Do "vão ter que me engolir" à cafetina Jane:
fecundos capítulos da novela do mensalão
Em Zagallo já era feio. O então técnico da seleção tinha o rosto transtornado de fúria, a voz cheia de rancor, e encarava a câmera de TV com ganas de pit bull ferido, quando despejou sua famosa frase: "VOCES VÃO TER QUE ME ENGOLIR!". No presidente da República, fica muito pior. O "eles vão ter que me engolir" destinado pelo presidente Lula aos adversários na semana passada inscreve-se na galeria das grandes grosserias já disparadas pelos presidentes do Brasil. Lembra o "Me esqueçam" do general João Figueiredo quando, em sua última entrevista como presidente, o jornalista Alexandre Garcia lhe perguntou que palavras gostaria de endereçar naquele momento ao povo brasileiro. Com a ameaça de adentrar goela abaixo de uma parcela de brasileiros, o "Lulinha paz e amor" dava abrupta marcha a ré em direção aos tempos espinhudos do sapo barbudo.
O presidente Lula tem andado exaltado em seus pronunciamentos. Um dia diz que "ninguém tem mais moral e ética" do que ele, no outro que a "elite brasileira" não vai fazê-lo baixar a cabeça. Por duas vezes, bateu na tecla de que, se se deve investigar até o fim as denúncias que sacodem o país e punir os culpados, deve-se, também, absolver os inocentes e pedir-lhes desculpas. "Que pelo menos a imprensa brasileira divulgue e peça desculpas àqueles que foram acusados injustamente", disse, no mesmo discurso do "vão ter que me engolir". É nessa hora que eleva o tom de voz e embica num fraseado compassado, sinal para a claque dos comícios de que é hora de aplaudir. Fica a impressão de que a pregação que veio antes, de punição aos culpados, foi, além de obrigatório tributo à obviedade, mero contraponto ao apelo à absolvição, o ponto que realmente interessa ao presidente. "Vamos inocentar!", isso, na verdade, é o que ele mais está querendo dizer.
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Rica e criativa é a coleção de primeiras desculpas na atual série de escândalos – aquelas explicações que primeiro vêm à cabeça dos implicados, quando apanhados fazendo o que não se deve. A primeira justificativa do insuperável Marcos Valério para suas retiradas em dinheiro vivo é que era para comprar vacas. Quando surgiu o nome da assessora do deputado Paulo Rocha, então líder do PT na Câmara, entre os que freqüentavam o Banco Rural, ele disse que ela costumava ir a um médico no mesmo prédio. O deputado João Paulo, ex-presidente da Câmara, foi mais pitoresco. Disse que sua mulher foi ao Banco Rural para pagar uma mensalidade de TV a cabo. Revelou-se depois que a senhora João Paulo retirara 50.000 reais da dadivosa conta dos favorecidos do petismo. As TVs a cabo ainda não cobram tanto.
Na semana passada, Marcos Valério explicou que o tesoureiro do PTB, Emerson Palmieri, viajou com ele para Portugal "como amigo". Ele estava "estressado" e queria relaxar. A viagem foi realizada entre os dias 24 e 26 de janeiro deste ano. Três dias apenas, dos quais é preciso descontar as cerca de dez horas de ida e dez de volta no avião. Claro que a dupla viajou de primeira classe, mas, mesmo assim, vinte horas de avião são vinte horas de avião – um período de confinamento num ambiente pequeno e fechado, com sacrifício para as pernas e ronco permanente de motores nos ouvidos. O que sobrou de tempo certamente não foi suficiente para um passeio vagabundo pelo charmoso centro de Lisboa, ou para apreciar o pôr-do-sol à beira do Tejo, muito menos para uma escapada até as delícias serranas da vizinha Sintra. Pobre amigo Palmieri. Só pode ter voltado com os nervos à flor da pele.
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"Nossa!", reagiu alguém. Momento mais assustador do confronto de terça-feira foi quando o deputado Roberto Jefferson disse ao ex-ministro José Dirceu: "Vossa excelência provoca em mim os instintos mais primitivos". Que instintos seriam esses? O de bater, esganar? São os que ocorrem mais fácil. O de matar, talvez? Nossa! Mas há outros instintos primitivos. O de cheirar o outro, por exemplo, como os cães. O de morder. Ou... deve-se dizer?... vá lá: o instinto sexual. Não, afastemos esse pensamento espúrio, essa idéia grotesca de um entrevero sensual entre os dois titãs da novela do mensalão...
Mesmo porque a temporada já está por demais carregada dos selvagens e insidiosos eflúvios do sexo. Primeiro foi a secretária Fernanda Karina ameaçando tirar a roupa – e os mais maldosos enfatizariam nesse caso o sentido amedrontador do verbo "ameaçar". Depois, durante o interrogatório de Simone Vasconcelos, a diretora financeira das empresas de Marcos Valério, surgiu em cena a cafetina Jane Mary Corner, também conhecida como Jane Maria Esquina. "A senhora conhece uma cafetina de Brasília chamada Jane?", perguntou o senador Demostenes Torres. A depoente negou, indignada. É sempre assim. Pela lógica da atual conjuntura, à negação do primeiro momento segue-se invariavelmente a confirmação no dia seguinte. Naquele momento, o país assistia à aparição gloriosa da proxeneta do mensalão.
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