Entrevista:O Estado inteligente

sábado, agosto 06, 2005

Zuenir Ventura O festival de mentiras

O GLOBO


Depois de assistir pela televisão a várias das chamadas "oitivas", cheguei à conclusão de que uma das maiores descobertas da CPI dos Correios é a de que não só a corrupção é endêmica; a mentira também. Ela e a omissão têm sido usadas com tanta freqüência, a hipocrisia está tão vulgarizada e o cinismo tão banalizado que, se alguém resolver falar a verdade, vai fazer o maior sucesso.


Até sua última aparição esta semana, quando meteu os pés pelas mãos, caiu em contradição e finalmente foi desmentido, Roberto Jefferson era o mais verdadeiro ou menos mentiroso do elenco. No duelo com José Dirceu, por exemplo, ele passou mais credibilidade. O saldo lhe foi favorável. Uma pesquisa na internet revelou que 60% das pessoas ouvidas confiavam nele e apenas 20% no ex-chefe da Casa Civil do governo Lula.

A cena dele perdendo a linha, a cabeça e a compostura foi significativa, porque o festival de mitomania e amnésia que assola Brasília estava desmentindo a tese de que o mentiroso se trai através de sinais exteriores — fica sem jeito, ruboriza-se, denuncia-se na voz e nos gestos. Depoentes como Karina, Marcos Valério, Delúbio, Silvio, Dirceu, Simone foram capazes de passar dez horas dizendo "não sei", "não me lembro" com a mais tranqüila cara-de-pau, mesmo quando as negativas tinham contra si todas as evidências.

Mas convenhamos que eles se saíram bem nos interrogatórios porque se prepararam melhor do que a maioria dos inquisidores. Diante de perguntas redundantes e previsíveis, respostas ensaiadas acabam funcionando, tornando difícil pegar uma contradição ou desmontar uma incoerência.

O maior flagrante de mentira, porém, ocorreu no depoimento de José Dirceu, não quando afirmou que não sabia o que passava em volta dele, no Planalto e no PT, e sim quando disse sem contrair um músculo, sem corar de vergonha, que não era arrogante no exercício do poder. Tão natural quanto a clamorosa mentira foi o desmentido da platéia por meio de risos e gargalhadas.

A compensação para tudo isso é que essas construções tão bem montadas acabam caindo por terra em face dos fatos. Há sempre uma agenda, uma gravação, um cheque no caminho dessas mentiras. O que adiantou Dirceu afirmar com toda a ênfase: "Não é verdade, não é fato. Nunca tive relação com a Portugal Telecom de nenhum tipo"? De que valeu tanta retórica, se no dia seguinte ia-se descobrir em sua agenda duas linhas demolidoras: "Reunião com Marcos Valério e Ricardo Espírito Santo — Banco Espírito Santo de Portugal".

Tido como leninista, Dirceu perdeu a chance de aplicar a lição de Lenin de que a verdade é que é revolucionária, não a mentira.

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