Excitado com a primeira boa notícia colhida nos campos da política em 2005 – o triunfo de Aldo Rebelo na disputa pelo comando da Câmara –, o presidente Lula da Silva recuperou a voz e saiu por aí, fardado de Marechal da Vitória. Tropeçou num bispo que prefere morrer de fome a permitir a transposição do Rio São Francisco. O início das obras teve de ser adiado. O governo capitulou.
Mas o vencedor da Batalha da Câmara não admitiu que se rendera a uma batina solitária. E ofereceu ao país outra estranha sopa de letras. "Como poderia adiar uma coisa que não tem prazo para começar?", perguntou. A frase jogou no lixo o cronograma minuciosamente traçado e exibido a meio mundo por Ciro Gomes, ministro da Integração Nacional.
Surpreendido pela mudança dos ventos, Ciro não tem nada a dizer sobre o errático Lula. Só fala sobre a Igreja, e em conversas reservadas. Os comentários deixariam ruborizado o mais extremista dos anticlericais criados pelo escritor Eça de Queiroz.
Lula delegou a outros os retoques no acerto com o bispo e retomou a discurseira. Irritou-se ao saber que a CPI dos Bingos aprovara uma acareação entre seu secretário Gilberto Carvalho e dois irmão do prefeito Celso Daniel. Estou esperando essa CPI convocar um bingueiro", provocou.
Teria evitado a frase irônica se lesse jornais. Todos publicam os próximos capítulos do novelão da crise. Na quarta-feira, cinco bingueiros do primeiro time pousaram juntos na CPI: Valdomiro Diniz, Carlinhos Cachoeira, Rogério Buratti, um diretor e um exadvogado da GTech.
A mera contemplação do quinteto deveria figurar entre as provas do crime: todos têm cara de ladrão. O palavrório e as trocas de insultos confirmaram que a Caixa Econômica perdeu a vergonha e o medo da cadeia para fechar contratos milionários, todos irregulares, com aquela turma.
"Até agora, as CPIs não comprovaram nenhum caso de corrupção no governo", disse Tarso Genro no começo da semana. Se insistir na fantasia, algum companheiro sensato precisa comunicar ao presidente interino do PT que a Caixa não foi privatizada. E recordar-lhe que continuam sob o controle do governo o Banco do Brasil, a Casa da Moeda, o Instituto de Resseguros do Brasil, a Procuradoria Geral da Fazenda, os Correios e outros braços da máquina federal envolvidos em ladroeiras, fartamente documentadas pelas três CPIs.
O PT já se convencera de que caixa dois não é crime. Acha improcedente o berreiro contra os "recursos não-contabilizados" que, viajando em malas e cuecas, financiaram campanhas ou orgias e enriqueceram pilantras. José Dirceu se promoveu a inocente absoluto. Atribui seu calvário à mídia tendenciosa. "É uma tentativa de golpe branco para que Lula não tente a reeleição e eu seja cassado", delira. Lula endossa a tese muito imaginosa. Deveria devolver ao "querido Zé" a chefia da Casa Civil.

Ainda à espera de respostas para o roubo de R$ 2 milhões guardados na sede carioca da Polícia Federal, o Cabôco quase caiu da cadeira ao saber do furto de 20 quilos de cocaína no mesmo local, no mesmo cofre. E resolveu encaminhar uma sugestão ao Ministério da Justiça: que tal fechar o prédio no meio do expediente, algemar todo mundo e transformar salas ou gabinetes em celas? Seria uma bonita cadeia para policiais federais ladrões.
Não é assim, se lhe parece
Trecho da entrevista concedida por Luiz Inácio Lula da Silva ao jornalista Milton Neves.
– Uma pessoa que teve a oportunidade de fazer alguma coisa de bem para o Brasil, que tinha respaldo da grande maioria do povo brasileiro, e ao invés de construir um governo construiu uma quadrilha, me dá pena. Deve haver sintoma de debilidade no funcionamento do cérebro. O povo esperava que pelo menos essa pessoa pudesse conduzir a indícios de soluções os graves problemas. A ganância, a vontade de roubar, a vontade de praticar corrupção jogou o sonho de milhões e milhões por terra. Foi uma grande lição que o povo aprendeu e eu espero que o povo em outras eleições escolha pessoas que pelo menos eles conheçam o passado político.
Uma corajosa autocrítica? Nada disso. A "pessoa" que Lula menciona na entrevista, gravada há um punhado de anos, é o expresidente Fernando Collor.

Clareza é isso aí, gente boa
A Telemar levou a taça com a nota que explica o apagão telefônico no Rio, na tarde de quinta-feira. Trecho:
"Uma falha decorrente de alteração de funcionalidade de software relacionado ao encaminhamento de ligações provocou uma redução no índice de completamento de chamadas entre telefones fixos de prefixos distintos."
Certo, Telemar. Agora a gente entendeu.
Para quê? Para nada
O Brasil fez coisas de que até o Brasil duvida para obter a vaga no Conselho de Segurança da ONU. Enquanto espalhava pelo mundo diplomatas reduzidos a cabos eleitorais, trocou de amigos, revogou a ética, renunciou à autoestima e demitiu a lógica.
Aconselhado pelos cortesãos do Itamaraty, o ex-operário Lula arquivou o passado para afirmar que a China pratica uma economia de mercado. Lá, os trabalhadores ganham pouco mais que os escravos dos tempos do café. Subsídios favorecem exportações, importações enfrentam barreiras inverossímeis.
Louco por negócios da China (e sempre atrás da vaga sonhada), o país vendeu a alma. Não entrou no mercado chinês. E foi barrado na ONU.
Revoada suspeita

O presidente da entidade, Luiz Paulo Amaral, protocolou no Ministério Público da União em São Paulo uma representação contra o Ibama. Marcado por denúncias, cobranças e perguntas embaraçosas, o texto atinge na testa o Núcleo de Fauna, controlado por Cristiane Leonel. É a principal assessora de Analice, irmã de Silvinho Pereira.
É, sobretudo, cunhada de Luiz Gushiken, ministro do Nada. Amaral comandou um ataque em pinça. No mesmo dia, foi ajuizada na Justiça Federal do Rio uma ação contra o Comitê das Araras- Azuis, administrado pela dupla de apadrinhadas. A Abrase quer saber, por exemplo, que critérios orientaram o envio à Espanha, aos EUA e ao Qatar de exemplares dessa raridade da fauna brasileira.
Além da Abrase, um exfuncionário do Ibama mantém Analice e Cristiane na alça de mira. Documentos em seu poder provam o pouso suspeito de araras-azuis nos domínios de um empresário e de um banqueiro paulistas.
Saúvas e saúde

Se não chegou aos fornecedores, que se culpe o governo fluminense, argumentou a mensagem. O secretário estadual da Saúde, Gilson Cantarino, replicou no dia seguinte. Cantarino diz que os R$ 4 milhões enviados mensalmente pelo ministério se destinam à compra de "medicamentos excepcionais".
O Interferon Peguilado é apenas um deles. A verba do governo federal, segundo o secretário, é usada para comprar tanto medicamentos prescritos para portadores de hepatite C como de Aids. Cantarino diz que as remessas têm de subir para R$ 10 milhões. É difícil.
O orçamento anual do Programa Nacional de Hepatites soma R$ 5,7 milhões. Os laboratórios Roche e Schering só retomarão o fornecimento se receberem os R$ 12 milhões que a secretaria deve cada um. Carlos Varaldo (foto), líder do movimento das vítimas de hepatite, lembra que em 2003 e 2004 funcionários corruptos desviaram R$ 231 milhões do ministério.
Vá em paz, Excelência
O deputado José Mentor (PT-SP), forte candidato à guilhotina, simula perplexidade com a cassação iminente. "Não pude me defender", diz Sua Excelência. E por que não? "Nem sei o que foi que eu fiz", choraminga. Para apaziguar a alma atormentada, seguem-se dois episódios protagonizados por Mentor.
Primeiro: relator da CPI do Banestado, que devassou contas bilionárias no exterior, excluiu do papelório final empresas suspeitíssimas. O Banco Rural, por exemplo. Segundo: recebeu R$ 120 mil do valerioduto. Descoberta a propina, Mentor alegou que recebera a bolada por ter sido consultor de empresas de Marcos Valério. Sem recibo. Pode rumar em paz para o cadafalso, deputado.