No momento que pelo menos os setores mais atentos e bem informados da sociedade sentem o estômago se revirar diante do que já entrou para a história como o maior escândalo de corrupção política da vida nacional, eis que o presidente Lula reforça o tom chavista de sua campanha pela reeleição, na sua cidade natal de Garanhuns. "Com ódio ou sem ódio", gritou, com o semblante alterado e o olhar esgazeado, em comício, anteontem, "vão ter que me engolir outra vez." É simplesmente assombrosa a insensibilidade de Lula para os imensos riscos embutidos na realidade que o cerca, assim como para a ética da Presidência da República. Quanto aos riscos, ele parece acreditar que, se insistir em ignorá-los – ou se insistir em fingir ignorá-los –, eles se dissiparão por si sós. Quanto à ética, é incapaz de entender que do Supremo Magistrado da Nação se exige um mínimo de circunspecção, dispensável no caso de um líder sindical. Tendo claramente abdicado de governar, o presidente dedica o que deveria ser o seu precioso tempo a carregar a sua recandidatura para cima e para baixo, em eventos públicos concebidos para serem, como se diz, eventos de mídia. (Agora são dois comícios por dia.) Neles, emprega palavras tais que, mesmo se avaliadas pelo mais caridoso dos critérios, traem a intenção de agravar um confronto que a oposição tem feito tudo para manter aquém do ponto de ebulição. Compreende-se até, numa apreciação estritamente pragmática, que ele tenha decidido jogar com entusiasmo a cartada do populismo – a ligação direta entre o líder e a massa – quando o seu partido perdeu o eixo, a garra e a moral. Dispondo ainda da maior parte do seu patrimônio de carisma junto aos brasileiros mais simples, que com ele se identificam e não acompanham com espírito crítico a evolução das investigações sobre denúncias de corrupção – absolvendo-o, pois, de qualquer malfeito, por antecipação –, Lula a eles se dirige para fazer praça de suas origens, de sua integridade ética e de suas alegadas realizações, o que decerto lhe foi aconselhado por seu caríssimo marqueteiro Duda Mendonça (que recebeu das contas de Marcos Valério, não se sabe se por serviços passados ou futuros, a bagatela de R$ 15,5 milhões). Mas uma coisa mudou no script. O presidente trocou o Lulinha, paz e amor, a criação mendoncina sem a qual ele não teria recebido em 2002 os 52 milhões de votos de que tanto se vangloria, por uma espécie de Lulão, bazófia e rancor. Esse novo – ou exumado – personagem do espetáculo de acirramento desmancha em público o que alguns de seus colaboradores tentam costurar em privado: uma forma de distender o ambiente político, sem prejuízo dos inquéritos parlamentares, mediante uma interlocução desarmada em torno de uma agenda legislativa útil para o País. As investidas de Lula, no entanto, desencadeiam a inevitável reação igual em sentido contrário. Depois do discurso de Garanhuns, o sempre moderado senador Tasso Jereissati contra-atacou. "Chega, presidente, de fingir que não tem nada com isso", exigiu. "Chega dessa farsa enorme, em que apenas dois ajudantes de segunda categoria realizaram todos os atos irregulares." Numa conjuntura que demanda sobriedade de todos os envolvidos, o presidente da República é quem inflama os ânimos, conquistando as manchetes pelos meios mais inadequados. Quando cabeça fria é gênero de primeira necessidade, o chefe do Estado faz questão de ser o cabeça quente por excelência. Em vez de unir os brasileiros estarrecidos com o que lhes tem sido dado a conhecer dos subterrâneos da política, ele os divide entre os seus eleitores e os que "vão ter que me engolir". Enquanto as demais instituições funcionam – admiravelmente, dadas as circunstâncias – com o Ministério Público, a Polícia Federal, as CPIs do Congresso e o Conselho de Ética da Câmara agindo, em geral, com seriedade e correção, a Presidência da República é a única instituição que funciona às avessas, com seu titular semeando ventos no limite da irresponsabilidade. Com as instituições encarregadas das investigações funcionando com exemplar seriedade e competência, o presidente não tem o que temer, se, de fato, é o modelo de ética que diz ser. Se for esse o caso, talvez tenhamos que engoli-lo, mesmo, outra vez. Mas, em hipótese alguma teremos de engoli-lo com "casca e tudo", como começam a ameaçar os "movimentos sociais" que ele está açulando.
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sexta-feira, agosto 05, 2005
Editorial de O Estado de S Paulo Jamais com ‘casca e tudo’
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