O elogio da mentira
Acareação na CPI mostrou como
falsidades que se anulam podem
revelar muitas verdades
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Policarpo Junior
Em abril de 2003, quando o governo do presidente Lula entrava no quarto mês de vida, a multinacional GTech, uma empresa especializada em operar sistemas lotéricos, assinou um contrato milionário com a Caixa Econômica Federal. Por 650 milhões de reais, a GTech renovou por 25 meses – e sem licitação – o serviço lotérico que já prestava à Caixa havia seis anos. Aqui se encerram as certezas sobre esse contrato. Daí em diante, tudo é uma espessa nuvem de suspeitas. A GTech denuncia o fato de que petistas ligados ao ministro Antonio Palocci e ao ex-ministro José Dirceu tentaram extorqui-la em 6 milhões de reais. Já os petistas dizem que, ao contrário, a empresa é que tentou suborná-los, oferecendo entre 500.000 reais e 16 milhões de reais. Na semana passada, os principais protagonistas dessa negociação estiveram frente a frente, numa acareação promovida pela CPI dos Bingos. A sessão durou mais de sete horas, teve momentos de pura baixaria e acabou sendo retratada como se não tivesse passado de um festival de acusações. Examinada com mais profundidade, a acareação revela-se devastadora para o governo que não rouba e não deixa roubar.
O advogado Rogério Buratti, ex-assessor e amigo de Palocci, acusa a GTech de ter desembolsado 5 milhões de reais para lograr a renovação do contrato, depois de ter tentado suborná-lo com uma propina que chegava a 16 milhões de reais – afinal recusada por Buratti. O diretor da GTech, Marcelo Rovai, por sua vez, acusa Buratti e Waldomiro Diniz, ex-assessor de José Dirceu, de terem tentado extorquir 6 milhões de reais da empresa em troca da renovação do contrato – afinal, assinado sem o pagamento de propina alguma. As sete horas de discussões face a face não foram capazes de esclarecer quem está com a razão. Mas, seja qual for a verdade, o governo sai profundamente arranhado do episódio. Ou a GTech foi achacada pelo cupinzeiro do PT, que ficou voando na volta de um contrato milionário para arrancar alguma vantagem, ou, então, os cupins petistas foram vítimas de uma tentativa de suborno, à qual não souberam – ou não quiseram – dar um basta imediato e definitivo. Pode-se dizer, portanto, que nos bastidores do governo Lula um grande negócio ou tem suborno ou tem extorsão. E isso não é uma boa notícia para o governo nem para o país.
O advogado Enrico Gianelli, que prestou consultoria à GTech na época da renovação do contrato, mostrou na acareação uma espécie de organograma montado com o objetivo de relacionar as pessoas influentes do governo que poderiam ser sensíveis aos interesses da empresa. No organograma, estava o nome de Waldomiro Diniz, que então prestava assessoria parlamentar ao governo, o que nada tem a ver com loterias. Estava, também, o do empresário de jogos Carlos Cachoeira, que foi vítima de um achaque de Waldomiro Diniz, devidamente gravado em vídeo. Na acareação, Rogério Buratti disse que Marcelo Rovai lhe apresentou a proposta da propina, ao que Rovai rebateu dizendo o seguinte a Buratti: "O senhor é bandido". A oferta de propina, disse Buratti, foi levada ao conhecimento do ministro Palocci. "E ele rejeitou", completou. Se for verdadeira essa versão, então no gabinete do ministro da Fazenda se debate sobre uma oferta de propina e não se faz o que manda o manual: simplesmente chamar a polícia. Isso lembra a cena hilária – e despudorada – em que a bancada do PTB se reuniu para votar se receberia ou não o mensalão!
A GTech garante que conseguiu renovar o contrato de loterias sem pagar nada. Quer dizer, nada ilegal. Uma das despesas extras já comprovadas foi a contratação da MM Consultoria, um desconhecido escritório mineiro que recebeu 5 milhões de reais por serviços jurídicos. Buratti garante que esse pagamento foi a propina paga pela GTech, cujo destino final ele desconhece. O fato é que tudo em torno do pagamento desses 5 milhões de reais é de uma estranheza ímpar. Primeiro: nunca se soube por que uma simples ação na Justiça, impetrada pela empresa em favor da GTech, custou tamanha fortuna. Segundo: o dinheiro foi sacado em espécie, o que providencialmente não deixa rastro de seu destino. Terceiro: um dos donos da MM Consultoria, o advogado Walter Santos Neto, diz que gastou toda a fortuna em vinhos, viagens e empréstimos informais a amigos. Por fim: outro dono da consultoria, Marcelo Coelho Aguiar, tinha um vínculo muito sólido com o governo: era funcionário da Secretaria de Comunicação, com direito a sala no Palácio do Planalto.