O brasil já foi o país do futuro, já foi o nacionalismo de Vargas, o desenvolvimentismo de Juscelino, a esperança e a força das Diretas Já, a maravilha e a alegria de sua música popular. O que é hoje? Não consigo ver muita coisa além da semi-estagnação econômica dos últimos 25 anos, do cosmopolitismo de suas elites, do oportunismo de seu governo e da corrupção generalizada. Sempre fui otimista em relação ao Brasil, mas no momento só consigo perceber uma sociedade atônita, sem rumo.
Há alguns dias, encontrei um amigo empresário que me perguntava para onde vai o Brasil e manifestava sua preocupação em relação a seus filhos, de 10 e 13 anos, que, ele prevê, não vão encontrar as oportunidades profissionais razoáveis quando chegarem ao mercado de trabalho. Se um homem como esse está preocupado, o que dizer da imensa parcela de brasileiros menos beneficiada? "Há algo de profundamente errado na nossa economia", disse-me ele. "A taxa de juros é altíssima, e a taxa de câmbio não pára de cair e vai acabar prejudicando a única coisa que vai bem, que são as exportações." Está certíssimo o meu amigo, esses são os dois grandes problemas que o oportunismo do governo e das elites brasileiras impede de resolver. Mas, em seguida, ele se enganou ao acrescentar: "Com esses juros, o endividamento público vai se tornar insustentável". Não vai: os rentistas e o sistema financeiro nacional e internacional têm esse problema equacionado: os 4,25% de superávit primário são a conta certa para que a relação dívida pública/ PIB não permaneça entre 50% e 55% do PIB, variando apenas com a taxa de câmbio. Os credores do Estado cuidam para que a fonte de seus rendimentos não quebre. E justificam os juros com o combate da inflação, embora essa, há tempos, tenha deixado de ser a grande doença da economia brasileira: a grande doença hoje é o remédio que se pretende aplicar: a própria Selic.
Isso significa que a equação macroeconômica perversa de altos juros Selic e baixa taxa de câmbio é auto-sustentável? Não, porque, com essa equação, o desenvolvimento, mesmo no curto prazo, é inviável na medida em que inviabiliza a poupança e o investimento públicos e porque, no médio prazo, a valorização do câmbio levará ao restabelecimento dos déficits em conta corrente, ao aumento do endividamento externo e à crise de balanço de pagamentos.
Fará a sociedade brasileira alguma coisa para mudar esse estado de coisas? Não por meio do atual governo, que se revelou vazio de idéias e de valores: um governo meramente oportunista que vem promovendo uma transferência sem precedentes de renda dos pobres para os ricos via taxa de juros do Banco Central pelo menos quatro vezes maior do que deveria e poderia ser. O governo deverá pagar neste ano mais de 8% do PIB de juros, quando no máximo 2% são legítimos.
Por meio da revolta do povo, poderá esse quadro ser mudado? Nada mais improvável. Revoltar-se em nome de quê? De qual alternativa? Não há nenhuma que valha os riscos de uma revolta. O que o povo pode é imitar as elites: na falta de uma liderança e de um rumo, sem se perceber como uma nação, pode optar pelo cinismo e o oportunismo. Os ricos ficam com a grande corrupção; os pobres, com a pequena. Todos, com o individualismo do salve-se-quem-puder, seja como for.
Mas não será esse o quadro de todo o mundo atual, que ficou sem objetivos, desde o colapso da União Soviética e do fracasso dos Estados Unidos, de se constituir em uma alternativa aceitável? Não creio. O mundo vive, realmente, um momento difícil de indefinição, de falta de objetivos. Mas, nas sociedades européias, por exemplo, não há nada semelhante à corrupção e ao oportunismo que aqui imperam. E que deixam os brasileiros literalmente atônitos.
Temos, entretanto, um trunfo que ainda poderá transformar a sociedade brasileira em uma nação: a democracia. Apesar de seu fracasso em produzir governos capazes de retomar o desenvolvimento, nossa democracia está forte, nossa mídia está viva, o debate público está aberto. Essa democracia não foi capaz de fazer a reforma política necessária e não soube fazer a crítica do cosmopolitismo globalista e da alienação das nossas elites econômicas, políticas e intelectuais, mas talvez a crise em que estamos hoje imersos a ajude a repensar o Brasil usando de sua própria liberdade.
Entrevista:O Estado inteligente
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segunda-feira, outubro 10, 2005
Uma sociedade atônita LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA
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