Se os petistas merecem solidariedade incondicional, outros da lista também merecem Ao se solidarizar com os petistas da lista de possíveis candidatos a cassações e recomendar que o restante da bancada do partido fizesse o mesmo, o presidente Luiz Inácio da Silva pode ter aberto um precedente arriscado para si.
Os outros integrantes do rol dos 16 deputados cujas condutas a CPI dos Correios considerou irregulares o bastante para pedir ao Conselho de Ética abertura de processo por quebra de decoro parlamentar podem se sentir no mesmo direito.
Por que, afinal de contas, só os seis petistas seriam dignos de solidariedade - aí entendida como apoio e votos favoráveis no plenário ou nas instâncias anteriores da Mesa Diretora ou do Conselho - e não deveriam também recebê-la do presidente e de seus pares os deputados de PP,PL, PMDB e PFL envolvidos na questão?
A contar pela disposição do Planalto, a agenda de reuniões partidárias do presidente incluirá também esses partidos, à exceção do PFL. Soará a discriminação partidária se nesses encontros Lula não lhes prestar solidariedade.
E, ao que consta no relatório da CPI, alguns deputados de outros partidos teriam até mais razão para reivindicá-la, pois contra eles não pesa a comprovação dos saques das contas de Marcos Valério, a despeito da existência de provas testemunhais.
O problema da solidariedade por antecipação é o prejulgamento de inocência nela contida. Se, uma vez abertos os processos, o Conselho de Ética da Câmara confirmar as suspeitas da CPI dos Correios e mostrar que os deputados incorreram mesmo em quebra de decoro, os solidários terão ultrapassado o limite da própria responsabilidade de não compartilhar com ilícitos.
Assim funciona também a tese da renúncia como forma de escapar de um "processo de apuração tumultuado e equivocado", defendida pelo ex-ministro Ricardo Berzoini, candidato à presidência do PT.
Para ele, a renúncia com o objetivo de preservar os direitos políticos dos acusados funcionaria como um "expediente de proteção dos direitos individuais".
Lícito supor que Berzoini esteja advogando para todos os deputados, visto estarem sendo todos eles, na sua visão, na posição de vítimas de um processo de apuração "tumultuado e equivocado", viciado e ilegítimo, portanto.
Na opinião dele, impróprio seria a renúncia "depois de configurada a culpa", porque equivaleria a fugir das responsabilidades.
Mais adequada a um indispensável processo de educação política é a concepção do atual presidente do PT, Tarso Genro, e até mesmo do oponente de Berzoini na eleição de amanhã, Raul Pont.
Ambos discordam não só da tese da denúncia como instrumento de defesa, como são adeptos da negativa da legenda partidária aos renunciantes para que possam concorrer às próximas eleições.
De acordo com Tarso Genro e Pont, os deputados devem enfrentar os processos até o fim e saber tanto sustentar suas defesas quanto demonstrar os vícios do processo, se for o caso.
Muito possivelmente a deseducação não seja a intenção racional de Berzoini. Mas o ex-ministro acaba apostando nela e abrindo ainda mais flancos contrários ao PT no já castigado campo da ética, pois reivindica para seus correligionários comportamento semelhante ao de outros políticos cujas biografias não registram os mesmos compromissos públicos firmados nas urnas pelos candidatos do PT.
A comparação com severinos e valdemares é tão inevitável quanto desfavorável. É inútil a tentativa de estabelecer distância só com um discurso supostamente politizado que busca dar ares de perseguição política a processos por quebra de decoro submetidos aos mesmos ritos de tantos outros aplaudidos e incentivados pelo PT.
A renúncia terá o mesmo caráter de confissão de culpa que tiveram os gestos de Severino Cavalcanti, Valdemar Costa Neto e Carlos (bispo) Rodrigues.
Com a diferença de que a manutenção dos direitos políticos pode ser inútil, pois os renunciantes no ano que vem podem não passar pelo controle de qualidade do eleitorado petista.
Réplica
A assessoria do deputado José Dirceu não vê como o convite para uma conversa com o ex-ministro possa ser interpretado como um oferecimento de entrevista, muito menos com o objetivo de buscar espaços para a exposição da estratégia de defesa de seus advogados.
"Nosso interesse nessas conversas pessoais é dar a oportunidade aos jornalistas de esclarecerem suas dúvidas sem espetáculos e exibicionismos. No ambiente de macarthismo reinante no espaço público da mídia, temos uma margem muito estreita para apresentar nossos argumentos sem o risco de distorções. Queremos ter a oportunidade de convencer os interlocutores sem o ruído da onda denuncista que está alimentando a disputa política."
Exatamente como foi dito no texto contestado: José Dirceu quer ter a oportunidade de convencer interlocutores mediante a apresentação dos argumentos que compõem a estratégia de defesa de seus advogados.