Eu costumo responder pessoalmente a todos os e-mails que recebo. Na semana passada fui surpreendido com a mensagem do sr. Otávio que me fazia um questionamento que, a meu ver, merece não só uma resposta, mas um artigo. O Otávio, indignado com os meus recorrentes textos contra o PT, me tachou de hipócrita com o argumento de que, tendo sido eu deputado federal por dois mandatos, "sabia muito bem que o 'mensalão' sempre existiu".
Meu caro Otávio, eu lhe posso afirmar, com segurança, que esta prática de aliciar parlamentares com dinheiro vivo, mensalmente, nunca ocorreu em toda a história do Congresso Nacional. É por essa razão que meus artigos têm sido tão veementes. Não vou bancar o ingênuo, Otávio. Seria desrespeitar a sua inteligência.
Há alguns políticos que realmente são idealistas e patriotas ao extremo de não fazer nenhuma barganha ou concessão com relação ao Poder Executivo.
Não são a maioria, é verdade. A média dos parlamentares sempre está aberta a algum tipo de negociação. Mas, dentre estes, poucos são aqueles que se dispõem a abrir mão de seus mais caros princípios.
De certa forma, é positivo que seja assim. O Parlamento, por natureza, é uma casa de debates e negociação. Se todos os deputados e senadores forem radicalmente intransigentes, não há governo – ao menos no sistema presidencialista e pluripartidário – que consiga governar.
Todos os projetos que chegam ao Congresso são exaustivamente examinados, debatidos, reformulados e negociados antes de irem à votação no plenário. O presidente da República, para garantir um mínimo de governabilidade, procura, dentro do possível, manter uma maioria, com folgada margem de segurança.
Para tanto ele se dispõe a abrir mão de parte de seu poder e concede ministérios ou cargos de alto escalão aos partidos aliados. Até aí, é tudo muito saudável. Se os partidos se propõem a dar sustentação ao governo no Parlamento, é natural que eles também compartilhem o poder de governar.
O problema, no Brasil, é que ainda não foi encontrada uma fórmula consensual de se garantir a fidelidade partidária. Por esta razão as negociações não se dão apenas com os partidos, mas também com cada parlamentar, individualmente. Isso abre margem para as chamadas barganhas fisiológicas, nas quais muitos parlamentares, em troca de seus votos, exigem cargos federais em suas regiões eleitorais ou, então, a liberação de verbas para as emendas ao orçamento que fizeram.
Nos dois mandatos que cumpri, era assim que se travavam as relações entre o Executivo e o Legislativo. Existia corrupção? Provavelmente, sim.
Mas ela se dava fora das paredes do Parlamento. No Congresso tudo se sabe. Sempre ouvi dizer de parlamentares que se locupletavam dos cargos de que dispunham para cobrar favores, privilégios e facilidades dos seus titulares. As emendas ao orçamento, por sua vez, eram para obras federais – nem sempre prioritárias – nos redutos eleitorais de seus proponentes.
Mas, como eu dizia, meu caro Otávio, eram esses os instrumentos de barganha que sempre existiram entre o governo e os parlamentares.
Ao que eu saiba, nem na minha época, nem em nenhuma época anterior, governo algum desceu de seu pedestal ou se despiu de sua dignidade para negociar com dinheiro vivo o voto dos deputados.
Em mais de 20 anos de vida pública, a primeira vez que ouvi falar de "mesada" em espécie, para parlamentares foi em 2001, no governo anterior da cidade de São Paulo. Um experimentado vereador da oposição me confidenciou, horrorizado, que era assim que se davam as relações entre a Prefeitura e a Câmara Municipal. Nunca denunciei o fato, primeiro, porque não tinha provas e, segundo, porque achei isso surpreendente e indecente demais para ser verdade.
Agora, com a existência do mensalão na Câmara dos Deputados praticamente comprovada, eu passei a dar crédito à confidência daquele vereador. A mim me parece que esta é uma característica do modus operandi do PT para governar. Em vez de compartilhar o poder com a odiosa burguesia, eles preferem preservá-lo todo para si e recompensar os parlamentares aliados com o vil metal. Onde eles arranjam dinheiro para tanto, aí já é outra história...
É odioso, meu caro Otávio. E é por isso que meus artigos têm sido tão incisivos. Nunca, na História, a prática política desceu a níveis tão baixos. A própria legitimidade da democracia, aos olhos do povo, está em xeque. Se a subserviência do Parlamento pode ser comprada com dinheiro, para que, então, precisamos de Parlamento? Não seria mais barato fechá-lo e governar por decreto?
Fui deputado, sim, meu caro Otávio. E é em nome de minha biografia, de meu passado, que eu exijo que todos, corruptos e principalmente corruptores, passem pelo fio da guilhotina do opróbrio popular. Que rolem as cabeças, às dezenas, se preciso for. A honra do Parlamento, maculada, emporcalhada, tem de ser enxaguada, dessujada e purificada com o sangue dos infames.
A política há de ser a mais nobre das artes, jamais a mais vil das profissões. Quando perguntaram a Lincoln se era possível a um homem público ser honesto, ele teria respondido: "Se você acha que não, seja honesto sem ser um homem público...
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