O GLOBO
No périplo pelo país atrás de suas origens, o presidente Lula garantiu em Teresina a um grupo de representantes dos chamados "movimentos sociais" — leia-se CUT, MST, associações de moradores e até de combate à corrupção — que é solidário a eles no que classificou de "embate" com o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, para baixar os juros.
E deixou no ar a promessa de que eles cairão, "não da noite para o dia", mas cairão, para melhorar a empregabilidade. Lula admitiu ainda que a equipe econômica "é dura", mas garantiu aos companheiros que vai acabar ganhando essa queda-de-braço.
A tal ponto que eles saíram da reunião convencidos de que, agora sim, o presidente vai mudar a política econômica para atender às suas reivindicações. Em condições anormais de temperatura e pressão como a que estamos vivendo, essa tertúlia sindicalista teria todos os ingredientes para incendiar os mercados financeiros, criando um clima de insegurança que jogaria o dólar para as alturas.
Ao contrário, o dólar manteve-se estável em uma cotação próxima dos R$ 2,30, uma das mais baixas dos últimos tempos, e o risco-país caiu um pouco mais, refletindo a força da balança comercial, que terá um saldo de mais de R$ 40 bilhões este ano, reduzindo nossa vulnerabilidade externa.
A bravata sindical de nosso presidente já não assusta mais os investidores, que chegaram a ficar nervosos no início dessa crise quando um dos discursos populistas da velha face de Lula parecia indicar que ele escolhera a linha chavista para enfrentar a crise. Logo ficou claro que a conseqüência dessas bravatas é nenhuma, e que o importante mesmo não é olhar para o comportamento errático do nosso presidente, mas para a frieza profissional do nosso ministro da Fazenda, Antonio Palocci, esse, sim, a verdadeira âncora do governo nesses dias tumultuados pelas denúncias e pelo comportamento inadequado do presidente da República.
No limite, o mercado preocupa-se muito mais com o envolvimento de Rogério Buratti, antigo assessor de Palocci na Prefeitura de Ribeirão Preto, nas falcatruas que estão sendo investigadas por três CPIs e um Conselho de Ética, do que pelo envolvimento do ex-homem forte do governo José Dirceu. E até mesmo a possibilidade de as acusações chegarem ao presidente Lula assombra muito mais pelo que pode significar de mudança na política econômica, do que propriamente pela sua capacidade de mobilização desses mesmos "movimentos sociais".
A exemplo do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Nelson Jobim, que teme as conseqüências de um eventual processo de impeachment do presidente Lula, há muita gente nos círculos do poder convencida de que o MST, os sindicatos dos caminhoneiros e cegonheiros, e outras associações do gênero têm condições de parar o país contra "o golpe das elites".
Há, porém, quem considere que a possibilidade de mobilização do lumpesinato é inversamente proporcional à desmoralização que a cada dia aumenta o descrédito do PT e pode atingir a imagem do presidente Lula, já enfraquecida nos grandes centros do país onde realmente contam as manifestações populares.
No próximo dia 16, teremos oportunidade de ver, em uma manifestação que já está sendo classificada de chapa branca, qual o tamanho da disposição desses "movimentos sociais" de marchar ao mesmo tempo contra a corrupção e a favor do presidente Lula, dois comportamentos que cada dia se distanciam mais, não exatamente por documentos ou provas cabais de seu envolvimento na trama que abarca todo seu governo, mas pela atitude dúbia que ele pessoalmente, o governo e o próprio PT assumem diante das investigações.
O governo que há dois meses jogou toda sua força para impedir a criação da CPI, com a participação direta do próprio presidente, é o mesmo que continua tentando obstaculizar as investigações. A Polícia Federal vem utilizando uma tática maliciosamente astuciosa: espera que as CPIs convoquem determinada pessoa e expede uma convocação para um dia antes, esvaziando a sessão das CPIs e, segundo desconfiança de alguns deputados, ganhando tempo para manipular as investigações.
O comando da CPI dos Correios, acusado de chapa branca quando de sua instalação, aparentemente comporta-se à altura do momento político, mas não consegue que os órgãos oficiais, especialmente o Banco do Brasil, enviem os documentos necessários à apuração. Ou que os envie com maior rapidez, para que as investigações ganhem ritmo.
O comportamento do procurador geral da República, Antonio Fernando de Souza, ainda é uma incógnita: não declara a prisão preventiva do lobista Marcos Valério mesmo depois que documentos foram destruídos, mas também não lhe concede a "delação premiada", obedecendo a uma estratégia de investigação que, se a muitos parece adequada, pois não há garantia de que Valério esteja mesmo disposto a revelar tudo o que sabe, a outros parece falta de interesse em aprofundar as investigações.
Como a CPI é um tribunal político, mesmo a concessão da garantia do hábeas-corpus preventivo a acusados como Delúbio Soares, Marcos Valério e Sílvio Pereira, dando-lhes o "direito a mentir", como ficou vulgarmente conhecido o direito a não se incriminar com suas respostas, ficou no grande público, que assiste cada vez mais em tempo real aos depoimentos, a sensação de que até mesmo o Judiciário está envolvido em uma negociação política, na tentativa de transformar em pizza as investigações, conforme denunciou a deputada Denise Frossard. A divulgação de relatórios parciais, com o pedido de punição para os primeiros culpados, será a melhor resposta dos parlamentares a essas desconfianças.
Entrevista:O Estado inteligente
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