A reunião entre o presidente e a bancada do PT afastou os derradeiros vestígios de dúvida. Lula sempre soube de tudo, informou o culto que formalizou a absolvição de parlamentares sob ameaça de cassação. "Vocês não são corruptos", abençoou o Grande Pastor. "Cometeram erros, mas não de corrupção. Todos vocês são companheiros do PT. Eu mesmo já sofri acusações injustas e sofri muito". Bonito, isso. E tão consistente quanto os prédios de areia vendidos por Sérgio Naya.
O perdão concedido pelo condutor do rebanho foi endossado por Antônio Palocci, bispo de Ribeirão Preto. "Vocês estão pagando um preço muito alto por uma coisa que é reprovável, mas que foi feita por todos os partidos e não pode significar o banimento da vida pública", pregou o acólito que trocava idéias com Rogério Buratti a questão do lixo e a ética na política.
O Grande Pastor e o bispo ajudante reprisaram a afinação exibida no esforço para levar Aldo Rebelo à presidência da Câmara. Lula autorizou a compra do apoio de deputados arredios, consumada com a esperta distribuição de verbas do orçamento. O valerioduto foi desativado? Os cofres públicos estão aí para isso. Palocci liberou "mensalões" por atacado, embarcados no trem-pagador que teve por maquinista Jacques Wagner.
As cenas de cinismo explícito no Planalto somaram-se a conversas atrás do altar. Os candidatos à guilhotina foram aconselhados a usar o truque da renúncia para evitar a perda dos direitos políticos. Todos voltarão à Câmara nas eleições de 2006, sussurraram os conselheiros. O povo esquece logo. Não estão vendo como Lula vai ficando melhor no retrato?
Se esse culto obsceno tivesse ocorrido numa igreja de verdade, é provável que, como nos relatos bíblicos, raios medonhos caíssem sobre a cabeça da turma. Mas o palácio presidencial é hoje o templo da mentira - e tudo ali é permitido. Lula, por exemplo, vem espancando a verdade, a ética e os códigos legais desde o começo da crise gravíssima.
Ele mente como quem respira. Enquanto tentava abortar a CPI dos Correios, jurou investigar as denúncias sem clemência. "O governo está disposto a cortar na própria carne", declamou. Minutos depois, ordenou aos petistas que bloqueassem as apurações. As barreiras foram implodidas pela drenagem do Pântano do Planalto.
O "caixa dois" que movimentou fortunas de espantar xeiques árabes abriu o desfile de abjeções. Nos andores seguintes se equilibravam incontáveis ladrões federais e toda sorte de patifarias. O primeiro foi ocupado pela turma do mensalão.
Depois desfilaram contratos hiperfaturados, porcentagens desviadas de bilionárias verbas de publicidade, lavanderias de dinheiro sujo com sucursais no exterior, negociatas envolvendo bancos privados, grandes estatais e empresas pilantras, doações em dólares ao primeiro-filho, Silvinho Pereira num Land Rover e outros horrores. Nunca se roubou tanto.
A procissão obrigou Lula a simular perplexidade na TV. "Eu me sinto traído, indignado pelas revelações sobre as quais eu não tinha conhecimento", afirmou em 12 de agosto. Menos de dois meses depois, decidiu que que não houve crimes, não há corruptos. Nem crise.
Traído foi o Brasil. Traído pelo homem que, em 2002, parecia a mais perfeita tradução da esperança