o globo
A primeira vez que vim ao Rio tinha 20 anos, havia acabado de sair de uns meses na prisão num quartel do Exército, em Vitória, estava grávida e vinha visitar o pai do meu filho preso na Vila Militar. A segunda vez foi para o "sumário de culpa", uma etapa do Inquérito Policial Militar a que eu respondia. As dez primeiras vezes que vim ao Rio foram sempre nessas circunstâncias.
Guardo destas primeiras visitas uma sensação de contradição: a estonteante beleza do Rio não combinava com a opressão daquele tempo. O aberto do mar, o verde amplo, o levemente ondulado do aterro me lembrava liberdade. Era o cenário certo para o enredo errado. O Rio era lindo, mais do que havia imaginado antes de conhecê-lo. Na última daquelas visitas, vim para o julgamento.
Fui ver a advogada naquela manhã de domingo para uma última conversa antes do julgamento. Ela deu instruções objetivas sobre riscos e chances no tribunal militar, e um carinho contido, na sala da sua casa aconchegante no Cosme Velho. Andei pelo bairro, na volta, fabricando o sonho de morar numa casa no Rio. Realizei o sonho muitos anos depois.
O espanto diante da beleza explícita do Rio me aconteceu sempre, a cada visita, mesmo depois destes estranhos encontros iniciais. Morei em São Paulo no começo dos anos 80. Não quero cuspir no prato em que comi — e, aliás, como comi bem! — mas São Paulo não é exatamente bonita. Tem seus momentos. Tem cantos conquistados por quem tem persistência e sensibilidade. Mas, naquela época, me acostumei com São Paulo e comecei a achá-la até bonita, sob certo ponto de vista. Porém, quando vinha ao Rio, tinha, de novo, o impacto inicial de surpresa e encantamento com a beleza extrema.
Antes de tudo isso, na minha infância, o Rio era o sonho distante e, ao mesmo tempo, presente. Em Caratinga, tinha os olhos voltados para o Rio. Quando a televisão chegou pela primeira vez à minha casa, eu via não a TV Alterosa de Minas, mas a TV Tupi do Rio. Quando a enchente encheu o Rio, acompanhei tudo, aflita, pela recém-nascida TV Globo. Quando me viciei em leitura de jornais, aos 15 anos, não era o "Estado de Minas" que lia, mas O GLOBO, que chegava lá mais cedo. Quando algum conhecido vinha ao Rio, encomendava o JB. Meus olhos sempre no Rio, mesmo que tenha sido assim, tarde e triste, o primeiro encontro.
Mas não foi tarde demais. Quando tive uma oferta para vir, por três meses, para fazer um trabalho temporário, desembarquei com o coração de mudança. Estou aqui há 20 anos. O Rio é desses amores da vida inteira. Não quero deixá-lo, sinto sempre o frescor dos primeiros encontros. Não deixo de amá-lo, nem ao ver os sinais visíveis do avanço dos problemas insolúveis.
Quando me instalei aqui com filhos e pertences, em meados dos anos 80, os fins de semana da família eram pura alegria. Um dia, visitar o Jardim Botânico; no outro, a Floresta da Tijuca; nos dias ensolarados, praia, que ninguém é de ferro. A descoberta que fazia naquelas incursões mais profundas na paisagem era com a incrível resistência da Natureza no Rio. Entendi que o verde do Rio é teimoso. Agredido por 500 anos, ele sobrevivia exuberante. Cenas de flora e fauna, extintas em outros espaços urbanos, resistiam no Rio.
Hoje eu o sinto cansado de resistir. A cidade parece, às vezes, oprimida. Não por aquela opressão externa dos anos 70. Parece vir de dentro.
Líderes políticos da cidade ou do estado — as coisas se misturam muito aqui, e com freqüência — são péssimos; com raras exceções. Ou são populistas, ou são bizarros, ou administradores incompetentes, ou todas as alternativas anteriores. A cidade, às vezes, deixa-se hipnotizar por intensos debates sobre falsos problemas: cachorro bravo deve ou não andar com focinheira, os consumidores de shopping devem ou não pagar o estacionamento. Temas lunáticos numa cidade onde a violência cresce; onde parte do território está sob controle de bandidos; onde tudo pode acontecer, inclusive um tiro desorientado atravessar o caixão num cemitério, ratificando a morte. É óbvio que a classe média deve pagar pelo estacionamento dos shoppings e que os transeuntes devem ser protegidos dos cães ferozes, mas levam-se meses discutindo o assunto, como se todo o resto já estivesse resolvido e, portanto, só restassem as platitudes.
Há temas complexos que devem reter nossa atenção, como o das favelas. Não há solução simples. Elas devem ser contidas porque estão destruindo o que resta da exuberante mata que protegia, refrescava e embelezava o Rio, desde sempre. Não porque estragam a vista da Zona Sul, mas porque regras e limites precisam ser respeitados numa cidade que a desordem está tragando. O que há de pior nas favelas é estarem seus moradores, cidadãos de bem, submetidos a uma minoria tirânica ou à truculência policial. Não há alternativa de moradia popular e bom sistema de transporte, por isso é difícil contê-las. Elas cresceram tanto — e ainda crescem — porque regras e leis foram desrespeitadas; as mesmas regras e leis desrespeitadas por condomínios de luxo ou boas casas que ocuparam terrenos públicos e avançaram impunemente sobre o verde.
José Júnior, que nasceu em Bonsucesso, cresceu no Centro e é coordenador do AfroReggae, grupo que nasceu em Vigário Geral, tem uma frase que me acalma. "Não acredito em caso perdido." É por isso que continuo achando que o nosso Rio, um dia, vai melhorar. Nessa esperança me despeço por duas semanas, mas já volto. Não consigo ficar longe. Vocês ficarão bem acompanhados, com Flávia Oliveira, que já conhecem bem.
Entrevista:O Estado inteligente
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