente é a desmontagem desse esquema clandestino de financiamento de campanhas, que passa por uma reforma política, mas também por estratégias eficientes de fiscalização.

Conta cara ou barata?
Anos de experiência no combate ao crime organizado já demonstraram que a melhor estratégia é ir ao pulmão do crime: os esquemas de financiamento do crime.
Se se conferir os escândalos dos precatórios, do "mensalão", da Daslu, do Banco Santos e outros mais, se verá que há uma infra-estrutura criminosa azeitada, na qual quase todos os esquemas vão se encontrar, e que têm nos fundos "offshore" o grande duto de irrigação.
Há uma diferença na origem do dinheiro. Parte vem de atividades claramente criminosas -máfias dos combustíveis, de bingos e do narcotráfico. Parte vem de atividade legais -agências de publicidade. Parte vem de esquemas do "colarinho branco" -superfaturamento de obras, operações de mercado com títulos públicos e privados.
Depois, há uma fase de esquentamento do dinheiro, utilizando canais como operações voláteis de mercado, tipo mercado de opções da BM&F, ou então, remessa para fundos "offshore" e a volta na forma de capital externo.
É esse o processo que precisa ser estancado. De um lado, impondo o peso da lei sobre esse mundo "offshore". Não se trata de burocratizar remessas cambiais e operações legais, mas acabar com o anonimato e implantar uma fiscalização finalística -isto é, que analise o destino final de todas as remessas de dólares e o usufruto dos bens internos em nome de empresas "offshore".
Três órgãos ainda são lenientes com esses esquemas. Um, o Banco Central, já anunciou na semana passada a criação de uma força-tarefa para sugerir medidas de aprimoramento da fiscalização dessa operação.
O segundo, o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), deixou que todo o esquema do "mensalão" ocorresse debaixo do seu nariz.
O terceiro é a CVM (Comissão de Valores Mobiliários). À luz de tudo o que vem ocorrendo, das declarações de seu presidente Marcelo Trindade (de que o órgão não autuaria fundos "offshore" que têm brasileiros residentes como investidores, "porque todo mundo faz isso"), da falta de atuação na requisição da lista do Banestado, é caso de o Ministério Público Federal colocar uma lupa na sua inação. Ficou escandalosa a omissão do órgão com abusos explícitos de sociedades anônimas, como a Brasil Telecom.
Outro dia, um amigo comentava: "É possível que os R$ 3.000 (do suborno ao funcionário dos Correios) tenham sido a conta mais cara já paga no país". Mas poderá ser a mais barata. Tudo vai depender dos resultados propiciados pelo único homem público eficiente do país, o sr. Crise.

As elites e a sonegação JOSÉ ALEXANDRE SCHEINKMAN

Folha de S Paulo


Para um observador externo, a polêmica provocada pela Operação Narciso entre políticos, líderes de entidades empresariais e setores da mídia é surpreendente. É verdade que na história recente testemunhamos abusos de poder por procuradores e juízes. Além disso, na Operação Narciso, houve aspectos exibicionistas que, talvez, pudessem ser evitados. E, finalmente, a Daslu parecia ter sido elegida, mesmo antes da ação da PF, como responsável pela desigualdade social do Brasil, o que é um contra-senso. Mas nada disso justifica o protesto ensurdecedor contra a operação policial de uma parte da elite.
Uma desculpa bastante usada para defender a Daslu é que as normas tributárias são tão complexas que todos cometem ilegalidades. Parecem desconhecer que a loja é acusada de ter montado um emaranhado esquema de refaturamento e subfaturamento que incluía o uso de empresas no Brasil e no exterior, operação muito mais complexa do que o simples cumprimento da lei. Outros pedem "realismo", sob a argumentação de que ninguém consegue pagar todos os impostos que a lei impõe, revelando uma tolerância para a sonegação.
Ainda mais absurda foi a hipótese levantada por políticos de que a prisão dos acusados prejudicaria a economia. Segundo esta Folha, o senador Jorge Bornhausen (PFL-SC) declarou: "Essa prisão pode (...) afugentar investimentos internacionais do país. O empresário vai dizer: para que vou investir no Brasil se posso ser preso?". É evidente que o senador pouco sabe sobre o que se passa fora do país. Antes de ser prefeito de Nova York, o promotor Rudy Giuliani tornou-se famoso com suas prisões preventivas espetaculares de acusados de utilizar informações privilegiadas em Bolsa. Em pelo menos dois casos notórios, ele algemou, à vista de todos os seus colegas, importantes executivos de Wall Street. Essas prisões não ameaçaram a posição da Street como centro financeiro, pelo contrário, aumentaram a confiança dos investidores de que o uso de informações privilegiadas não seria tolerado. Na verdade, os investidores estrangeiros no Brasil ressentem uma concorrência desleal de empresas que violam leis do país que os estrangeiros são obrigados a obedecer. Afinal, se uma firma americana operando no Brasil usasse esquema semelhante ao descrito nas acusações à Daslu, seus diretores estariam também violando leis dos EUA e provavelmente acabariam na cadeia.
No Brasil, a carga tributária é muito alta em geral, sobretudo para aqueles que cumprem a lei. Combater a sonegação permite reduzir os tributos dos que pagam corretamente suas obrigações. Há, hoje, evidência empírica convincente de que a severidade e a certeza de punição diminuem a criminalidade. Os acusados de crimes econômicos nos EUA ou na França são tratados com grande rigor exatamente para dissuadir futuros criminosos potenciais. Pela mesma razão, precisamos de mais operações como as que atingiram a Daslu e a Schincariol.
Trabalhos de pesquisa recentes indicam que a propensão ao crime de um indivíduo depende também da aceitação pelo seu grupo social do ato criminoso. Isso vale tanto para adolescentes em uma favela como para empresários ou profissionais liberais. Um médico em Nova York não oferece abatimento para pagamento sem recibo, não só por medo do fisco mas também porque, se o fizesse, poderia perder um paciente que começaria a duvidar da sua honestidade. Os dirigentes da Daslu são inocentes até provas em contrário, mas alguns dos seus defensores parecem pensar que deveriam estar acima da lei. Vai ser difícil diminuir a sonegação no Brasil enquanto essa atitude perdurar.

Lula se tornou menor que a crise, diz Serra

Folha de S Paulo

Tucano afirma que governo combina patrimonialismo com utopia mercadista e diz que o PT se tornou a burguesia do capital alheio

RENATA LO PRETE
EDITORA DO PAINEL

FERNANDO DE BARROS E SILVA
EDITOR DE BRASIL

Apontado hoje pelas pesquisas como o tucano mais competitivo para concorrer à Presidência em 2006, o prefeito de São Paulo, José Serra, diz que Luiz Inácio Lula da Silva é hoje menor do que a crise que assola seu governo. Diz ainda que o grupo do PT que chegou ao poder se transformou numa espécie de "burguesia do capital alheio". A atual gestão combina, segundo o prefeito, formas velhas e novas de patrimonialismo, associadas por sua vez à utopia mercadista e ao esforço de controle totalitário do aparato do Estado.
É a primeira vez, desde que o "mensalão" ocupou o centro das discussões políticas, que Serra, 63, aceita falar detidamente sobre a conjuntura nacional. Considera o desfecho da crise imprevisível e nega que o PSDB deva participar de qualquer acordo para circunscrever as perdas e punições.
E, embora defenda a investigação ampla do caixa dois alimentado por Marcos Valério em campanhas tucanas de Minas Gerais, em 1998, insiste em dizer que não se pode confundir irregularidades na arrecadação eleitoral com o assalto aos cofres públicos.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista, realizada na última quinta-feira, durante três horas, na sede da prefeitura.

Folha - Como entender e caracterizar a crise do governo Lula?
José Serra -
A crise atual tem uma singularidade notável: ela não teve causas externas ao esquema de poder vigente. Se olharmos a crise do Getulio, em 1954, havia um enfrentamento claro, inclusive com as forças que haviam sido derrotadas em 1946. Havia golpismo. Havia mobilização militar. A tentativa de impedir o Jango de tomar posse estava no contexto da Guerra Fria. Havia um tipo de enfrentamento. E em 1964 também.
O Collor era um outsider, tinha perdido o controle da inflação -não tenho dúvida de que, se houvesse estabilidade econômica, a chance de ele sair teria sido menor. E o esquema de PC Farias parece um chá de senhoras diante dos escândalos atuais.
Que singularidade temos agora? Bonança no quadro econômico externo, inflação muito baixa, elites, do ponto de vista econômico, satisfeitíssimas com o governo, oposição democrática, ninguém tentando alterar a institucionalidade, militares inteiramente afônicos do ponto de vista político, sindicatos mansos.
Tudo saiu de dentro. Levou-se o estelionato e o abuso a tal nível que fatalmente o balão iria explodir em algum lugar e em algum momento. É a crise do modelo que se quis implantar no Brasil, do modo petista de governar. Ao analisá-la, a gente vê o vazio das teorias conspiratórias desta crise, de que teria sido causada pelas elites, pela oposição, pela imprensa.

Folha - O que o sr. quer dizer com "modo petista de governar"?
Serra -
Na vida pública, especialmente quando você vem da esquerda, enfrenta um dilema quando chega ao governo. Tem de andar no fio da navalha para não perecer nem trair. O PT optou logo pela traição.
Lembro de ter dito, no debate final [com Lula, em 2002]: ou o Brasil vai ter uma crise como nunca teve ou haverá o maior estelionato eleitoral da história. Esse estelionato aconteceu e virou um pecado de origem.

Folha - Pode explicar melhor?
Serra -
Na prática, resultou no revigoramento do patrimonialismo numa forma contraditória e combinada. De um lado, o patrimonialismo tradicional foi reforçado -ele que estava em decadência no governo FHC. De outro, o neopatrimonialismo sindicalista-bolchevique. Sem nenhuma utopia de igualdade.
O novo patrimonialismo pretendeu organizar uma classe social, inclusive com suas condições de reprodução. É a tentativa de formar uma nova classe para tomar conta do Estado. Com a diferença de que na Europa Oriental existia a utopia socialista. Aqui virou uma espécie de utopia mercadista com o braço direito e stalinismo com o esquerdo.
Qual é o símbolo dos tempos? É a gravata borboleta do Henrique Pizzolato [petista recém-afastado da diretoria de marketing do BB], com o lencinho no bolso, junto com a Land Rover do Silvio Pereira [ex-secretário-geral do partido]. O PT se tornou a burguesia do capital alheio.

Folha - Que papel joga nessa suposta tentativa de controlar o Estado a gestão dos fundos de pensão?
Serra -
O papel dos fundos é chave. Em geral, foram enfatizadas as denúncias da luta interna do PT pela manipulação dos fundos [Serra comentava a entrevista de Pizzolato à Folha, publicada no domingo passado]. Mas eu fiquei fascinado com outro aspecto: esse é um burguês do capital alheio. É um líder sindical discutindo e decidindo sobre os grandes investimentos. Não é preconceito contra líderes sindicais. Só que líder sindical não é burguês, que decide sobre rumos do capital nem político nem administrador público.
A República sindicalista que a direita tanto temia em 1964 acabou acontecendo no Brasil. Ela combina dois modos de patrimonialismo com a exaltação do mercadismo e o aparato de controle.

Folha - A extensão da crise não tende a produzir a sensação de que todos os partidos estão comprometidos do ponto de vista ético?
Serra -
Nunca achei que o PT tinha o monopólio da ética, mas eu achava que ele era um grande reduto da ética. Eu achava, em 2002, que eles seriam muito incompetentes no governo, mas não que teriam essa perfomance ética. O caso Santo André está aí para demonstrar, é anterior a tudo isso. Eu mesmo sempre subestimei os eventos de Santo André, achava que eram localizados.
O PT virou uma espécie de Luís 15 da ética, e os outros eram tratados como súditos. O Silvio Pereira ter aceito o carro mostra isso. Foi porque ele não é inteligente? Não. Fez por achar que tinha o monopólio da ética e que então podia fazer o que quisesse.

Folha - Na semana que passou, descobriu-se que também o tucano Eduardo Azeredo utilizou, em campanha eleitoral, recursos vindos das empresas de Marcos Valério.
Serra -
Em primeiro lugar, o Eduardo Azeredo é um homem extremamente decente, em sua vida privada e em sua vida pública. Segundo, ele se ofereceu para esclarecer coisas na CPI. Terceiro, essa questão está girando em torno de supostos crimes eleitorais. É importante, mas não se pode confundir o caixa dois eleitoral com o caixa público, que é o desvio de dinheiro do governo para a corrupção e para a compra de votos.
Não me oponho -nem o PSDB- a que se investigue a questão eleitoral. Mas não pode confundir. Agora se trata de ver a roubalheira montada nos Correios, no IRB, as manipulações nos fundos de pensão, nas concorrências da Petrobras, no Banco do Nordeste. Há um mundo de coisas no atual escândalo que não guarda relação com financiamento de campanhas eleitorais.

Folha - Trata-se de controlar o Congresso, de optar pelo exército mercenário em vez de partilhar poder, como disse Roberto Jefferson?
Serra -
Eu já ouvi justificativas para o "mensalão" do tipo "compram-se os parlamentares para votar coisas boas para o país". Mas até desse ponto de vista a análise não resiste, porque essa maioria foi fútil. O que se votou no Congresso? Uma reforma previdenciária não-concluída. Não se votou reforma tributária nenhuma. Não precisaria de "mensalão" para isso. "Mensalão" para votar Lei de Falências? Ridículo.
Na verdade, por trás do "mensalão" esteve a idéia totalitária do controle absoluto de todos os mecanismos de poder. E a criação, em todo o país, das condições de reprodução daquela nova classe, ocupando toda a máquina.

Folha - Mesmo após as privatizações, não teria sobrado um número excessivo de cargos no governo federal para lotear entre os políticos?
Serra -
Eu fui presidente do Programa Nacional de Desestatização e me lembro de uma palestra na Câmara em que sublinhei o fato de que enxugar o Estado enfraqueceria o patrimonialismo. Porque no regime democrático aberto, com o peso e a heterogeneidade do Congresso, com esse sistema político-partidário, com o sistema eleitoral superado e deficiente que temos, as empresas estatais estarão sempre sob a tensão do loteamento. Imagina o que teria feito o PT agora se tivesse à disposição todas as nomeações na área de telecomunicações?

Folha - A sua restrição ao "mercadismo" petista embute uma crítica aos fundamentos da política econômica do governo Lula?
Serra -
A área da Fazenda foi relativamente preservada no governo Lula. Hoje os ministros com mais credibilidade são o Palocci [Fazenda] e o Márcio Thomaz Bastos [Justiça]. Para o Lula, o Palocci foi um achado.
Mas, em relação à economia, acho melancólico o Brasil ter uma taxa de juro real de 15%. É uma espécie de preço que se paga para ter o PT governando em condições razoáveis de estabilidade.
Muita coisa certa que vinha do passado foi deixada de lado, e coisas que mereciam ser revisadas foram reforçadas, por exemplo, a atual política de metas de inflação, muito primitiva e que, no futuro próximo, dará origem a teses de mestrado e doutorado e a mais uma autocrítica do FMI. Da atual política econômica, o lado mais correto é o fiscal. É uma política fiscal razoavelmente austera.
Mas a política monetária errada destrói a política fiscal, pois ela eleva brutalmente o gasto em juros, freia a atividade econômica e sobrevaloriza o câmbio. Aliás, uma coisa saudável nessa discussão sobre o déficit nominal zero é que ela coloca na mesa o papel dos juros como gasto. Porque, no Brasil, parece que os encargos decorrentes dos juros passaram a ser uma substância misteriosa cujo pagamento pelo governo não representa gasto.
O Brasil ter o maior juro do mundo com déficit nominal entre 2% e 3% é absurdo. Não há razão para isso, exceto o círculo vicioso que se criou e a própria fragilidade do governo do PT, que tem de pagar um preço altíssimo por ela.
Mais melancólico ainda é constatar que o risco internacional do Brasil é hoje semelhante ao da Argentina, apesar da moratória dos conterrâneos do Tevez, e seria patético atribuir esse fato ao déficit público brasileiro.
Mas, ao contrário do que diz a esquerda petista, a crise atual não decorre da política econômica. Não que ela esteja certa, mas não decorre. A crise política não tem conexão com a política econômica. Não é ela que explica o "mensalão" e o assalto aos cofres públicos.

Folha - Que saída política o sr. vislumbra para a crise?
Serra -
Eu acho que o Brasil pode e quer sair desse imbróglio. Sairá para melhor ou para pior? Não se sabe. Isso vai depender muito do Lula. Por enquanto, ele só está defendendo o indefensável, dizendo que tudo se resume a problemas de campanha, o que evidentemente não é verdade. Além disso, está criando espantalhos, essas elites secretas que estariam conspirando. E se desvinculando do PT, como se nada tivesse a ver com as ações de seu partido e de seus homens de confiança. Nem a fada Morgana acreditaria nisso.
Às vezes ele tenta passar a idéia de que os acontecimentos atuais refletem uma luta dos mais abastados contra os mais necessitados, dos mais cultos contra os menos cultos devido à falta de oportunidades na vida. É isso o que ele tenta fazer: como se tudo não passasse de uma espécie de trama para tirar um filho de analfabetos do poder. Na verdade, tem faltado ao Lula a humildade que a vitória deve alimentar e a altivez a que a derrota deve nos conduzir.
Para que o Brasil saia bem desse imbróglio, o Lula terá de ser maior do que a crise. Mas ele está sendo bem menor do que ela.

ISTO É SERRA

ESTELIONATO ELEITORAL
Lembro de ter dito, no debate final [com Lula, em 2002]: ou o Brasil vai ter uma crise como nunca teve ou haverá o maior estelionato eleitoral da história. Esse estelionato aconteceu

JANIO DE FREITAS A crise das ambições

Folha de S Paulo

O Lavoisier escolar já entrou em cena: na política, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. De caça às ambições financeiras desregradas, a crise passa a ser, também, ambiente manipulado por ambições voltadas para a eleição presidencial do ano que vem.
Nesse sentido formou-se, há quase duas semanas, um eixo de operação Brasília-Rio, mas sem que isso signifique a participação de pretensos pré-candidatos cariocas ou fluminenses.
Os dados da equação começam a aparecer na terça-feira 19, com uma visita do deputado Roberto Jefferson à casa, em Brasília, do senador Jorge Bornhausen, presidente do PFL.
Nada dessa conversa passa ao noticiário, como seria normal em encontro tão incomum e, ainda mais, em fase de tanta excitação jornalística. Na quarta, Jorge Bornhausen viaja ao Rio, para conversas na área de imprensa. Viaja pouco menos do que incógnito. Na quinta, sua viagem é retribuída com a viagem a Brasília de seu ou seus principais interlocutores.
Nos dias subseqüentes surgem algumas notícias com jeito esquisito, sobre relatórios que não se comprovam onde foi noticiado que existem; iniciativas cujos personagens as negam, e por aí.
Nesses períodos em que a imprensa abre mão de maiores exigências, levada pela ânsia que acomete os repórteres e seus editores, mesmo para jornalistas é difícil distinguir o que vale no noticiário, quanto mais para o leitor/espectador.
E assim chegamos à eminência de Nelson Jobim, presidente do Supremo Tribunal Federal, nem por isso menos político do que antes de receber de Fernando Henrique a condição da magistratura.
Segundo a notícia no "Globo", Jobim está "advertindo [líderes dos partidos] de que o país ficará ingovernável nos próximos dez anos se a oposição tentar derrubar" Lula. Por que dez anos, não foi esclarecido. Mas, teria dito Jobim, "ninguém pode impedir que o presidente da República seja julgado pelo povo. Se isso [o impedimento] ocorrer, ninguém terá condições de governar o país".
As recomendações de Jobim à contenção dos oposicionistas e à moderação nos discursos de Lula conduzem, diz o texto, à sugestão de que "os partidos de oposição se sentem à mesa com o presidente Lula e busquem um entendimento prévio para assegurar que o presidente eleito em 2006 tenha condições mínimas para administrar".
Está aí pressuposto, com toda a clareza, que "o presidente eleito" não é "presidente reeleito". Nada a ver com a posição que o senador Eduardo Suplicy volta a manifestar, contrária por princípio à recandidatura de Lula, como o foi publicamente contra a de Fernando Henrique.
Nada a ver, também, com a proposta do senador Jefferson Peres, que consiste em um pacto dos maiores partidos para evitar a expansão da crise à economia e à administração.
Por acaso ou não - a melhor aposta é na segunda hipótese -, a repentina participação de Nelson Jobim, com o peso do STF mas também com sua reputação de pretendente à Presidência da República, coincide plenamente com os indícios de uma articulação em andamento subterrâneo.
Pelos propósito dessa articulação, a crise ficaria circunscrita aos partidos e ao Congresso, assegurando-se a Lula a preservação das condições integrais do exercício presidencial. De sua parte, Lula daria por encerrada a sua Presidência no primeiro mandato.
Poderia ser feito então, por exemplo, o entendimento por uma candidatura com a chancela elevada do suprapartidarismo, ou coisa que o valha, para recompor a nação etc. e tal.
A contrapartida desejada de Lula não deixa de ser uma forma de impeachment com prazo de carência. Por isso mesmo, talvez funcione mais como constrangimento do que como estímulo para um possível gesto coerente de Lula, amparado na oposição rígida que fez ao projeto de reeleição.
No público, a crise é tratada pelo ângulo da corrupção. Entre os políticos, a crise é considerada pelo ângulo da eleição.

ANTÔNIO ERMÍRIO DE MORAES Responsabilidade e amor à pátria

Folha de S Paulo

Que a crise é séria todos sabem. Que é de natureza moral, ninguém duvida. Que envolve grande parte da classe política é inquestionável. Todos sabem também o que fazer: apurar os fatos, identificar os responsáveis e puni-los na forma da lei. O que não cabe, neste momento, é pôr mais lenha na fogueira, como, por exemplo, incitar a luta de classes. A saída da crise depende da manutenção de um clima de união nacional. Depende ainda da preservação dos valores centrais da nossa sociedade. As famílias não podem se desagregar porque certos políticos demonstraram não ter ética e amor à pátria. Os jovens não podem se entregar à pilhagem porque alguns mandatários foram flagrados saqueando os cofres públicos. Os produtores e os trabalhadores não podem parar suas atividades porque viram seus impostos serem carregados por governantes inescrupulosos. A saída da crise depende do fortalecimento desses valores. O Brasil não pode ser confundido com os governantes. Vivemos em uma terra maravilhosa e que foi regiamente contemplada por Deus em matéria de recursos naturais e tolerância do povo. Em qualquer outro país da América Latina, os desmandos constatados teriam detonado uma convulsão social. Os brasileiros são diferentes. Possuem uma paciência infinita e um espírito de resignação invejável. Precisamos capitalizar sobre esses traços da personalidade nacional e não abrir guerras de uns contra os outros. O momento exige a utilização da crise como alavanca de mudança -como fazem os chineses. Para tanto, nada melhor do que ultimar o que precisa ser feito para o Brasil crescer mais depressa, gerar mais empregos e garantir o progresso das pessoas. Mais especificamente, esta é a hora de os integrantes dos Poderes da República fazerem um esforço extra para aprovar os projetos de urgência e que já estão em pauta, tais como: (1) cortar os gastos supérfluos do governo -e há muitos; (2) utilizar as economias para aumentar os investimentos públicos, em especial em infra-estrutura; (3) reduzir os juros reais, que hoje são de 12% ou 13%, a patamares civilizados de 5% ou 6%; (4) promover de uma vez por todas a reforma tributária sobre a qual tanto se falou e pouco se fez; (5) enfrentar com coragem a modernização das leis trabalhistas de modo a simplificar a burocracia e reduzir as despesas de contratação. Muitos argumentarão que, se essas mudanças não saíram em tempos de paz, jamais sairão em tempos de crise. Penso diferente. De um lado, há a necessidade de apurar as contravenções e punir os culpados. De outro, a nação adquiriu mais direitos para exigir dos dirigentes um esforço extra não para alcançarem o perdão, mas, simplesmente, para cumprirem o seu dever principal e demonstrarem, claramente, que foram eleitos para servir o público, e não se servir da coisa pública. Amanhã reabrem os trabalhos legislativos. É a hora exata para os parlamentares e para o governo mostrarem que responsabilidade e amor à pátria são o melhor caminho para vencermos a atual crise.

ELIANE CANTANHÊDE É hora de racionalidade

Folha de S Paulo

  BRASÍLIA - Há uma percepção generalizada de que o pior da crise já passou, mas ainda é cedo para isso. Há toneladas de documentos sendo analisados e muita coisa ainda pode surgir até a terrível definição de quantos, quais e quando devem ser cassados no Congresso.
A descoberta dos nomes do deputado Roberto Brant, do PFL, e do senador Eduardo Azeredo, presidente do PSDB, entre os que faziam saques nas contas do "esquema Marcos Valério" foi em boa hora. Serviu como um freio de arrumação. Hora de reflexão, de "gradação" de culpas.
A oposição falava abertamente na possibilidade de impeachment, mas ninguém mais pronuncia a palavra maldita, porque as condições políticas para essa aventura são nulas.
1 - Não há nada fechado envolvendo o nome de Lula e da família dele;
2 - Sua popularidade se mantém estável, apesar de tudo;
3 - Um Congresso em frangalhos teria condições morais de votar o impedimento? E logo de Lula?
4 - Não interessa nem para o PSDB, nem para o PFL, nem para o empresariado, nem para o eleitorado, nem para a academia. Para ninguém.
5 - José Alencar é previsível para baixar os juros e imprevisível em todo o resto, especialmente na economia.
6 - Cassar Lula, com toda sua história, seu simbolismo, sua imagem internacional seria como escancarar as portas. Qualquer outro seria "cassável", pelo motivo mais banal. O Brasil não é exatamente um Equador ou uma Bolívia para derrubar presidentes de dois em dois anos.
Dito isso, rejeite-se a polaridade: Lula terminará o mandato e será candidato à reeleição, logo Lula está fortíssimo. Não é tão simples. Ao contrário, Lula está ferido. Perdeu a aura, caiu do pedestal, esgotou o estoque de metáforas, ficou sem seus principais homens, isolou-se.
A reeleição parece improvável. Mas, mesmo que ele ganhe, pergunta-se se é suficiente. Governar com e para as classes "C", "D" e "E" é ótimo. Mas alguém governa só com elas?

CLÓVIS ROSSI Não é que era verdade?

Folha de S Paulo

  SÃO PAULO - Leio o depoimento de João Cláudio Genu, o assessor do PP, que confessa ter recolhido regularmente dinheiro enviado por Marcos Valério, "a pedido da direção do Partido Progressista".
Volto a um almoço entre companheiros da Folha no elegante boteco "Leão da Barão", ao lado da sede do jornal, em que Fernando Canzian dizia que o notável na história era que todo mundo acreditava piamente em tudo o que dizia Roberto Jefferson, menos na história de que o olho roxo (na época de seu depoimento) se devia à queda de um armário.
Pois é, Canzian, agora está explicada a fé em Jefferson: o que ele contou era verdade. O mensalão existe.
Deixou de ser uma fabulação a história de que o PT montou o que Jefferson chamou de "exército de mercenários". Tanto deixou que Jefferson virou o rei Midas às avessas: todos os nomes que ele toca se transformam, em vez de ouro, naquilo que você está pensando, não é?
Qual será agora a linha de defesa do PT? Começou tentando impedir a investigação. Varrido pelo furacão Jefferson, aceitou-a a contragosto, para usá-la para tentar demonstrar, como disse o presidente da República, que todos cometem os mesmos pecados (ou seja, todos têm caixa dois). Muito bem. Agora, o problema não é (aliás nunca foi) de caixa dois, mas de um esquema de corrupção em larga escala, usando dinheiro público e privado (ou alguém acha que Marcos Valério é mesmo o grande mecenas dos "mercenários"?).
O novo presidente petista, Tarso Genro, primeiro a admitir que a antiga direção torrou "o patrimônio ético do partido", prega uma investigação "sistêmica". Se mantiver a coerência, a investigação terá que cutucar o governo e o "sistema" montado por Delúbio Soares, porque, como é igualmente óbvio, não estava a serviço do partido apenas, mas também do governo (para comprar votos no Congresso).
E aí? Entregar José Dirceu resolve tudo, caro Tarso?

Editorial de A Folha de S Paulo DESENCANTO POLÍTICO

 De acordo com pesquisa Datafolha, 49% da população brasileira afirma não acreditar na existência de políticos honestos. Ou seja, praticamente metade dos cidadãos considera que os responsáveis pela condução da vida pública não possuem um requisito básico indispensável para exercer suas funções. São vistos como desonestos. O resultado não chega a causar grande surpresa, mas é de uma contundência que não pode ser relevada.
Não há dúvida de que os escândalos de corrupção em curso, envolvendo representantes e líderes do PT e de diversas agremiações, contribuíram para a piora da avaliação. Se antes o marketing ético do petismo podia colaborar para um julgamento menos devastador, agora se tornou ainda mais justificável considerar que políticos "são todos iguais".
O percentual de reprovação do desempenho dos congressistas é revelador dessa tendência: subiu de 28%, em dezembro de 2004, para 36% no último mês. Intensificada desde que o Planalto deu espaço para a ascensão do deputado Severino Cavalcanti à presidência da Câmara, a crise de credibilidade chegou na série histórica da pesquisa ao patamar mais alto.
Na realidade, é a própria instituição política que parece merecer o juízo negativo da população, perplexa com os espetáculos de descompromisso moral a que tem assistido. O risco é o aumento da descrença na democracia como um sistema capaz de levar o país a atingir seus objetivos num quadro institucional marcado pelo respeito à coisa pública.
É fato que esse tipo de desprestígio é um fenômeno internacional. A falência dos sistemas ideológicos e o declínio das crenças na inevitabilidade de um futuro mais promissor deram lugar a um crescente ceticismo quanto à capacidade e ao real interesse dos políticos em construir uma vida melhor. Que tal sentimento se apodere de nações já em estágio mais avançado de desenvolvimento é preocupante, mas não tão grave quanto o desencanto que se dissemina em países em desenvolvimento, onde muito ainda está por ser feito.
Não é preciso ir longe para encontrar exemplos. Basta olhar para a América Latina, onde em diversos países manifestantes adotam a palavra de ordem "que se vayan todos" (fora todos) para marcar o amplo repúdio aos políticos.
É essa erosão da confiança da sociedade em seus representantes que ora se aprofunda no Brasil. É verdade que não houve até aqui mobilizações públicas de massa e não surgiram estudantes revoltados nas ruas, mas seria um erro interpretar essa aparente tranqüilidade como um sinal de que os brasileiros estão alheios aos fatos.
O descontentamento de algum modo e em algum momento aparecerá. Talvez nas urnas, talvez em manifestações que, por ora, o controle exercido pelo PT sobre os movimentos sociais tem ajudado a evitar.

FERREIRA GULLAR:Qual o desfecho?

Folha de S Paulo

  À medida que os acontecimentos se precipitam, a gente se pergunta onde vai parar tudo isso, qual será o desfecho da crise.
Nas rodas de discussão, as opiniões são divergentes, embora quase todos concordem em que o governo Lula entrou num caminho sem volta.
Até o momento em que escrevo esta crônica, eram motivo de discussão os últimos pronunciamentos do presidente da República, todos dirigidos a um público de trabalhadores e sindicalistas. Nesses pronunciamentos, Lula buscava apresentar-se como vítima de um movimento golpista da "elite", que não suportaria termos no Brasil um presidente oriundo da classe operária. Noutra ocasião, afirmou que ainda está para nascer alguém neste país capaz de lhe dar lições de ética.
Duas coisas chamaram a atenção nesses pronunciamentos: o fato de serem feitos para sindicalistas e a natureza mesma do que foi dito. Apresentar-se como vítima da "elite" deixa claro o propósito de ocultar as verdadeiras razões da crise (corrupção no PT e no governo) para recuperar e manter a simpatia dos "explorados" e dos "injustiçados", dos que hipoteticamente constituem sua base de massa. Proclamar-se acima de qualquer suspeita, sem que até aqui ninguém o tenha apontado como corrupto, causa espécie.
Espero não exagerar se vejo em tais atitudes de Lula os indícios de alguém que se sente encurralado ou que já antevê acusações efetivas capazes de comprometer sua autoridade de chefe de Estado.
Ao que tudo indica, essas acusações virão. A cada dia, torna-se mais e mais insustentável a tese de que o presidente Lula de nada sabia e que, portanto, nenhuma responsabilidade tem no que fizeram os dirigentes de seu partido e altos funcionários de seu governo. Com freqüência, Lula tem feito questão de afirmar que o PT é uma coisa e o governo é outra, inteiramente desvinculados um do outro. Difícil acreditar nisso quando foi ele quem de fato determinou o afastamento dos membros da direção do PT e fez uma intervenção no partido, pondo, no lugar daqueles, homens de sua estrita confiança que eram ministros em seu governo. A ligação entre Lula e o PT é indisfarçável e, portanto, a progressiva revelação dos procedimentos criminosos que envolvem os altos escalões do partido terminará por comprometer a autoridade do presidente da República.
Torna-se claro, a cada dia, que os objetivos petistas iam além da compra de parlamentares para assegurar a maioria governamental no Congresso. Ao que tudo indica, criara-se um sistema de poder, apoiado na ocupação de cargos de decisão em entidades públicas de grande peso na vida econômica e social do país. Uma espécie de poder econômico sindical-partidário estava sendo montado com o propósito de manter o controle político pela troca de favores e o tráfico de influências junto a empresas privadas, bem como a compra de parlamentares corruptos. Com isso, assegurava-se ao governo (e ao partido) a hegemonia necessária para dar à sua administração o rumo que quisesse, neutralizando a ação da minoria, que ficaria clamando no vazio. Em face de semelhante esquema, a res publica estaria relegada a plano secundário, e o próprio regime democrático, aviltado e comprometido em sua essência. É essa tentativa de assalto às instituições republicanas que desmorona agora diante de nossos olhos.
Espero não estar exagerando nem vendo chifres em cabeça de cavalo. Mas talvez valha a pena buscar as causas profundas dessa hipotética intenção da ala dominante do PT. O socialismo -o sonho da revolução que abriria caminho para a sociedade fraterna e igualitária- foi a utopia que incendiou a imaginação de homens generosos desde a segunda metade do século 19 até o final do século 20. E não se restringiu a sonho, mas materializou-se na construção de um Estado e fez avançar as conquistas sociais dos trabalhadores de uma grande parte do mundo. Não resta dúvida de que a sociedade humana não foi mais a mesma antes e depois da revolução de 1917. A derrocada do sistema comunista levou os socialistas responsáveis e sensatos a buscar alternativas viáveis para a consecução de seus objetivos. Há, porém, os que se valem daqueles ideais como instrumento anacrônico e demagógico para chegar ao poder e trocar a revolução pela corrupção, como ocorreu com o PT.
Isso pode significar, em termos nacionais e mesmo internacionais, a conclusão de uma etapa. Do mesmo modo que a vitória de Lula foi saudada por certa esquerda européia como um renascer da revolução socialista, a crise atual está levando-a a rever suas opiniões. No Brasil, certamente, a derrocada petista assinalará o fim de uma ilusão: se é imprescindível sonhar com a sociedade igualitária para chegar a ela, é igualmente necessário não perder a noção de realidade e saber avaliar os fatores objetivos que estão em jogo.
Mas, no final das contas, qual o desfecho da crise?
Há quem fale em impeachment e há quem fale em renúncia. Quanto ao impedimento de Lula, duvido que este Congresso, envolvido em corrupção, tenha autoridade para efetivá-lo, o que enfraquece a hipótese da renúncia. Na minha modesta opinião, Lula, desgastado, governará até o fim de seu mandato, primeiro e único.

Editorial de O Globo Lição para o PT



OCongresso é cobrado, como deve ser, a conduzir da forma mais séria e profunda possível a investigação do escândalo do caixa dois de campanhas eleitorais e do pagamento de mensalões na compra de apoio ao governo no plenário do Congresso.

Ao largo da CPI e da Comissão de Ética da Câmara, tramita um outro processo de depuração, que também precisa transcorrer da mesma forma. Trata-se do trabalho de auditoria interna no PT e de levantamento de informações sobre a participação de militantes graduados no escândalo — ou pelo menos noticia-se estar em curso esse trabalho de investigação.

Se a frustração da opinião pública causada por alguma eventual tibieza do Congresso na definição de responsabilidades e na cassação de mandatos seria desastrosa para a imagem do próprio regime de democracia representativa, a constatação de que a atual cúpula do PT foi leniente com companheiros flagrados em delito teria efeitos corrosivos sobre o partido, já abalado pela crise.

Tanto para o Congresso quanto para o PT, a única alternativa saudável é a expiação pública dos erros e ilegalidades cometidos, com as devidas punições. Prevê-se para o PT uma fase de retração de militância e quadros. Muito do futuro da legenda, no entanto, vai depender das eleições em setembro, nas quais o Campo Majoritário, grupo até agora hegemônico no partido, será representado por Tarso Genro, presidente em mandato-tampão, que irá para o teste do voto em confronto com tendências mais à esquerda.

É sintomático que o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, líder supremo do Campo Majoritário, esteja sendo fustigado nas ruas por militantes do PSTU e do P-SOL, duas opções de portas abertas a petistas desgostosos.

Vai ser importante, também, saber se o PT aprenderá com a lição desse escândalo, provocado pela tentativa de se tomar de assalto a máquina pública, aparelhando-a, para colocar o Estado a serviço do partido e de um projeto de poder.

Como já se viu em outros momentos da História, quando os fins começam a justificar os meios, partidos, políticos e países entram na rota de grandes desastres.

JOÃO UBALDO RIBEIRO Não é por aí

O Globo


Tenho tido a impressão de que, no meio de toda a confusão em andamento no país, há uma tendência a cultivar-se uma certa compaixão pela situação do presidente da República. Ele é visto e descrito como isolado, abandonado e traído e cheguei a ler diversas vezes que nem mesmo quer falar com correligionários e colaboradores históricos, tais como o dr. Genoino e o dr. Dirceu. Não sei se é verdade e o sentimento de compaixão pelo semelhante é dos mais nobres que a natureza humana pode abrigar. Mas, no caso, não compartilho desse sentimento, até mesmo porque o presidente até agora não deu ousadia aos súditos de explicar sua posição no imbróglio, nem parece estar disposto a dar. Quem quiser que especule sobre se ele sabia de todo ou de parte do esquema de corrupção que continua a ser exposto. O jeito com que ele aparece em público é o de quem não está nem aí e tem pouco ou nada a ver com os escândalos que envolvem seu partido e acontecem durante sua gestão.

No tom de bravata que caracteriza muitos de seus pronunciamentos, vem insistindo em que a elite o está sabotando, para inviabilizar sua administração ou mesmo apeá-lo do poder. E ele, como um David desafiando o Golias corporificado na elite, não baixará a cabeça, como disse em público. Tudo bem, mas há uma dificuldade generalizada em saber que elite é essa, tão contrariada pelo seu governo ou sua figura. Em primeiro lugar, no topo da elite política está ele mesmo, encabeçando o Poder Executivo num regime presidencialista que dispõe até mesmo de um instrumento de feição ditatorial, por ele usado e abusado, a famigerada Medida Provisória, tão vilipendiada antes. Em segundo lugar, se bem entendemos a palavra, que elite ele vem contrariando? Só se for a famosa gafieira Elite, onde quiçá ele terá abusado da umbigada de maneira folgazã. O FMI o cobre de elogios, os bancos nunca estiveram tão felizes, os interesses dos poderosos não foram nem estão sendo prejudicados. Apesar de alegações em contrário, nenhuma reforma significativa se concretizou e não se pode argumentar que ele está realizando um governo dirigido aos que se costuma vagamente chamar de interesses populares.

Aliás, quem está mais elite do que ele? Nestes dois anos e pouco, temos um presidente que já foi comparado ao imperador do Japão, como símbolo de seu povo, talvez não divino como no Japão, mas imperador de qualquer forma. Em palavras que ele pronuncia com freqüência, seu governo é dos melhores, senão o melhor, que o Brasil já experimentou. Declarou não ter pecados. E, mais recentemente, afirmou, em outras palavras (não lembro as exatas e faço este parêntese só para dizer que não estou tentando distorcer nada, até porque seria burrice, diante de tantas testemunhas), ainda não haver nascido brasileiro, homem ou mulher, para ensinar ética a ele.

A tentação me vem, sigo o conselho de Oscar Wilde e não resisto a ela. Será que ele, em algum momento secreto de solidão, não se imagina futuramente santo? O falecido Papa João Paulo II, já candidato à canonização, se referia de vez em quando a seus pecados. O presidente, não os tendo, leva uma boa vantagem. Quanto a ainda estar para nascer um brasileiro com estatura ética suficiente, é bem verdade que Irmã Dulce já nasceu e morreu, mas, se viva fosse, dificilmente teria o que ensinar a ele, assim como outros heróis, mártires e abnegados brasileiros, entre nós ou já finados.

Não, vamos admitir (não tenho certeza plena, mas vamos admitir) que essa possibilidade é forçação de barra de minha parte. Mas não forço a barra quando vejo, como muitos outros, que ele agora recorre à sua força junto ao chamado povão, que nem sabe bem o que quer dizer "elite", e se dedicará ao contato direto com esse povo, já que a situação política institucional chegou ao ponto em que está e poderá piorar, em grande parte porque ele tomou posse mas não assumiu seus deveres apropriadamente, fiando-se num esquema de resultados catastróficos. Então a palavra "elite", embora completamente descabida, vaga e destituída de pertinência, serve para esse uso especial.

Até mesmo porque se sabe que o chamado povão imagina que quem paga os impostos roubados e não aplicados em benefício dele são os ricos. Portanto, eles que se danem, lá na tal elite. Pagar imposto, para a maioria, é desembolsar o Imposto de Renda ou o IPVA. A ninguém ocorre que um mendigo que ganhe cinco reais vai tomar uma mordida do governo que pode chegar a a um percentual da esmola bastante significativo. Se o mendigo, que, como qualquer companheiro, também tem direito a isso, tomar uma cervejinha, comprar um maço de cigarros e um sanduíche, o governo terá abocanhado um belo naco da esmola. Mendigo paga uma carga pesada de impostos, assim como quem paga as cestas básicas "gratuitas" são seus próprios "beneficiários", em última análise. Todo mundo sabe que rico não paga Imposto de Renda, a mesma coisa podendo ser dita de um número considerável de bancos.

Aí fica fácil (ou ficava; para mim ficava, cada vez menos fica) levar o povo no gogó. A elite é o demônio, está causando esse descalabro todo, quer desmoralizar ou pelo menos enfraquecer de vez o presidente, mas este conta com a força do apoio popular e pode desdenhar e fingir ignorar o que se passa, não é com ele. Só que, em versões diversas mas essencialmente as mesmas, já vimos esse filme e sabemos no que invariavelmente dará, ainda mais com os nossos irmãos mais ao norte do jeito em que andam. Finjam por um instante que eu sou elite, porque tenho uma coluna neste jornal. Então, na condição de elite, insisto em fazer minha parte e dizer: "Pelo amor de Deus, presidente, o que eu menos quero no mundo é que o senhor deixe o poder, de que forma for! O que eu quero é que o senhor assuma logo!"

Miriam Leitão :Hora de explicar

O Globo




Na semana passada, o presidente Lula passou cinco dias em cima do palanque, onde não deveria estar. O tempo seria mais bem gasto se dedicado a dar explicações ao país e procurar uma saída para a crise. Não é o único que deve explicações ao Brasil. O ex-presidente Fernando Henrique derrapou quando quis dizer que os possíveis erros dos tucanos, se ocorreram, são "coisa da História".

Para o governo, as denúncias de que Marcos Valério também fez transferências bancárias para tucanos durante a campanha do então candidato à reeleição ao governo de Minas, Eduardo Azeredo, vêm bem a calhar; servem para confirmar a tese parisiense do presidente Lula de que "o PT fez o que é feito sistematicamente". Esta é a pior idéia que se pode disseminar: de que são todos inimputáveis porque o crime já se generalizou no país.

O PSDB tem que explicar o que se passou. Os tucanos não podem repetir o que fizeram a semana passada, ao bloquear a convocação de Eduardo Azeredo, e pagar o preço de ver adiada a convocação do ex-ministro José Dirceu. A CPI que um dia foi dos Correios precisa ouvir ambos. Fará bem o senador Eduardo Azeredo se oferecer suas explicações à CPI, como foi noticiado.

O curioso é que a operação de Belo Horizonte está mais de acordo com a versão que se tentou dar para a crise do governo Lula: a de crime eleitoral. Parecem operações de financiamento de campanha não declaradas. Delúbio Soares adoraria que todos acreditassem que foi isso que aconteceu no governo Lula. Mas agora a operação tomou uma dimensão muito maior, mudou de natureza e se generalizou. Os repasses foram feitos fora do período de eleições, favorecendo políticos que não faziam parte da coalizão eleitoral. O depoimento do assessor de José Janene, João Cláudio Genu, é uma confirmação da existência do mensalão. O valerioduto parece um grande canal pelo qual passavam repasses freqüentes para políticos da base, recursos para financiar os crescentes gastos do Partido dos Trabalhadores, além da parte que foi usada, de fato, para pagar dívidas de campanhas. Para o governo, a denúncia em Belo Horizonte torna tudo confortável. Ele pode dizer que apenas herdou uma prática corrupta criada no governo anterior. É falsa essa explicação; se fosse verdadeira, seria insuficiente. Cabe ao PSDB evitar que as coisas se misturem.

A crise política tem soluções políticas e precisa de respostas no campo da política. A economia não virá salvando tudo através de uma tal agenda positiva. Há questões que até podem ser aprovadas, mas não há poção mágica na economia capaz de resolver a crise política.

Que chance tem um pacto negociado por Jaques Wagner com a CNI de eclipsar a visão do grande, robusto e sombrio valerioduto? Nenhuma. Não é raro que empresários neste momento proponham essa coisa chamada "pacto". Quando o fazem, têm uma lista grande de pedidos e nenhuma concessão.

Quando sobe num palanque e responde com bravatas, alfinetadas, meias palavras de sentido impreciso, o presidente Lula está apostando na radicalização. Quando o governo acena com um pacto de agenda positiva, está tentando negociar. Que caminho o governo Lula quer seguir, afinal? Nenhum desses dois é bom. O primeiro, por radicalizar e ser uma campanha eleitoral fora de época. O segundo, por ser o equívoco de achar que, na área econômica, se pode fechar o enorme fosso aberto na área política.

Quando faz movimentos para chamar o povo para a rua, subindo em palanques e barrancos, o presidente demonstra que quer voltar aos que sempre o defenderam. Parte deles está no PT; na ala esquerda do partido, que nunca aprovou sua política econômica. Em plena campanha para que seus 800 mil filiados escolham pelo voto direto os novos dirigentes, o PT hoje é um campo conflagrado. Na semana passada, entrevistei dois candidatos à presidência do partido: Markus Sokol, que é da ala O Trabalho, e Plínio de Arruda Sampaio, veterano militante da esquerda.

Os dois rejeitam a atual política econômica. Querem voltar às velhas idéias arquivadas: moratória da dívida externa, reescalonamento e pagamento seletivo da dívida interna e fim da política de superávit primário. Eles dizem que defenderão o governo Lula se houver ameaça à sua permanência, mas tudo depende do programa para o próximo um ano e meio:

— Por exemplo, se for cancelada a próxima rodada de licitação na área de petróleo, os petroleiros podem querer defender o governo Lula — disse Sokol.

— Vamos defender este governo, mas tudo depende do que o presidente Lula vai propor. Se ele nomear Delfim Netto ministro, não sairemos às ruas gritando "Delfim! Delfim!" Não tem cabimento — disse Plínio de Arruda Sampaio.

Os dois não querem adiamento das eleições internas, rejeitam o cancelamento e não acreditam em candidato de consenso.

— Agora que um lado fez um gol o outro quer parar o jogo? Nem pensar! Vamos pro pau! — disse Plínio, de Fortaleza, onde estava fazendo campanha.

— Há seis meses, estamos preparando estas eleições, que já cumpriram várias etapas, cancelar a eleição é golpe — afirma Markus Sokol.

Se Lula for pelo caminho de chamar movimentos sociais para defender seu governo, terá que fazer concessões na área econômica. Esse caminho não tem volta, é de mais polarização e fracassará. O caminho de inventar uma agenda positiva é cortina de fumaça para esconder a crise. Também não vai longe. O único caminho é apurar o que houve, explicar à população, punir os culpados e não ficar usando truques de retórica e desculpas inaceitáveis para esconder o óbvio. E, se a oposição quer contribuir, a hora é esta: que dê também as devidas explicações.

Merval Pereira Última instância e O imponderável

O GLOBO

No recém-lançado livro de Bob Woodward "O homem secreto", sobre a verdadeira identidade do informante Deep Throat que o ajudou e a Carl Bernstein, repórteres iniciantes do "Washington Post" a desvendarem o caso Watergate que levou o presidente Nixon à renúncia, Bernstein conta uma passagem exemplar que até hoje estava inédita.

Certo dia, quando os dois checavam as informações que haviam conseguido, chegaram à conclusão de que tinham elementos suficientes para identificar John Mitchell, que fora, entre outros cargos, advogado-geral da União, como uma das cinco pessoas que controlavam um fundo secreto do comitê de reeleição de Nixon.

Esse fundo financiava ações ilegais como a invasão do escritório do Partido Democrata no prédio Watergate, em Washington, que deu início à maior crise da história política recente americana. Quando se viram diante do fato de que estavam prestes a acusar o figurão Mitchell de criminoso, Berstein e Woodward ficaram chocados: "Meu Deus. Este presidente vai ser impichado", exclamou Bernstein. "Jesus, acho que você está certo", replicou um atônito Woodward. Naquele momento, os dois combinaram que jamais diriam "aquela palavra" nas conversas na redação do "Washington Post", para que ninguém pudesse colocar em dúvida a veracidade das informações que conseguissem.

"Qualquer sugestão sobre o futuro do mandato de Nixon poderia minar nosso trabalho, ou o esforço do 'Post' de ser verdadeiro", escreve Berstein. Essa conversa eles tiveram um ano antes que o Congresso dos Estados Unidos iniciasse o processo de impeachment, e 22 meses antes de Nixon renunciar.

A discussão sobre a possibilidade de a atual crise política vir a desaguar num processo de impeachment do presidente Lula, que freqüentava as conversas em voz baixa de políticos no Congresso, tomou corpo esta semana depois da atuação do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Nelson Jobim, junto a políticos de vários partidos. Ele assumiu informalmente uma articulação política para neutralizar qualquer iniciativa que possa levar a um processo de impeachment.

Segundo os relatos, Jobim alertou para o perigo de o país ficar ingovernável nos próximos dez anos caso a política se radicalize com o impedimento do presidente Lula. O ministro Jobim, que é um dos poucos remanescentes na vida pública dos "cardeais" que faziam alta política no Congresso — ele foi relator da Constituinte de 1988 — deve ter tomado a iniciativa ao sentir a falta de rumo dos atuais líderes políticos.

Mas, assumindo uma ação ostensivamente política, se expôs a críticas como as do presidente da OAB, Roberto Busato, que lembrou que o Judiciário "não pode se misturar com a crise pois poderá ser chamado a desempenhar o seu papel constitucional nela", referindo-se ao fato de que, caso o processo de impeachment aconteça, quem preside a sessão do Senado é o presidente do STF. Busato, no entanto, já foi criticado severamente pelo ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, quando, no início da crise política, deu uma entrevista no exterior já falando sobre a possibilidade do impeachment.

Banalizar o impeachment, que o historiador americano Arthur Schlesinger classifica de "instrumento de última instância", é um dano para a democracia brasileira que foi muito cultivado pelo PT, que agora se fere com a maneira radical de fazer política que sempre adotou. Desde o movimento exitoso de destituição do presidente Fernando Collor de Mello, iniciado em 1991, o PT adotou a tática de acirrar os ânimos oposicionistas, e passou os oito anos dos governos de Fernando Henrique pedindo o impeachment do presidente, pelas razões mais diversas.

Arthur Schlesinger diz que um país deve ter um impeachment de 50 em 50 anos, para os governantes ficarem atentos, para o presidente não abusar dos seus poderes, não querer prevalecer sobre os demais poderes. Mas ele ressalta que o custo para o sistema político é gigantesco, lembra o cientista político Amaury de Souza, que escreveu um trabalho intitulado "O impeachment de Collor e a reforma institucional no Brasil", publicado no livro organizado por Keith S. Rosenn e Richard Downes, "Corrupção e reforma política no Brasil: o impacto do impeachment de Collor", editado pela Fundação Getulio Vargas em 2000.

Amaury de Souza diz que "dificilmente vai aparecer alguma coisa que possa ligar Lula diretamente a esse esquema de corrupção". Para ele, "é preciso que apareçam pelo menos indícios veementes, senão provas irrefutáveis, do envolvimento do José Dirceu". Dependendo do que ocorrer com o Dirceu, "pode ficar igualmente difícil negar que Lula pelo menos sabia. Chefe da Casa Civil não é um ministro qualquer, é da copa e cozinha do presidente". As investigações chegando ao José Dirceu "vai ser necessário muita negociação para que se consiga manter a versão, que hoje é consenso entre os principais atores políticos e econômicos, de que Lula não está envolvido".

O cientista político Amaury de Souza tem uma tese para a existência de um consenso tão forte sobre a necessidade de preservar Lula. Segundo ele, há duas datas históricas que explicam isso: a primeira é 29 de setembro de 1992, o dia em que o Senado fez o julgamento do Collor, e o povo foi para as ruas comemorar. A outra é 24 de agosto de 1954. Getulio se suicidou de madrugada e houve um quebra-quebra nas ruas. "O custo político e social de um impeachment pode ser gigantesco, não dá para arriscar", adverte ele. "No caso do Collor, era todo mundo de um lado só, contra ele, mas na época do Vargas todos estavam contra ele e a situação mudou, com o choque da notícia", ressalta Souza.

O imponderável

Analisando a crise política atual, o cientista político Amaury de Souza acha que a situação do ex-chefe da Casa Civil José Dirceu, que vai depor na terça-feira no Conselho de Ética da Câmara, "é difícil", pelo precedente de seu ex-assessor Waldomiro Diniz, flagrado extorquindo um bicheiro, e de Marcelo Sereno, outro assessor, ligado a Delúbio Soares e Sílvio Pereira na direção do PT. "São dois auxiliares diretos de Dirceu envolvidos. E ele teve um papel determinante para a carreira meteórica de Delúbio e Silvinho no partido. Eram militantes de base que de repente foram alçados ao diretório nacional sem terem representatividade nenhuma", analisa Souza.

Se Dirceu confirmar na Comissão de Ética uma conversa que se atribui a ele, dizendo que tentou tirar Delúbio Soares da direção do PT e "não deixaram", atinge diretamente o presidente Lula, de quem Delúbio é considerado protegido. Na avaliação de Amaury de Souza, Dirceu já está indo para a Comissão de Ética com um problema sério, pois Renilda, a mulher de Marcos Valério, garantiu que ele teve a reunião com a diretoria do Banco Rural em Minas. Mas Souza acha que não vai acontecer com Lula o que aconteceu com Collor, cuja queda de popularidade ocorreu rapidamente durante 1991, com o fracasso do plano econômico e a conseqüente volta da inflação depois do seqüestro da poupança.

Analisando pesquisas de opinião da época, Amaury de Souza destaca que "da posse em 90 até o fim de 91, há uma queda constante de Collor, que se estabiliza no patamar de 10%, do qual nunca mais conseguiu sair". No caso de Lula, acredita Souza, "o processo de erosão da popularidade será através do que for sendo passado adiante em termos das descobertas da CPI".

Os dados de apoio a Lula já começam a mostrar a erosão da popularidade "por indicadores indiretos", comenta. Amaury de Souza lembra que o governo Lula está em um patamar de 40% de aprovação, enquanto o de Collor, na mesma época, estava em 10%. "A aprovação, tanto do governo quanto de Lula, tem pouca variação por indicadores como classe social, escolaridade. É mais baixa nas classes A e B, e mais alta nas classes C a E, mas uma diferença pequena estatisticamente. Mas em todos os cenários, ele já sumiu como opção de voto na classe A", destaca Souza.

Na intenção de votos no primeiro turno, os dados de janeiro deste ano mostram Lula oscilando entre 48% a 50%. Já caiu para a faixa de 35% a 40%. Toda crise envolvendo a corrupção no governo está sendo acompanhada mais de perto pelas classes A e B, e para baixo o processo de filtragem da informação é muito mais lento, comenta Amaury de Souza. "Há uma barreira simbólica fortíssima de identificação com Lula. O processo de perda de popularidade vai ser muito mais suave", diz ele.

O cientista político acha que o imprevisto, o imponderável, podem ser decisivos no desfecho do caso. No processo de Collor, não havia nada de inevitável para o impeachment, analisa Souza. Mesmo depois das denúncias de Pedro Collor, ele achava que ainda seria possível administrar a crise, que se tornou inadministrável por uma série de fatores: "Os operadores do Collor eram uns trapalhões, assim como são os de Lula. Deixaram rastro de todos os lados. Há uma riqueza de provas inacreditável".

Também o papel da imprensa foi fundamental, "fazendo seu primeiro grande aprendizado de liberdade de expressão depois da ditadura, e com isso a população se interessou muito pela CPI". Segundo Amaury de Souza, um estudo da cientista política Argelina Figueiredo mostra com muita clareza que CPIs contra o governo têm uma baixa probabilidade de sucesso. Apenas 54% terminam de alguma forma, e as mais exitosas são as que não vão contra o governo, tratam de temas como trabalho escravo, exploração infantil, meio ambiente.

Um dos fatores que Amaury de Souza destaca para esses desfechos é "o grau de atenção da opinião pública". Ele está convencido de que "se a opinião pública estivesse interessada no Banestado, a CPI não teria acabado em pizza". Ele realça que a crise do Collor começou a entrar em sua fase aguda por volta de fevereiro/março de 92, e entre abril e o final de agosto a opinião pública tomou conhecimento do que estava ocorrendo com o governo, e formou uma opinião fortemente negativa.

Para ele, a melhor pergunta das pesquisas de opinião começou a ser feita naquela ocasião: Você acredita que o presidente esteja diretamente envolvido no esquema de corrupção? Até abril, o patamar de Collor estava em 31%. Depois da entrevista de seu irmão Pedro, em junho a proporção já estava em 65%, em agosto já estava por volta de 75% e, às vésperas do julgamento, o índice foi para em torno de 85%. "Agora, no caso de Lula, em julho 39% disseram que ele estava envolvido, e desses só 14% disseram que está totalmente envolvido".

Mas Amaury de Souza chama a atenção para uma circunstância característica da nossa sociedade atual: a velocidade com que a notícia se propagou na população é maior do que na época de Collor, especialmente devido às transmissões pela televisão das sessões das CPIs e à internet.

Em maio, 51% acompanhavam a CPI dos Correios, e desses 16% estavam realmente atentos. Em junho, já eram 84% (e 36% realmente atentos). A mesma percepção aparece quando se pergunta se o entrevistado acredita em corrupção no governo Lula. Em março, 32% diziam que sim; em maio, 65%; em junho, 70%; e em julho, 78%. Na pesquisa da revista "Época" desta semana, o governo Lula aprece apenas atrás do de Collor no ranking dos mais corruptos.



sábado, julho 30, 2005

AUGUSTO NUNES :A animada turnê do candidato

jb


O presidente cancelou todos os compromissos agendados, abandonou o gabinete de trabalho e saiu por aí, no papel de candidato à reeleição. Foram sete dias de festa e discurseira. Em improvisos diários, falou mal de FH e bem de Lula, berrou bravatas, obviedades e tolices, festejou o progresso do Brasil, afirmou que a economia é sólida mas, paradoxalmente, vulnerável. Terminada a turnê, os brasileiros descobriram que o país onde Lula mora é muito melhor que o Brasil.

Figurino caprichado: jaleco no Rio









SEXTA-FEIRA, 22

A excursão começou com dois improvisos no Rio. "Tenho a exata noção de que não podemos deixar escapar nenhum culpado", reconheceu de manhã. Pareceu menos sóbrio depois do almoço: "Não vai ser a elite brasileira que vai fazer eu baixar a cabeça", esbravejou. Lembrou que os pais analfabetos geraram um filho imaculado: "Pode ter igual, mas não tem nem mulher nem homem que tenha coragem de me dar lições de ética, moral e de honestidade".

SÁBADO, 23

No ABC paulista, manjedoura política de Lula e do PT, o presidente esqueceu as elites golpistas. Em dois improvisos, embarcou na nostalgia e, de passagem, cutucou FH. "Continuo metalúrgico", jurou o ex-operário que não lida com tornos há 25 anos. "Para dirigir o país não é preciso diploma universitário, é preciso coração".

Aconselhados pelo coração, o presidente e o candidato evitam tratar de coisas tristes. Até hoje, Lula não contou quando e como soube da existência do mensalão, nem que medidas tomou – se é que tomou alguma. E finge não enxergar o pântano da corrupção que já engoliu R$ 4 bilhões.

DOMINGO, 24

Ainda no ABC, Lula revelou à platéia formada por motoristas de caminhão o nome do culpado pela decomposição das estradas: Fernando Henrique Cardoso, claro. "Herdei 38.000 quilômetros de estradas intransitáveis, nem trabalhos de manutenção eram feitos", lamuriou-se.

Que fazer? Lula pediu paciência. No início de 2006, as rodovias federais de São Paulo serão privatizadas. Até dezembro, sumirão os problemas restantes. Apesar da indigência financeira do Ministério dos Transportes, o candidato Lula jurou que, em um ano, o presidente Lula fará o que não fez em dois e meio.

SEGUNDA-FEIRA, 25

De volta a Brasília, Lula manteve- se à distância do Planalto. A turnê previa uma apresentação especial no aeroporto. O candidato apareceu em companhia do faxineiro Francisco Cavalcante, que devolveu ao dono o pacote com US$ 10.000 encontrado num banheiro. "Se tivéssemos 180 milhões de Franciscos, o dinheiro daria para fazer muito mais para o povo pobre", devaneou.

Mais simples e prático seria recuperar as fortunas roubadas do Brasil dos franciscos pela quadrilha dos companheiros de Lula.

TERÇA-FEIRA, 26

Uma pausa na turnê forçou o candidato a reassumir a Presidência, enfurnar-se no palácio e encarar tediosas miudezas. Alheio às ponderações de assessores, indicou Tércio de Barros para a presidência da Infraero. Nomeou mais problema: um inquérito investiga pilantragens ocorridas quando Tércio chefiava o Aeroporto de Cumbica.

Naquele dia, o lamaçal fora ampliado por detritos mineiros, respingara em Daniel Dantas e chegara à altura do pescoço do Amigo Zé. O silêncio declarou que Lula não tem nada com isso.

QUARTA-FEIRA, 27

De Brasília, Lula seguiu para o Rio Grande do Sul, escolhido para o encerramento da excursão: em dois dias, o candidato se exibiria em cinco cidades. O repertório deu preferência a antigos sucessos, como a decência dos pais analfabetos ("o único legado que tenho é vergonha na cara") e, claro, FH ("não adianta ser professor da Sorbonne"). Entre as poucas frases novas, uma merece destaque: "É um tal de diz-quediz- que eu não sei como se sentem. Eu me sinto indignado".

A indignação não inibiu o candidato, que comemorou o nascimento de um novo Brasil. A economia vai bem, a inflação está sob controle, o desemprego caiu, as exportações subiram, os programas sociais vão liquidando a pobreza, a Polícia Federal acumula triunfos na caça aos corruptos. "Vamos punir quem errou e inocentar quem não cometeu irregularidades", declamou.

QUINTA-FEIRA, 28

No interior gaúcho, o tom do candidato mudou: "A economia do país é vulnerável", advertiu. Convencido de que o alerta conterá a drenagem do pântano, voltou sorrindo ao Planalto.

Sempre aos gritos, a senadora Ideli Salvatti, catarinense e petista, vive festejando o sucesso do governo no impenitente combate à corrupção. ''A Polícia Federal realizou quase 150 operações e fez mais de 1.500 prisões'', berra Ideli. O Cabôco gostou dos números, mas acha que faltam outros. Quantos delinqüentes aguardam o julgamento em liberdade? Quantos foram julgados? Quantos foram condenados?

Um artista em dois papéis

Para impedir que a CPI do Mensalão invada campos minados, a maioria governista no Legislativo assumiu o comando da CPI do Mensalão. A presidência ficou com o senador Amir Lando, ministro da Previdência por um tempo ligeiramente superior ao consumido por namoro de motel. O relator, quem diria, será Ibrahim Abi-Ackel, ministro da Justiça do governo Figueiredo (à esq.).

Hoje no PP, Abi-Ackel foi incensado, quem diria, pelo senador Aloizio Mercadante. "É um deputado acima de qualquer suspeita", disse o mais vistoso bigode do PT. No dia seguinte, Abi-Ackel foi incorporado à turma do mensalão. Intimado pela CPI, vai protagonizar um espetáculo sem precedentes. O relator Abi- Ackel fará as perguntas. O deputado Abi- Ackel dará as respostas. É o Brasil.

Um banco que parece gente

O Banco Rural é estranho até no nome: age nas grandes cidades, nunca faz negócios no campo. A julgar pelo noticiário, não tem donos nem diretores. Só tem funcionários, que obedecem ao código da irresponsabilidade perdulária. Quem mandou agir assim? O Banco Central. A instituição até parece gente como a gente. Só que bem mais intrigante que a gente.

Senhor do próprio destino, o banco faz e desfaz. Concede empréstimos milionários sem exigir garantias. Dispensa até assinaturas: bastam garranchos num papel. Entrega pacotes de dinheiro vivo a desconhecidos. Não é preciso abrir contas para deslocar boladas de um guichê para outro. Abastece o caixa dois de partidos e candidatos. Promove reuniões com ministros e ganha favores do governo.

Se a CPI intimá-lo, o banco será representado pela logomarca. Decerto sabe falar.

Uma taça para o impenetrável

Ao analisar a crise política em artigo publicado na Folha de S.Paulo, o prefeito Cesar Maia viajou bonito. Leiam o trecho que levou a taça:

''O sistema político brasileiro - e aqui quero entender o Estado em todas as suas vertentes - se metrossexualiza nas eleições sucessivas. Não muda.''

Cesar Maia talvez ficasse menos impenetrável se escrevesse em sânscrito.

Homem certo no lugar certo

Em meados de 2002, com o patrocínio do Ministério da Justiça, a Polícia Federal lançou uma inventiva promoção: ''Conheça o Brasil com Fernandinho Beira-Mar''. Os sherloques premiados viajaram pelos céus do Brasil em busca de hospedagem para o superbandido. O passeio terminou em São Paulo, que engaiolou Beira-Mar numa prisão de segurança máxima. Um juiz misericordioso decidiu que ninguém pode sofrer tal castigo por mais de dois anos. Nem um meliante que gosta de ouvir pelo celular os gritos dos condenados à morte por esquartejamento.

Como as prisões federais não saíram das plantas, Beira-Mar foi recolhido a Brasília. Faz sentido. Ali, qualquer bandido se sente em casa.

O professor despetalou a flor do Lácio

Montagem
A doutrina de Pasquale foi transformada num Aurélio de bolso pelos companheiros oradores

Oentusiasmo nacional com a vitória de Lula em 2002, escancarado por alegres multidões formadas majoritariamente por brasileiros humildes, contagiou o professor Pasquale Cipro Neto.

Graças a programas na TV e colunas em jornais, Pasquale já ganhara fama com o c raque em português. Sem a sisudez dos gramáticos que defendem a bengaladas cada pétala da última flor do Lácio, o professor dizia, com didática clareza, o que é certo e o que é errado.

O advento da Era Lula provocou interessantes mudanças na cabeça de Pasquale. Ficou muito mais tolerante. Em pouco tempo, especializou-se em explicar o inexplicável.

Como justificar aquele menas" que Lula infiltrava em qualquer improviso? Se os ouvintes entenderam, não houve erro, alegava Pasquale. É o povo quem faz a língua.

Transformada num Aurélio de bolso do PT, a "Doutrina Pasquale" animou os companheiros a revogar plurais, concordâncias e outras quinquilharias. Vale tudo, como atestaram na CPI Delúbio Soares e Sílvio Pereira.

Delúbio não diz "ele negocia". Acha "negoceia" mais bonito. Sílvio barganha também consoantes. Nunca apresentou pleitos que beneficiavam amigos. Só "preitos". Não costumava freqüentar o Planalto. Só ia ao "Pranalto". E agora, mestre Pasquale?

Santa Cruz em vez de Brasil

O ministro da Comunicação, Hélio Costa, pediu que a CPI dos Correios mude de nome, para preservar a imagem da instituição (e a integridade física de carteiros alvejados por gente que confunde as coisas). Como a imagem do Brasil parece enlameada, talvez não seja má idéia rebatizar o país com um dos nomes usados logo depois do Descobrimento: Terra de Santa Cruz. Lembra calvário. E não tem contra-indicações.

CORREÇÃO

Jacques Chirac não é primeiro-ministro da França, como informou erradamente a coluna de domingo passado. É o presidente da República.

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